No Verão, correm o país de lés-a-lés, a cantar em português. Já houve quem lhes chamasse ‘artistas pimba’, mas eles nunca se importaram porque vendiam discos ao ‘desbarato’. Agora a cantiga é outra. Em vez de ‘pimba’, o seu lema é o amor
Corria o ‘Verão Quente’ de 1975, quando Américo Monteiro, nascido a 25 de Março de 1957, em Covas do Douro, decidiu conciliar os estudos do liceu com a aprendizagem da guitarra clássica. E em boa hora o fez. O rapaz tinha jeito para a música e cinco anos depois já estava a dar aulas. Graças a ele, os estudantes passaram a tocar os temas dos Beatles, Elvis Presley e do português José Cid, um dos ídolos do professor. Mas Américo queria mais. As quatro paredes daquela escola estavam a tornar-se pequenas para ele - tal como tinha acontecido com a remota aldeia onde nasceu. Movido pela ambição de singrar no mundo da música como intérprete, opta então pelo nome artístico de Emanuel e grava o primeiro disco em 1992, intitulado ‘Tu sabes que já foste minha’. No ano seguinte, sai ‘Portugal, Ai que Saudade’ – um álbum feito a pensar nos emigrantes, o público-alvo deste tipo de música - mas os dois trabalhos não fizeram história. Isso só aconteceria em 1995. Trancado vários meses num estúdio de gravação, Emanuel estava determinado a sair de lá com uma canção ‘diferente’, que conseguisse pôr todos os portugueses a dançar. Foi assim que nasceu o fenómeno ‘Pimba, Pimba’ – a banda sonora desse Verão. "Ninguém resiste a esse tema. Mal ouvem os primeiros acordes, começam logo a dançar e não sabem porquê", explica o ‘pai babado’.
Logo no início ouviram-se várias vozes contra o novo género musical, apelidado de ‘brejeiro’ ou ‘piroso’. Mas foi a TVI que o baptizou de ‘pimba’ – e de imediato, a moda pegou. Na televisão, na imprensa ou na rádio, os debates sobre o estado da música portuguesa sucediam-se, e os especialistas não conseguiam disfarçar uma profunda irritação quando se debruçavam sobre este assunto. O crítico Eduardo Cintra Torres foi um dos intelectuais que pôs o dedo na ferida: "Os excluídos sabem que a música ‘pimba’ é a sua música. E sabem que os outros - os que têm poder - odeiam os seus valores culturais. E isso fá-los identificar-se ainda mais com a Mónica Sintra".
‘MADE IN’ PORTUGAL
Em pouco tempo, os portugueses ficaram a conhecer uma nova geração de artistas populares, a quem a crítica rotulou de ‘cantores pimba’. Ágata, Ruth Marlene, Micaela, Romana, Toy, o pequeno Saúl, José e Ana Malhoa, Mónica Sintra, Fernando Correia, Iran Costa ou o Duo Ele e Ela, entre muitos outros, foram alguns dos nomes que rapidamente se tornaram familiares. Mas a lista só ficaria completa com os consagrados Marco Paulo, Roberto Leal ou Quim Barreiros, que alguns anos antes do fenómeno ‘pimba’, já arrasavam plateias populares. "Esses temas foram sempre a música das romarias, das feiras e das cassete-piratas", recorda Carlos Ribeiro, ex-apresentador do ‘Made In Portugal’ (um dos programas que mais contribuiu para a divulgação música portuguesa durante a década de 90).
A ‘inteligentzia’ portuguesa é que fazia os possíveis para ignorar os temas que marcaram a época de ouro do ‘pimba’ - como ‘Só à Estalada’, ‘Chupa no Dedo’, ‘Na Minha Cama com Ela’, ‘Afinal Havia Outra’, ‘Bacalhau Quer Alho’, ‘Maldito Amor’ ou ‘Já Não Sou Bebé’, entre outros.
Perante os ‘ataques’ da comunicação social, os artistas respondiam à letra. Emanuel, num momento mais exaltado chegou a dizer que os críticos podiam falar à vontade: "Mas no final do dia, eu vou para casa num Mercedes e eles, coitados, num pequeno utilitário". Uma ‘guerra’ de palavras que contribuiu para o florescimento do fenómeno. Nos anos seguintes, bailaricos de Verão sem um destes cantores populares perdiam a graça. As comissões de festas faziam os possíveis para garantir os artistas mais reconhecidos – mesmo que isso implicasse gastar uma pequena fortuna. À conta desta nova ‘moda’, alguns músicos saborearam ‘La Dolce Vita’. Afinal, as carreiras podiam ser curtas mas davam para ganhar algum ‘dinheirinho’ extra.
"Nunca tive complexos musicais. Tanto gosto da Dulce Pontes como do Quim Barreiros. O problema é que a opinião do público nunca há-de coincidir com a da crítica, tradicionalmente mais elitista". As palavras são de Carlos Ribeiro, que sempre defendeu o direito à diferença. O apresentador já não é nenhum novato nestas ‘andanças’ e chegou à conclusão que "só os populares é que compram música portuguesa. Há muitos anos que a classe alta está de costas voltadas para a cultura tradicional", dispara.
Mas com o passar do tempo, a música ‘pimba’ foi perdendo a controvérsia e adeptos. Até o ex-apresentador do ‘Made In Portugal’ admite que hoje o conceito já está estafado. "O público saturou-se e os artistas tiveram de arranjar novas formas de surpreender os fãs", opina. A maioria optou por um estilo mais romântico ou ‘easy listening’ e houve até quem se atrevesse a cantar ‘country music’ em português – como aconteceu com Micaela. "Nunca pensei que as pessoas aderissem tão bem a este novo tema", conta a intérprete do ‘Desliga a Televisão’, uma canção ‘velhinha’ mas que continua a ser obrigatória nos seus espectáculos. "Essa música foi o ponto alto da minha carreira", explica Micaela, que aguarda pela oportunidade de poder tornar-se na ‘Shania Twain’ portuguesa.
‘COISINHA SEXY’
Os fãs da sua colega Mónica Sintra também não lhe perdoavam se ela deixasse de interpretar ‘Na Minha Cama com Ela’, o seu maior sucesso. Mas a cantora tem a certeza de que surpreendeu os portugueses com a música ‘Vem Dançar esta Salsa’, um tema também diferente do seu estilo habitual. Resta saber se isso também ajudou a ‘limar’ a sua imagem: "Tenho sempre o cuidado de ir mudando o meu visual consoante o estilo de música. Mas os que não gostam de mim, vão continuar a chamar-me ‘pimba’", desdramatiza a cantora, que confia cegamente no gosto dos portugueses. "Eles é que sabem o que é bom ou mau", remata.
Toy também tem confiança na opinião do público. O problema são os críticos: " Uns ignorantes que não percebem nada de música", avança o artista. Apesar de reconhecer que é mais fácil pegar na guitarra e cantar um tema popular do que um dito ‘sério’, ele nem quer ouvir falar em música ‘pimba’: "Há sim cantores ‘pimba’ que gostam de se exibir", comenta o autor de ‘Aguenta-te com Esta’. Apesar de coleccionar ‘hits’ atrás de ‘hits’ - como intérprete e compositor-, a sua grande aspiração continua por realizar: provar que a música ligeira pode ter qualidade. Conseguirá?
Ruth Marlene é uma das poucas artistas que reconhece que o ‘boom’ da música popular foi fundamental para o lançamento da sua carreira. "Com os ‘singles’ ‘Só à Estalada’ ou ‘A Moda do Pisca Pisca’, as pessoas passaram a conhecer-me melhor", admite a cantora, que nos últimos anos alterou por completo o seu visual. "Antes, ia para os espectáculos de calções curtos. Aos 17 anos era uma miúda radical e queria dar nas vistas. Agora gosto de usar roupa mais sóbria", admite.
Fã incondicional de baladas, a jovem ainda está à espera de poder gravar um disco mais acústico e elaborado. Até lá, o público pode continuar a ouvi-la a cantar "Coisinha Sexy’ ou ‘Truca Truca’, dois dos ‘hits’ do seu último trabalho, elogiado até pelo cantor João Pedro Pais. "Ele disse que eu tinha jeito para cantar música ligeira", gaba-se a jovem loira.
O ‘ROBBIE WILLIAMS’ PORTUGUÊS
Ao piano, ou só acompanhado pela guitarra – ao jeito de João Pedro Pais – outro João está a tentar recomeçar do zero. Depois de ter passado pela primeira ‘boys band’ portuguesa, os ‘Excesso’, João Portugal sonha com uma promissora carreira a solo. Mas aos 30 anos, já dá alguns sinais de cansaço: "Estou farto de ver sempre os mesmos nomes a serem premiados em concursos do género dos Globos de Ouro. Acho que deviam ser mais alargados", sugere o ‘Robbie Williams’ português, segundo palavras de Nuno Carvalho, da editora NZ Produções. Hoje, João não tem dúvidas que a sua passagem pelos Excesso pode ter prejudicado o seu percurso profissional– as pessoas ainda têm alguma dificuldade em levá-lo a sério – mas ao mesmo tempo abriu-lhe as portas do mundo da música. Uma coisa é certa: "’Boys band’ nunca mais!", desabafa João Portugal.
Deixarem de cantar em conjunto é uma possibilidade que Miguel e André nem querem ouvir falar. O duo romântico está satisfeito com a progressão na carreira e não tem intenção de mudar de estilo. "A música romântica nunca passa de moda. Veja-se o caso de Frank Sinatra ou do Julio Iglesias", admite André.
O cantor está convencido que os portugueses já se cansaram da música ‘pimba’ e agora preocupam-se mais com a qualidade dos artistas. Mas no universo musical a qualidade nem sempre é sinónimo de quantidade, quando se contabilizam as vendas de discos.
Que o diga Nuno Carvalho, o ‘homem-forte’ da NZ Produções. Para este ‘expert’, conhecedor como poucos do mercado discográfico português, um artista só tem a ganhar se tiver uma ‘máquina promocional’ a orientar a sua carreira. Isso pode ser determinante para o ‘sucesso ou fracasso de um álbum’. Mas há casos em que só isso não chega. "A longo prazo, o que conta é o talento, o trabalho e a dedicação do artista. Só assim é que se constroem carreiras sólidas que duram mais do que um Verão", explica o homem que ‘inventou’ os Excesso e os Anjos. E remata: "O público não é parvo". E ter-se-á fartado de vez do estilo ‘pimba’? n
O FENÓMENO ZÉ CABRA
Casimiro Afonso era um ilustre desconhecido até ao dia em que algumas das suas canções começaram a passar no programa ‘O Homem que Mordeu o Cão’, da Rádio Comercial. ‘Deixei Tudo Por Ela’ ou ‘Passa a Noite Comigo Morena’ tornaram-se ‘hits’ instantâneos. O público português rendeu-se ao seu estilo, no mínimo ‘diferente’: apesar de se intitular cantor, Zé Cabra tem alguma dificuldade em recordar as letras das canções e a voz teima em falhar-lhe nos momentos cruciais. "A cantar bem e com grande talento há muita gente em Portugal. E a cantar mal, embora a tentar disfarçar, também há muita gente. Mas o Zé Cabra é mais original", confessa Casimiro ao CM. E remata: "Eu sei que canto mal". Mas isso não o impediu de vender mais de 40 mil exemplares do primeiro álbum, lançado em 2001, e realizar cerca de 300 espectáculos em Portugal e no estrangeiro. Tal como aconteceu com a ‘música pimba’, anos antes, esta ‘moda’ também foi passageira. Actualmente, o famoso artista dedica-se à restauração e abriu um ‘snack-bar’, em Viana do Castelo.
O MIÚDO CRESCEU
O cantor do mega-êxito ‘O bacalhau quer alho’ acaba de lançar o quinto disco e está a somar 30 a 40 actuações por ano, mais outras tantas gratuitas e inseridas em eventos de solidariedade. Saul é o protagonista de uma vida invulgar desde a chegada ao patamar dos famosos, há oito anos, através das imitações de Quim Barreiros no ‘Big Show Sic’.
Quando não está em palco, ensaia ou vai às rádios e televisões para se promover. Já perdeu a conta aos concertos e depois do tal ‘bacalhau’, que vendeu 120 mil cópias (tripla platina), lançou “Os Pitos” (ouro), “Gosto de Ti à Brava” (prata), “Espeto no prego” (ouro) e “Não Sou Mau Estudante”, no último mês de Junho. O resultado é uma conta bancária segura – a família vive numa casa com piscina em Santana, Figueira da Foz –, mas também férias ocupadas por concertos, faltas à escola e perguntas sobre trabalho infantil. Habituado aos holofotes, o ‘puto do bacalhau’ não vacila. “Gosto muito do que faço e quero continuar”, assegura. A mãe toma a palavra para reforçar a ideia: “Ele tem um dom, não lhe íamos cortar as pernas e tirar aquilo que, na altura, queria fazer”.
As músicas cantadas por Saul, cheias de matreirice e trocadilhos de cariz sexual, não voltaram a atingir as vendas do primeiro disco e, entretanto, o miúdo que imitava o Quim Barreiros é um adolescente de 15 anos. Nada que o impeça de passar o Verão a cantar ao vivo ou visitar quase todas as comunidades portuguesas no estrangeiro, apoiado por um ‘staff’ de 16 elementos. “É claro que agora já não há aquela febre do início, mas o pessoal continua a ir aos espectáculos e a aderir bem”, diz a mãe, Cristina Santos. Quanto às receitas geradas pela carreira, ficam no segredo da família. Mas talvez por saber que no meio artístico tão depressa se sobe como se desce, Saul explica que quer acabar uma licenciatura e sonha ser piloto de aviões. “A música não dura toda a vida, temos de ter sempre um pé atrás”, justifica.
Ao contrário do que se poderia imaginar, ele considera-se um rapaz comum e nem os euros amealhados lhe subiram à cabeça. “Não muda nada, sou uma pessoa como as outras. O dinheiro não me diz nada. Claro que é preciso, mas gosto de ser humilde”, afirma. Quanto à escola, quando o Colégio de Quiaios fica para segundo plano, a matéria perdida é recuperada em aulas de apoio. E ainda sobra tempo para gastar em casa com a mesa de bilhar, as motas, os cães, o pónei ou os jogos de consola e computador.
“Ele tem a vida dele. Eu ganho para mim e não ando a explorar ninguém”, diz a mãe, que com o marido gere uma empresa de promoção de espectáculos. Por enquanto, os projectos de Saul passam pela música popular brejeira (como ele a chama), apesar de ser fã de Eminem e Limp Bizkit. Vai para o 9º ano – já reprovou uma vez – e planeia candidatar-se a futebolista na Naval 1º de Maio. Mas como o ‘bichinho’ não adormece, também está a começar aulas de acordeão.
É O BICHO, É O BICHO
Com um ritmo contagiante e uma letra fácil de memorizar, jovens e adultos passaram o Verão de 1995 a cantar "É o bicho, é o bicho/ vou-te devorar/ crocodilo eu sou". O autor da proeza foi Iran Costa, que graças a esse tema conseguiu vender mais de 160 mil unidades do seu álbum ‘Dance Music’. Resultado: o ‘Bicho’ rendeu 230 mil contos e o ‘cachet’ do cantor subiu em flecha, ficando-se pelos 800 contos por espectáculo. Tendo em conta que nesses meses quentes estava previsto o brasileiro dar perto de 100 concertos...é uma questão de fazer as contas.
"Naquela altura, surpreendi toda a gente. As pessoas só conheciam música brasileira romântica e ficaram entusiasmadas quando me viram a cantar o ‘Bicho’, acompanhado por bailarinas, de calções curtos e ‘top’ justos", recorda Iran, que ainda hoje se recusa a considerar a sua música ‘pimba’. "Eu não tenho nada a ver com o estilo da Ágata ou do Tony Carreira. O meu género musical é a “dance music", dispara. Recorde-se que o brasileiro saltou para as primeiras páginas dos jornais quando participou nas campanhas eleitorais do PP e do PSD, em 95. Nessa altura, até os comunistas entraram na ‘onda’. Um candidato da CDU chegou a proclamar num comício, em Grândola, que "Fernando Nogueira é o bicho e António Guterres, o crocodilo". E quando se julgava que os políticos não podiam surpreender mais, eis que as câmaras de televisão captam a conservadora Maria José Nogueira Pinto a alinhar num comboio, e a cantar ‘É o bicho, é o bicho".
Por:Maria Barbosa / Correio da Manhã, 2003
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
domingo, 31 de julho de 2011
O Governo é pimba...
Começa a ser confrangedor assistir à dança de governantes e comissários políticos do PS em visita à região, fazendo-se esquecidos das promessas feitas para estes quatro anos e tentando, desesperamente, passar a mensagem de que no próximo Quadro Comunitário de Apoio vai correr "leite e mel" como na Terra Prometida.
Também é caricato verificar que estas comitivas arrastam a presença sistemática de duas a três dezenas de "boys" locais, que estando em todas as "sessões solenes" (até parece que não têm mais nada para fazer), ou que estão ali, só, para encher a sala e bater palmas. Os mesmos que na sua maioria, antes, nunca compareciam a estes eventos e, agora, só, comparecem porque os cargos que ocupam a isso os obrigam. É certo que nestas paisagens solénicas não comparecem os "ex-boys" do PSD – desapareceram por completo –, já não são obrigados a tanto. Assim como, também, os actuais desaparecerão quando deixarem de se sentir "obrigados" a estar presentes.
Alguém já referiu que o Primeiro-Ministro, quando fala da guerra, que declarou em conjunto com os da NATO à Jugoslávia, fala com "cara de beato sofrido". O comportamento dos governantes que nos visitam é muito semelhante. Eles debitam a "cassete" com um ar sofrido, e lá vão dizendo que são contra as assimetrias e a interioridade como se disso não fossem co-responsáveis. Melhor seria que assumissem a sua parte de responsabilidade. A actual situação resulta, de facto, das políticas desenvolvidas pelo seu governo. Lata é o que não lhes falta!
Porém, a dura realidade desmente clara e completamente os «santos» sentimentos de tão ilustres visitantes. Na esteira das políticas desenvolvidas pelo Governo do PSD/Cavaco, o Governo do PS tem sido, no essencial, uma fotocópia fiel. Só que as fotocópias, por muito boas que sejam, nunca conseguem ser a reprodução completa do original e uma má política, fotocopiada, fica má a dobrar.
Os actuais governantes sabem melhor que nós que o seu Governo, ao aceitar o Pacto de Estabilidade, estava a comprometer-se com inevitáveis medidas que iriam contrariar o desenvolvimento harmonioso do País e acentuar, ainda mais, a desertificação de todo o interior. Sabem-no e são cúmplices de tal política. Portanto, vamos ver se no mínimo há honestidade intelectual.
A procura de mais uns «votitos», em época eleitoral, não pode justificar tudo. Porque em política não vale tudo. As situações a que constantemente assistimos, de tão anedóticas, às vezes até parecem inimagináveis.
O caminho instável e errático seguido por este governo, onde nunca se sabe nem se descobre o rumo, não pode ser explicado pela repetida afirmação do diálogo, na medida em que o diálogo pressupõe acção e realização.
Já o dissemos e voltamos a repetir: bom seria que o Primeiro-Ministro voltasse ao distrito para prestar contas das promessas que fez, quando da sua primeira e já «célebre» Governação Aberta. Muito gostaríamos de saber onde foram gastos os 100 milhões de contos que prometeu. Bem como se no seu mapa já consta Bragança.
O representante do Governo no distrito fazia, há pouco tempo, num jornal da cidade, uma «lista de merceeiro» da obra realizada por este Governo. Aquela lista, que nem sequer é original e que será exibida até à exaustão na campanha que se aproxima, ignora propositadamente o essencial. Faz ou pretende fazer de nós todos parvos.
Em homenagem à verdade, daqui desafiamos o Governo e o partido que o suporta a acrescentar à lista aquilo que está por fazer, designadamente: a construção do IP2; a conclusão do IP4; a construção do IC30; o alargamento e correcção de traçados das estradas que ligam a capital de distrito aos concelhos; a construção da nova linha de caminho-de-ferro com ligação a Espanha; a construção da Barragem das Laranjeiras; a construção do Hospital de Mogadouro; a rede de gás natural; a criação da Universidade de Bragança; a criação da Delegação da Polícia Judiciária de Bragança; medidas de apoio e incentivo ao investimento privado na região; a criação de postos de trabalho, nomeadamente com vista à fixação da juventude; o apoio à agricultura e aos agricultores (construção dos matadouros de Bragança e Vinhais, combate à brucelose, apoio à produção e à comercialização); o desenvolvimento do turismo e a preservação do nosso património ambiental; a construção de novos centros de saúde e o fim das listas de espera nos hospitais e centros de saúde do distrito; etc., etc., etc.
Ou então, por que não explicar o falhanço completo da aplicação das verbas do Prodouro e do Procôa, em vez de demagógica e irresponsavelmente virem, agora, falar, por exemplo, de um novo Prodouro, como têm feito ultimamente?
Também seria interessante explicar por que é que a maior fatia do Interregue, programa vocacionado para o desenvolvimento das regiões transfronteiriças, foi aplicado no litoral, na construção da rede de gás natural, que, ainda por cima, não contempla o interior, nomeadamente o nosso distrito.
Como seria de esperar que os governantes, em visita ao distrito, explicassem aos nossos comerciantes e industriais por que é que das 11 mil candidaturas do RIME (apoio às micro-empresas), só mil estão aprovadas, deixando os empresários defraudados nas expectativas criadas e «pendurados» nos compromissos que entretanto assumiram.
Temos, efectivamente, um Governo pimba. Onde a norma é a indecisão ou as iniciativas folclóricas.
Ao contrário, a região e o País precisam de um governo e de uma nova política,
onde os cidadãos estejam no centro de todas as preocupações.
Os governos pimba são como as músicas pimba: têm muita popularidade mas não prestam.
José Brinquete / «Avante!» Nº 1332, 09/06/1999
Também é caricato verificar que estas comitivas arrastam a presença sistemática de duas a três dezenas de "boys" locais, que estando em todas as "sessões solenes" (até parece que não têm mais nada para fazer), ou que estão ali, só, para encher a sala e bater palmas. Os mesmos que na sua maioria, antes, nunca compareciam a estes eventos e, agora, só, comparecem porque os cargos que ocupam a isso os obrigam. É certo que nestas paisagens solénicas não comparecem os "ex-boys" do PSD – desapareceram por completo –, já não são obrigados a tanto. Assim como, também, os actuais desaparecerão quando deixarem de se sentir "obrigados" a estar presentes.
Alguém já referiu que o Primeiro-Ministro, quando fala da guerra, que declarou em conjunto com os da NATO à Jugoslávia, fala com "cara de beato sofrido". O comportamento dos governantes que nos visitam é muito semelhante. Eles debitam a "cassete" com um ar sofrido, e lá vão dizendo que são contra as assimetrias e a interioridade como se disso não fossem co-responsáveis. Melhor seria que assumissem a sua parte de responsabilidade. A actual situação resulta, de facto, das políticas desenvolvidas pelo seu governo. Lata é o que não lhes falta!
Porém, a dura realidade desmente clara e completamente os «santos» sentimentos de tão ilustres visitantes. Na esteira das políticas desenvolvidas pelo Governo do PSD/Cavaco, o Governo do PS tem sido, no essencial, uma fotocópia fiel. Só que as fotocópias, por muito boas que sejam, nunca conseguem ser a reprodução completa do original e uma má política, fotocopiada, fica má a dobrar.
Os actuais governantes sabem melhor que nós que o seu Governo, ao aceitar o Pacto de Estabilidade, estava a comprometer-se com inevitáveis medidas que iriam contrariar o desenvolvimento harmonioso do País e acentuar, ainda mais, a desertificação de todo o interior. Sabem-no e são cúmplices de tal política. Portanto, vamos ver se no mínimo há honestidade intelectual.
A procura de mais uns «votitos», em época eleitoral, não pode justificar tudo. Porque em política não vale tudo. As situações a que constantemente assistimos, de tão anedóticas, às vezes até parecem inimagináveis.
O caminho instável e errático seguido por este governo, onde nunca se sabe nem se descobre o rumo, não pode ser explicado pela repetida afirmação do diálogo, na medida em que o diálogo pressupõe acção e realização.
Já o dissemos e voltamos a repetir: bom seria que o Primeiro-Ministro voltasse ao distrito para prestar contas das promessas que fez, quando da sua primeira e já «célebre» Governação Aberta. Muito gostaríamos de saber onde foram gastos os 100 milhões de contos que prometeu. Bem como se no seu mapa já consta Bragança.
O representante do Governo no distrito fazia, há pouco tempo, num jornal da cidade, uma «lista de merceeiro» da obra realizada por este Governo. Aquela lista, que nem sequer é original e que será exibida até à exaustão na campanha que se aproxima, ignora propositadamente o essencial. Faz ou pretende fazer de nós todos parvos.
Em homenagem à verdade, daqui desafiamos o Governo e o partido que o suporta a acrescentar à lista aquilo que está por fazer, designadamente: a construção do IP2; a conclusão do IP4; a construção do IC30; o alargamento e correcção de traçados das estradas que ligam a capital de distrito aos concelhos; a construção da nova linha de caminho-de-ferro com ligação a Espanha; a construção da Barragem das Laranjeiras; a construção do Hospital de Mogadouro; a rede de gás natural; a criação da Universidade de Bragança; a criação da Delegação da Polícia Judiciária de Bragança; medidas de apoio e incentivo ao investimento privado na região; a criação de postos de trabalho, nomeadamente com vista à fixação da juventude; o apoio à agricultura e aos agricultores (construção dos matadouros de Bragança e Vinhais, combate à brucelose, apoio à produção e à comercialização); o desenvolvimento do turismo e a preservação do nosso património ambiental; a construção de novos centros de saúde e o fim das listas de espera nos hospitais e centros de saúde do distrito; etc., etc., etc.
Ou então, por que não explicar o falhanço completo da aplicação das verbas do Prodouro e do Procôa, em vez de demagógica e irresponsavelmente virem, agora, falar, por exemplo, de um novo Prodouro, como têm feito ultimamente?
Também seria interessante explicar por que é que a maior fatia do Interregue, programa vocacionado para o desenvolvimento das regiões transfronteiriças, foi aplicado no litoral, na construção da rede de gás natural, que, ainda por cima, não contempla o interior, nomeadamente o nosso distrito.
Como seria de esperar que os governantes, em visita ao distrito, explicassem aos nossos comerciantes e industriais por que é que das 11 mil candidaturas do RIME (apoio às micro-empresas), só mil estão aprovadas, deixando os empresários defraudados nas expectativas criadas e «pendurados» nos compromissos que entretanto assumiram.
Temos, efectivamente, um Governo pimba. Onde a norma é a indecisão ou as iniciativas folclóricas.
Ao contrário, a região e o País precisam de um governo e de uma nova política,
onde os cidadãos estejam no centro de todas as preocupações.
Os governos pimba são como as músicas pimba: têm muita popularidade mas não prestam.
José Brinquete / «Avante!» Nº 1332, 09/06/1999
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Entrevistas Imaginárias: Ágata
ÁGATA
«O PP é o rei da política pimba»
ÁGATA é, há anos, o nome artístico de Fernanda de Sousa. Corre os quarentas, a cantar amores desfeitos, ciúmes, traições, cenas canalhas - as memórias da sua vida. Faz parte da nova imagem do PP-CDS, a dividir o palco com Paulo Portas. Ele clama promessas fáceis, em frases duras, como rajadas. E ela chora depois amores impossíveis, na sua voz melosa, e com o corpo a vibrar outras promessas. Tanto lhe chamam Madonna, como a rainha da música pimba.
EXPRESSO - Afinal, o que é: Madonna, ou a rainha da música pimba?
ÁGATA - Ai, as mesmíssimas duas coisas. Sou a Madonna - ou a Madonna é que é eu, porque sempre é mais nova -, porque ambas temos o mesmo bom gosto e a mesma beleza loura. Apesar de ela ser muito mais atrevida do que eu. Eu sempre me tapo com botas brancas e altas. Ela não se tapa com nada! Mas sou também a rainha da música pimba. Lá isso, é um título que ninguém me pode tirar! Todos os jornais o reconhecem!
EXP. - E isso honra-a?
A. - Muito! Porque isso significa que sou verdadeiramente popular. Como diz o dr. Paulo Portas, é preciso estar onde estão os reformados, os jovens, os lavradores, os pescadores, a classe média, preparados para ouvir apoios e críticas, sugestões e reparos - é assim que se faz política, e é assim que se faz uma carreira de cantora pimba!
EXP. - E onde é que está toda essa gente?
A. - Como diz o dr. Paulo Portas, essa gente, o povo, está sobretudo nas feiras e nos mercados. Por isso é que ele faz política nas feiras, e eu canto e vendo os meus discos nas feiras.
EXP. - Ainda bem que falou no dr. Paulo Portas, porque eu queria precisamente entrevistá-la sobre a sua ligação com o PP. Essa ligação deve-se então a uma afinidade popular?
A. - Precisamente! Assim como eu sou a rainha da música pimba, o CDS-PP é o rei da política pimba. Queremos os dois o mesmo para Portugal: bom negócio, bom trabalho e menos impostos.
EXP. - Mas as sondagens indicam não ser essa a opinião dos portugueses...
A. - Ai não?! Isso é porque as sondagens estão viciadas, e não se fazem onde deviam. Deviam fazer as sondagens nos meus espectáculos de feira, e logo veriam o que elas indicavam... ou então nos comícios do dr. Paulo Portas, como ele muito bem lembrou...
EXP. - E o que pensa dos outros partidos? O que pensa, por exemplo, do PSD?
A. - Olha, olha! Um partido que tem um candidato a escrever livros sobre o comunista do Cunhal!... Náááááá! Não serve cá para a gente do centro e da direita. Como muito bem diz o dr. Portas, isso cheira a esquerda liberal! E não me parece que isso seja coisa boa! Além de que não nos governamos com autores de livros! Afinal, para que é que servem os livros?! O dr. Portas nunca escreveu nenhum, e é um grande dirigente político, um autêntico político-pimba!
EXP. - Também não gosta do PS...
A. - Pois claro que não! Para dar mais uma mordomia ao dr. Soares?! Era o que faltava! Ainda por cima, um federalista! Não lhe chega ser presidente da fundação dele?! Ainda queria mais um tacho?! Ora toma!
EXP. - E o que é que acha do PCP?
A. - O que é que acho?! Olhe: acho que nunca me convidaram para as festas do Avante! E essas coisas, quer queiram quer não, pagam-se! Que é para aprenderem!
EXP. - E como é que vê o futuro político de Portugal?
A. - Ah, muito mal, muito mal! O país parece que está a ficar manco, coxo, desequilibrado. Tirando o dr. Portas, é tudo uma grande esquerdalhice! Veja-me só o Pacheco!...
EXP. - Como é que devia ser feita a campanha do PP, para evitar desequilíbrios?
A. - Ai, lá isso, fizemos as coisas muito bem! Primeiro que tudo, a minha presença nos comícios do PP, para associarmos bem a política pimba com a cultura pimba. E a partir daí, o papel do dr. Portas era muito simples: cada vez que via um velho, denunciava escandalizado as reformas miseráveis; e cada vez que via alguém mais novo, denunciava escandalizado os impostos que pagamos!
EXP. - Da Europa, mais em concreto, não é então preciso falar?
A. - Então não! Fala-se pois! O mais simples era limitarmo-nos a chamar comunistas aos outros todos, o que era facilitado pela pessoa do dr. Pacheco Pereira, e por aquele defeito esquisito que ele tem de escrever livros, ainda por cima sobre o Cunhal! Mas depois disso apareceu o dr. Soares com aquele maná do imposto europeu, e tudo ficou ainda mais fácil!
EXP. - E não há outras questões sociais, políticas, culturais...
A. - Culturais! Isso mesmo, culturais! É sobretudo pelas razões culturais que nós não queremos o federalismo europeu. Haveria o perigo de extinguir o que temos mais enraizado no nosso povo: a cultura pimba.
EXP. - Tem ideias concretas para evitar isso?
A. - Olhe, vou dar-lhe uma grande notícia em primeira mão: se o nosso povo, aquele que vem aos meus concertos, o que está nos comícios do CDS-PP, o que nas feiras abraça o Paulo Portas, for suficiente para nos levar algum dia ao poder, já tenho garantias de que, em vez de fechar os comícios do partido, passo a responsabilizar-me pela cultura do país.
PEDRO BRAGANÇA / Expresso, 11/06/1999
Entrevistas Imaginárias
«O PP é o rei da política pimba»
ÁGATA é, há anos, o nome artístico de Fernanda de Sousa. Corre os quarentas, a cantar amores desfeitos, ciúmes, traições, cenas canalhas - as memórias da sua vida. Faz parte da nova imagem do PP-CDS, a dividir o palco com Paulo Portas. Ele clama promessas fáceis, em frases duras, como rajadas. E ela chora depois amores impossíveis, na sua voz melosa, e com o corpo a vibrar outras promessas. Tanto lhe chamam Madonna, como a rainha da música pimba.
EXPRESSO - Afinal, o que é: Madonna, ou a rainha da música pimba?
ÁGATA - Ai, as mesmíssimas duas coisas. Sou a Madonna - ou a Madonna é que é eu, porque sempre é mais nova -, porque ambas temos o mesmo bom gosto e a mesma beleza loura. Apesar de ela ser muito mais atrevida do que eu. Eu sempre me tapo com botas brancas e altas. Ela não se tapa com nada! Mas sou também a rainha da música pimba. Lá isso, é um título que ninguém me pode tirar! Todos os jornais o reconhecem!
EXP. - E isso honra-a?
A. - Muito! Porque isso significa que sou verdadeiramente popular. Como diz o dr. Paulo Portas, é preciso estar onde estão os reformados, os jovens, os lavradores, os pescadores, a classe média, preparados para ouvir apoios e críticas, sugestões e reparos - é assim que se faz política, e é assim que se faz uma carreira de cantora pimba!
EXP. - E onde é que está toda essa gente?
A. - Como diz o dr. Paulo Portas, essa gente, o povo, está sobretudo nas feiras e nos mercados. Por isso é que ele faz política nas feiras, e eu canto e vendo os meus discos nas feiras.
EXP. - Ainda bem que falou no dr. Paulo Portas, porque eu queria precisamente entrevistá-la sobre a sua ligação com o PP. Essa ligação deve-se então a uma afinidade popular?
A. - Precisamente! Assim como eu sou a rainha da música pimba, o CDS-PP é o rei da política pimba. Queremos os dois o mesmo para Portugal: bom negócio, bom trabalho e menos impostos.
EXP. - Mas as sondagens indicam não ser essa a opinião dos portugueses...
A. - Ai não?! Isso é porque as sondagens estão viciadas, e não se fazem onde deviam. Deviam fazer as sondagens nos meus espectáculos de feira, e logo veriam o que elas indicavam... ou então nos comícios do dr. Paulo Portas, como ele muito bem lembrou...
EXP. - E o que pensa dos outros partidos? O que pensa, por exemplo, do PSD?
A. - Olha, olha! Um partido que tem um candidato a escrever livros sobre o comunista do Cunhal!... Náááááá! Não serve cá para a gente do centro e da direita. Como muito bem diz o dr. Portas, isso cheira a esquerda liberal! E não me parece que isso seja coisa boa! Além de que não nos governamos com autores de livros! Afinal, para que é que servem os livros?! O dr. Portas nunca escreveu nenhum, e é um grande dirigente político, um autêntico político-pimba!
EXP. - Também não gosta do PS...
A. - Pois claro que não! Para dar mais uma mordomia ao dr. Soares?! Era o que faltava! Ainda por cima, um federalista! Não lhe chega ser presidente da fundação dele?! Ainda queria mais um tacho?! Ora toma!
EXP. - E o que é que acha do PCP?
A. - O que é que acho?! Olhe: acho que nunca me convidaram para as festas do Avante! E essas coisas, quer queiram quer não, pagam-se! Que é para aprenderem!
EXP. - E como é que vê o futuro político de Portugal?
A. - Ah, muito mal, muito mal! O país parece que está a ficar manco, coxo, desequilibrado. Tirando o dr. Portas, é tudo uma grande esquerdalhice! Veja-me só o Pacheco!...
EXP. - Como é que devia ser feita a campanha do PP, para evitar desequilíbrios?
A. - Ai, lá isso, fizemos as coisas muito bem! Primeiro que tudo, a minha presença nos comícios do PP, para associarmos bem a política pimba com a cultura pimba. E a partir daí, o papel do dr. Portas era muito simples: cada vez que via um velho, denunciava escandalizado as reformas miseráveis; e cada vez que via alguém mais novo, denunciava escandalizado os impostos que pagamos!
EXP. - Da Europa, mais em concreto, não é então preciso falar?
A. - Então não! Fala-se pois! O mais simples era limitarmo-nos a chamar comunistas aos outros todos, o que era facilitado pela pessoa do dr. Pacheco Pereira, e por aquele defeito esquisito que ele tem de escrever livros, ainda por cima sobre o Cunhal! Mas depois disso apareceu o dr. Soares com aquele maná do imposto europeu, e tudo ficou ainda mais fácil!
EXP. - E não há outras questões sociais, políticas, culturais...
A. - Culturais! Isso mesmo, culturais! É sobretudo pelas razões culturais que nós não queremos o federalismo europeu. Haveria o perigo de extinguir o que temos mais enraizado no nosso povo: a cultura pimba.
EXP. - Tem ideias concretas para evitar isso?
A. - Olhe, vou dar-lhe uma grande notícia em primeira mão: se o nosso povo, aquele que vem aos meus concertos, o que está nos comícios do CDS-PP, o que nas feiras abraça o Paulo Portas, for suficiente para nos levar algum dia ao poder, já tenho garantias de que, em vez de fechar os comícios do partido, passo a responsabilizar-me pela cultura do país.
PEDRO BRAGANÇA / Expresso, 11/06/1999
Entrevistas Imaginárias
sexta-feira, 15 de julho de 2011
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Prolegómenos
PROLEGÓMENOS PARA UMA ANÁLISE SÉRIA DA TENDÊNCIA MUSICAL POPULARMENTE CONHECIDA COMO PIMBA
O que é a música dita pimba? E será que o pimba existe? E quais as suas origens musicais? E porque é que há teses universitárias sobre o fenómeno?
Nenhum dos artistas que geralmente é encaixado na categoria pimba se reconhece como pertencendo a esta «gaveta». É natural, já que o termo - popularizado por uma reportagem da TVI e inspirado no tema de Emanuel «Pimba, Pimba» - é utilizado pelas elites intelectuais e bem-pensantes como pejorativo, achincalhante e digno de pena. Um pouco à semelhança do «brega» no Brasil ou do termo «redneck» aplicado aos «saloios» do sul dos Estados Unidos. Para as elites, pimba significa «piroso», «foleiro», «xunga» e está um pouco abaixo do kitsch na hierarquia do bom-gosto (o kitsch será uma espécie de mau-gosto com estilo enquanto o pimba não passa de mau-gosto absoluto, o grau zero da baixa-cultura). E os cantores - apesar de numa primeira fase aceitarem em boa parte a designação (houve até uma revista chamada «Pimba») - foram renegando e afastando-se gradualmente do epíteto, preferindo expressões como «música ligeira» ou «música popular». Outra razão, óbvia, para a negação é que no caldeirão pimba se começaram a meter produtos musicais diferentes: desde girls-bands ao Zé Cabra, da tentativa de euro-pop que são os Santamaria aos cantores românticos como Tony Carreira ou Toy. Mas a palavra ficou, colada à música mas também a programas de televisão, a livros (literatura-light=literatura-pimba), à política, etc.
A música dita pimba nasce nas editoras independentes nacionais - Discossete, Vidisco, Espacial, Ovação... -, muitas delas com experiência na música distribuída, via cassetes baratas, em feiras e bombas-de-gasolina, um circuito à parte, marginal, das lojas de discos dos grandes centros urbanos. Um circuito dirigido preferencialmente ao meio rural (e aos emigrantes que no Verão voltam às suas aldeias de origem). E é uma música de produção rápida e barata: em entrevista ao BLITZ, há nove anos, Emanuel (aka Américo Monteiro), dizia que no seu moderno estúdio da Pontinha se produziam quatro álbuns por mês. Um por semana, portanto. E com a proliferação dos estúdios digitais, centenas e centenas de discos de concepção rápida - porque recorrendo bastante a computadores, sintetizadores, programações, caixas-de-ritmos... - foram sendo criados (ou re-criados) nos últimos anos. E escrevo re-criados porque, como também dizia Emanuel nessa entrevista, «há dez ou onze tipos a a fazer canções e depois há dois mil a fazer versões» (das canções de maior sucesso, entenda-se). E potencialmente barata também porque na sua transposição para o formato «ao vivo», os artistas oferecem várias modalidades aos organizadores locais de concertos: por exemplo, «o artista com banda e duas bailarinas», «em playback e com duas bailarinas», «sozinho em playback».
E a música, perguntar-se-á?... As inspirações da música dita pimba vêm de todo o lado: da pop, do euro-disco, do brega brasileiro, da música romântica francesa, brasileira, italiana, do nacional-cançonetismo dos anos 60 e 70 (Tonicha, José Cid, Paulo Alexandre...) e, em muitíssimos casos, da música tradicional portuguesa. E é aqui que entra - para contrapor aos instrumentos electrónicos - o acordeão. O acordeão que, com a emergência dos ranchos folclóricos (SNI/António Ferro/Salazar), arrasou à sua passagem muitos instrumentos (e tocadores) tradicionais mas que se mantém, no dito pimba, como resquício de «instrumento tradicional», tanto em Portugal como nas comunidades emigrantes no estrangeiro. A este propósito, Sophie Chevalier (no texto «Folclore e Tradição Musical dos Portugueses na Região de Paris», incluído no livro «Vozes do Povo», ed. Celta) refere que nos ranchos folclóricos portugueses da capital francesa «é o acordeão o instrumento mais importante... fala-se mesmo em tirania dos acordeões».
O acordeão, aliás, marca uma certa fronteira entre os artistas, estando os que o usam (Quim Barreiros, Emanuel...) mais próximos dos ritmos, melodias e temas tradicionais portugueses. Não deixa de ser curioso que o musicólogo português José Alberto Sardinha tenha dito numa entrevista recente ao jornal Expresso: «Há um fenómeno que merecia um grande estudo que é o caso do Quim Barreiros: um cantor tradicional que herdou toda a tradição da música minhota e que cria de acordo com os parâmetros que lhe foram fornecidos pela tradição. Só que ainda ninguém reparou nisso... Ele tem criações onde, por exemplo, se identifica perfeitamente a estrutura musical do malhão do Norte que ele recriou. Com letras, em parte, fornecidas pela tradição. Aquela do "bacalhau", se se for ao Leite de Vasconcelos, está lá, é uma quadra popular do fim do século XIX!». E Sardinha não está sozinho na sua curiosidade científica sobre o fenómeno. Recentemente, Francisco Marques apresentou uma tese de mestrado na Universidade de Beja subordinada ao tema «O Fenómeno Musical "Pimba" - O caso Emanuel» (tese que será editada em livro brevemente).
O «bacalhau» de que fala Sardinha enquadra-se na corrente brejeira - que sempre existiu na literatura e na tradição portuguesas, de Gil Vicente a Bocage, do contador de anedotas Canty a Herman José - que é uma das marcas principais da música dita pimba. Mas há muitos outros temas recorrentes nas letras: o amor (dos amantes, da mãe, dos filhos), o divórcio, os acidentes na estrada, a dependência de drogas ou, em alguns casos, as saudades da aldeia - uma terra vista como Paraíso Perdido pelos emigrantes e migrantes e à qual hão-de regressar um dia. E põe-se aqui uma questão paralela. Os consumidores do chamado pimba são vistos pelas elites como «campónios», «iletrados» ou «suburbanos», mas são as elites que o têm acarinhado e alimentado ao longo dos últimos anos. Semanas académicas nas universidades (cujas Tunas aderem ao mesmo reportório e espírito), rádios locais e nacionais, programas de televisão, jornais e revistas de referência que não passam um Verão sem fazer uma reportagem sobre os cantores dessa área, têm legitimado o fenómeno.
Por outro lado, a proliferação de cantores e cantoras da mesma área - juntamente com o eventual recurso ao playback nos espectáculos e a generalização da ideia de que os estúdios podem fazer milagres com uma voz, por muito desafinada que seja - contribuem para criar a ilusão de que qualquer pessoa pode vir a ser cantor. E daí até às filas de centenas de pessoas a prestar provas de admissão em programas como «Ídolos» ou «Chuva de Estrelas», vai um pequeno passo.
Três histórias (e um texto recuperado do BLITZ acerca da chamada música pimba, publicado em Outubro de 2004):
1 - Há muitos anos, em conversa com Ricardo Camacho (produtor e teclista dos Sétima Legião para além de médico e um dos mais respeitados investigadores nacionais e internacionais no estudo da SIDA), ele contou-me que, durante um congresso médico em Istambul, aproveitou para comprar umas cassetes de música turca a que ele achava alguma graça. Só alguns anos depois ele descobriu que aquelas cassetes eram de uma espécie de pimba turco e que a boa música da Turquia era outra.
2 - Há um ano, numa entrevista com Zeca Baleiro, este fantástico cantor e compositor brasileiro disse-me que pensava gravar um álbum só com versões de temas de artistas portugueses respeitados - Sérgio Godinho, Jorge Palma, Rui Veloso, Zeca Afonso, Fausto, Vitorino, Pedro Abrunhosa e Armando Teixeira -, acrescentando depois, surpreendentemente, que também gostava de... Ruth Marlene.
3 - Também o ano passado, em Coimbra, num debate sobre folk e música tradicional, Mário Correia (do Intercéltico de Sendim e da editora e centro Sons da Terra) contou que num encontro de gaitas-de-foles, um gaiteiro veterano tocou um tema do Quim Barreiros enquanto outro, jovem, tocou o «Smells Like Teen Spirit», dos Nirvana, e que aquilo soou muito bem. Perguntei-lhe se essas versões em gaitas-de-foles poderiam ser consideradas música tradicional. O Mário - sabedor destas coisas como há poucos - respondeu: «Se esses temas forem incorporados no reportório de vários gaiteiros, vais ver que daqui por cem anos vão ser considerados música tradicional».
António Pires / Blog Raízes e Antenas, 21/07/2006
O que é a música dita pimba? E será que o pimba existe? E quais as suas origens musicais? E porque é que há teses universitárias sobre o fenómeno?
Nenhum dos artistas que geralmente é encaixado na categoria pimba se reconhece como pertencendo a esta «gaveta». É natural, já que o termo - popularizado por uma reportagem da TVI e inspirado no tema de Emanuel «Pimba, Pimba» - é utilizado pelas elites intelectuais e bem-pensantes como pejorativo, achincalhante e digno de pena. Um pouco à semelhança do «brega» no Brasil ou do termo «redneck» aplicado aos «saloios» do sul dos Estados Unidos. Para as elites, pimba significa «piroso», «foleiro», «xunga» e está um pouco abaixo do kitsch na hierarquia do bom-gosto (o kitsch será uma espécie de mau-gosto com estilo enquanto o pimba não passa de mau-gosto absoluto, o grau zero da baixa-cultura). E os cantores - apesar de numa primeira fase aceitarem em boa parte a designação (houve até uma revista chamada «Pimba») - foram renegando e afastando-se gradualmente do epíteto, preferindo expressões como «música ligeira» ou «música popular». Outra razão, óbvia, para a negação é que no caldeirão pimba se começaram a meter produtos musicais diferentes: desde girls-bands ao Zé Cabra, da tentativa de euro-pop que são os Santamaria aos cantores românticos como Tony Carreira ou Toy. Mas a palavra ficou, colada à música mas também a programas de televisão, a livros (literatura-light=literatura-pimba), à política, etc.
A música dita pimba nasce nas editoras independentes nacionais - Discossete, Vidisco, Espacial, Ovação... -, muitas delas com experiência na música distribuída, via cassetes baratas, em feiras e bombas-de-gasolina, um circuito à parte, marginal, das lojas de discos dos grandes centros urbanos. Um circuito dirigido preferencialmente ao meio rural (e aos emigrantes que no Verão voltam às suas aldeias de origem). E é uma música de produção rápida e barata: em entrevista ao BLITZ, há nove anos, Emanuel (aka Américo Monteiro), dizia que no seu moderno estúdio da Pontinha se produziam quatro álbuns por mês. Um por semana, portanto. E com a proliferação dos estúdios digitais, centenas e centenas de discos de concepção rápida - porque recorrendo bastante a computadores, sintetizadores, programações, caixas-de-ritmos... - foram sendo criados (ou re-criados) nos últimos anos. E escrevo re-criados porque, como também dizia Emanuel nessa entrevista, «há dez ou onze tipos a a fazer canções e depois há dois mil a fazer versões» (das canções de maior sucesso, entenda-se). E potencialmente barata também porque na sua transposição para o formato «ao vivo», os artistas oferecem várias modalidades aos organizadores locais de concertos: por exemplo, «o artista com banda e duas bailarinas», «em playback e com duas bailarinas», «sozinho em playback».E a música, perguntar-se-á?... As inspirações da música dita pimba vêm de todo o lado: da pop, do euro-disco, do brega brasileiro, da música romântica francesa, brasileira, italiana, do nacional-cançonetismo dos anos 60 e 70 (Tonicha, José Cid, Paulo Alexandre...) e, em muitíssimos casos, da música tradicional portuguesa. E é aqui que entra - para contrapor aos instrumentos electrónicos - o acordeão. O acordeão que, com a emergência dos ranchos folclóricos (SNI/António Ferro/Salazar), arrasou à sua passagem muitos instrumentos (e tocadores) tradicionais mas que se mantém, no dito pimba, como resquício de «instrumento tradicional», tanto em Portugal como nas comunidades emigrantes no estrangeiro. A este propósito, Sophie Chevalier (no texto «Folclore e Tradição Musical dos Portugueses na Região de Paris», incluído no livro «Vozes do Povo», ed. Celta) refere que nos ranchos folclóricos portugueses da capital francesa «é o acordeão o instrumento mais importante... fala-se mesmo em tirania dos acordeões».
O acordeão, aliás, marca uma certa fronteira entre os artistas, estando os que o usam (Quim Barreiros, Emanuel...) mais próximos dos ritmos, melodias e temas tradicionais portugueses. Não deixa de ser curioso que o musicólogo português José Alberto Sardinha tenha dito numa entrevista recente ao jornal Expresso: «Há um fenómeno que merecia um grande estudo que é o caso do Quim Barreiros: um cantor tradicional que herdou toda a tradição da música minhota e que cria de acordo com os parâmetros que lhe foram fornecidos pela tradição. Só que ainda ninguém reparou nisso... Ele tem criações onde, por exemplo, se identifica perfeitamente a estrutura musical do malhão do Norte que ele recriou. Com letras, em parte, fornecidas pela tradição. Aquela do "bacalhau", se se for ao Leite de Vasconcelos, está lá, é uma quadra popular do fim do século XIX!». E Sardinha não está sozinho na sua curiosidade científica sobre o fenómeno. Recentemente, Francisco Marques apresentou uma tese de mestrado na Universidade de Beja subordinada ao tema «O Fenómeno Musical "Pimba" - O caso Emanuel» (tese que será editada em livro brevemente).
O «bacalhau» de que fala Sardinha enquadra-se na corrente brejeira - que sempre existiu na literatura e na tradição portuguesas, de Gil Vicente a Bocage, do contador de anedotas Canty a Herman José - que é uma das marcas principais da música dita pimba. Mas há muitos outros temas recorrentes nas letras: o amor (dos amantes, da mãe, dos filhos), o divórcio, os acidentes na estrada, a dependência de drogas ou, em alguns casos, as saudades da aldeia - uma terra vista como Paraíso Perdido pelos emigrantes e migrantes e à qual hão-de regressar um dia. E põe-se aqui uma questão paralela. Os consumidores do chamado pimba são vistos pelas elites como «campónios», «iletrados» ou «suburbanos», mas são as elites que o têm acarinhado e alimentado ao longo dos últimos anos. Semanas académicas nas universidades (cujas Tunas aderem ao mesmo reportório e espírito), rádios locais e nacionais, programas de televisão, jornais e revistas de referência que não passam um Verão sem fazer uma reportagem sobre os cantores dessa área, têm legitimado o fenómeno.
Por outro lado, a proliferação de cantores e cantoras da mesma área - juntamente com o eventual recurso ao playback nos espectáculos e a generalização da ideia de que os estúdios podem fazer milagres com uma voz, por muito desafinada que seja - contribuem para criar a ilusão de que qualquer pessoa pode vir a ser cantor. E daí até às filas de centenas de pessoas a prestar provas de admissão em programas como «Ídolos» ou «Chuva de Estrelas», vai um pequeno passo.
Três histórias (e um texto recuperado do BLITZ acerca da chamada música pimba, publicado em Outubro de 2004):
1 - Há muitos anos, em conversa com Ricardo Camacho (produtor e teclista dos Sétima Legião para além de médico e um dos mais respeitados investigadores nacionais e internacionais no estudo da SIDA), ele contou-me que, durante um congresso médico em Istambul, aproveitou para comprar umas cassetes de música turca a que ele achava alguma graça. Só alguns anos depois ele descobriu que aquelas cassetes eram de uma espécie de pimba turco e que a boa música da Turquia era outra.
2 - Há um ano, numa entrevista com Zeca Baleiro, este fantástico cantor e compositor brasileiro disse-me que pensava gravar um álbum só com versões de temas de artistas portugueses respeitados - Sérgio Godinho, Jorge Palma, Rui Veloso, Zeca Afonso, Fausto, Vitorino, Pedro Abrunhosa e Armando Teixeira -, acrescentando depois, surpreendentemente, que também gostava de... Ruth Marlene.
3 - Também o ano passado, em Coimbra, num debate sobre folk e música tradicional, Mário Correia (do Intercéltico de Sendim e da editora e centro Sons da Terra) contou que num encontro de gaitas-de-foles, um gaiteiro veterano tocou um tema do Quim Barreiros enquanto outro, jovem, tocou o «Smells Like Teen Spirit», dos Nirvana, e que aquilo soou muito bem. Perguntei-lhe se essas versões em gaitas-de-foles poderiam ser consideradas música tradicional. O Mário - sabedor destas coisas como há poucos - respondeu: «Se esses temas forem incorporados no reportório de vários gaiteiros, vais ver que daqui por cem anos vão ser considerados música tradicional».
António Pires / Blog Raízes e Antenas, 21/07/2006
sexta-feira, 27 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
Omã gosta de música pimba portuguesa
07 MAR 97 - 22:11
*** por Luís Pinheiro de Almeida, da Agência Lusa ***
Lisboa, 07 Mar (Lusa) - Um cidadão de Omã, Faul Al-Aufy, gosta de música pimba portuguesa, uma luso-alemã de Berlim, Fátima Schase, compra tudo o que é Amália Rodrigues, uma cidadã finlandesa, Paivi Rissanen, anda desesperadamente à procura de uma canção dos Delfins.Estes são alguns dos exemplos, exóticos, de um projecto de venda de discos portugueses para o estrangeiro concebido pela União Lisboa, com o apoio da RTPInternacional.
Trata-se da iniciativa designada por "divulgação de música portuguesa de qualidade junto das comunidades portuguesas no estrangeiro", que se desenvolve em três fases.A primeira fase, já em funcionamento, com um investimento de cinco mil contos, é o da venda de discos portugueses para o estrangeiro, via postal. A União Lisboa elaborou um catálogo com os discos imediatamente disponíveis e a RTPI emite para todo o Mundo os respectivos "spots" nas suas emissões, com as informações e pormenores relativos à compra dos discos.
Um português, ou um estrangeiro que saiba a língua de Camões, não tem mais que seguir as instruções da RTPI e encomendar para Lisboa o disco que desejar, que tanto pode ir de José Afonso à música pimba.
Graças aos apoios dos CTT, do cartão Visa e das companhias discográficas portuguesas, os discos chegam ao destinatário praticamente ao mesmo preço que em Lisboa, incluindo portes e registos.
A revista TV Guia Internacional, só para as comunidades, inclui igualmente informação sobre este projecto.
"A iniciativa é um sucesso e temos uma média de 40 encomendas por dia. O nosso +mailing+ de clientes em todo o Mundo já ronda os 2.500", disse à Agência Lusa Francisco Cruz, director da União Lisboa.
A União Lisboa é um conglomerado de empresas que inclui edição de discos, agenciamento de artistas e produção de espectáculos. É sobretudo conhecida por ser a responsável pela carreira dos Madredeus."O nosso objectivo não é o lucro. Nunca foi. O nosso desejo é que as nossas comunidades conheçam outra música portuguesa que não a que estão habituadas a ouvir", disse Francisco Cruz, não escondendo o desejo secreto de um dia a iniciativa evoluir para um verdadeiro "clube da cultura".
"Além dos discos, podiamos vender futuramente serigrafias e outras peças de arte, livros, artesanato. Há um mundo à nossa frente", argumentou.
Por enquanto, a RTPInternacional só está a emitir os "spots" no horário "prime time" da Europa, mas a curto prazo vai também emiti-los em horário nobre de outros fusos horários, como é o caso dos Estados Unidos.
Por esta razão, são os países europeus que aparecem à cabeça dos melhores compradores. Segundo dados a que a Agência Lusa teve acesso, a Suiça está no top do mês de Fevereiro com 329 discos encomendados, seguida da Alemanha com 117.
Fora da Europa, o Brasil vem à cabeça com 43 pedidos, seguido dos Estados Unidos com 35. Os serviços da União Lisboa já registaram também pedidos de Omã (1), Antilhas Holandesas (1) e Emiratos Árabes Unidos (1).
Os PALOP também são um dos destinatários mais queridos pela União Lisboa, mas sem grande sucesso, pelo menos em Fevereiro. Angola não fez qualquer pedido, mas o embaixador de Angola na Namíbia, Garcia Bites, solicitou por fax o envio do catálogo dos discos disponíveis.Moçambique comprou um disco apenas e São Tomé e Princípe também. De Cabo Verde e Guiné-Bissau a relação também é nula.Curiosa é a situação das Regiões Autónomas, que não são propriamente os destinatários deste serviço. No entanto, os Açores compraram em Fevereiro nove discos e a Madeira dois.
Quanto aos discos mais pedidos, o projecto "Rio Grande", de Rui Veloso, Tim (dos Xutos e Pontapés), Vitorino e Jorge Palma, surge à cabeça com 222 pedidos em Fevereiro, seguido dos Delfins, com 183, e dos Santos e Pecadores, com 107, e Dulce Pontes, com 98. Pedro Abrunhosa teve apenas 12 pedidos.
"A percentagem de pedidos de discos de música pimba ronda apenas os 12, 13 por cento", revelou Francisco Cruz à Agência Lusa.A segunda fase do projecto consta da gravação de uma primeira série de 26 espectáculos com artistas nacionais para transmissão exclusiva na RTPInternacional para as comunidades portuguesas. A série, semanal, é inaugurada no dia 25 de Abril com os Pólo Norte.Já estão gravados programas com os Flood, Primitive Reason, Francisco Seia, Né Ladeiras, Tó Neto, José Cid, Ala dos Namorados, Gaiteiros de Lisboa, Diva, Rão Kyao, Ritual Tejo, António Chainho e Teresa Salgueiro, Charrua, Vozes da Rádio, Pátria, Luís Portugal e Despe e Siga.
Os artistas portugueses não cobraram qualquer "cachet", razão por que Pedro Abrunhosa ainda não participou neste projecto, designado por "Clube das Músicas". Os programas, de 50 minutos cada, serão transmitidos em "prime time" para a Europa e em "prime time" para os Estados Unidos.
Esta segunda fase tem igualmente como objectivo a possibilidade de a RTP colocar, sem encargos, estes programas nas televisões nacionais da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), disse ainda à Agência Lusa Francisco Cruz.
Uma terceira fase do projecto, prevista para 1998, consiste na realização de festivais de música nos diversos países onde haja comunidades portuguesas, com artistas idos de Lisboa e artistas portugueses ou luso-portugueses locais.
"Ainda temos de pensar muito bem neste projecto, porque este envolve custos mais avultados", concluiu Francisco Cruz.
O disco que Faul Al-Aufy encomendou é uma colectânea de música pimba editada pela Espacial com o título "Sol de Verão
*** por Luís Pinheiro de Almeida, da Agência Lusa ***
Lisboa, 07 Mar (Lusa) - Um cidadão de Omã, Faul Al-Aufy, gosta de música pimba portuguesa, uma luso-alemã de Berlim, Fátima Schase, compra tudo o que é Amália Rodrigues, uma cidadã finlandesa, Paivi Rissanen, anda desesperadamente à procura de uma canção dos Delfins.Estes são alguns dos exemplos, exóticos, de um projecto de venda de discos portugueses para o estrangeiro concebido pela União Lisboa, com o apoio da RTPInternacional.
Trata-se da iniciativa designada por "divulgação de música portuguesa de qualidade junto das comunidades portuguesas no estrangeiro", que se desenvolve em três fases.A primeira fase, já em funcionamento, com um investimento de cinco mil contos, é o da venda de discos portugueses para o estrangeiro, via postal. A União Lisboa elaborou um catálogo com os discos imediatamente disponíveis e a RTPI emite para todo o Mundo os respectivos "spots" nas suas emissões, com as informações e pormenores relativos à compra dos discos.
Um português, ou um estrangeiro que saiba a língua de Camões, não tem mais que seguir as instruções da RTPI e encomendar para Lisboa o disco que desejar, que tanto pode ir de José Afonso à música pimba.
Graças aos apoios dos CTT, do cartão Visa e das companhias discográficas portuguesas, os discos chegam ao destinatário praticamente ao mesmo preço que em Lisboa, incluindo portes e registos.
A revista TV Guia Internacional, só para as comunidades, inclui igualmente informação sobre este projecto.
"A iniciativa é um sucesso e temos uma média de 40 encomendas por dia. O nosso +mailing+ de clientes em todo o Mundo já ronda os 2.500", disse à Agência Lusa Francisco Cruz, director da União Lisboa.
A União Lisboa é um conglomerado de empresas que inclui edição de discos, agenciamento de artistas e produção de espectáculos. É sobretudo conhecida por ser a responsável pela carreira dos Madredeus."O nosso objectivo não é o lucro. Nunca foi. O nosso desejo é que as nossas comunidades conheçam outra música portuguesa que não a que estão habituadas a ouvir", disse Francisco Cruz, não escondendo o desejo secreto de um dia a iniciativa evoluir para um verdadeiro "clube da cultura".
"Além dos discos, podiamos vender futuramente serigrafias e outras peças de arte, livros, artesanato. Há um mundo à nossa frente", argumentou.
Por enquanto, a RTPInternacional só está a emitir os "spots" no horário "prime time" da Europa, mas a curto prazo vai também emiti-los em horário nobre de outros fusos horários, como é o caso dos Estados Unidos.
Por esta razão, são os países europeus que aparecem à cabeça dos melhores compradores. Segundo dados a que a Agência Lusa teve acesso, a Suiça está no top do mês de Fevereiro com 329 discos encomendados, seguida da Alemanha com 117.
Fora da Europa, o Brasil vem à cabeça com 43 pedidos, seguido dos Estados Unidos com 35. Os serviços da União Lisboa já registaram também pedidos de Omã (1), Antilhas Holandesas (1) e Emiratos Árabes Unidos (1).
Os PALOP também são um dos destinatários mais queridos pela União Lisboa, mas sem grande sucesso, pelo menos em Fevereiro. Angola não fez qualquer pedido, mas o embaixador de Angola na Namíbia, Garcia Bites, solicitou por fax o envio do catálogo dos discos disponíveis.Moçambique comprou um disco apenas e São Tomé e Princípe também. De Cabo Verde e Guiné-Bissau a relação também é nula.Curiosa é a situação das Regiões Autónomas, que não são propriamente os destinatários deste serviço. No entanto, os Açores compraram em Fevereiro nove discos e a Madeira dois.
Quanto aos discos mais pedidos, o projecto "Rio Grande", de Rui Veloso, Tim (dos Xutos e Pontapés), Vitorino e Jorge Palma, surge à cabeça com 222 pedidos em Fevereiro, seguido dos Delfins, com 183, e dos Santos e Pecadores, com 107, e Dulce Pontes, com 98. Pedro Abrunhosa teve apenas 12 pedidos.
"A percentagem de pedidos de discos de música pimba ronda apenas os 12, 13 por cento", revelou Francisco Cruz à Agência Lusa.A segunda fase do projecto consta da gravação de uma primeira série de 26 espectáculos com artistas nacionais para transmissão exclusiva na RTPInternacional para as comunidades portuguesas. A série, semanal, é inaugurada no dia 25 de Abril com os Pólo Norte.Já estão gravados programas com os Flood, Primitive Reason, Francisco Seia, Né Ladeiras, Tó Neto, José Cid, Ala dos Namorados, Gaiteiros de Lisboa, Diva, Rão Kyao, Ritual Tejo, António Chainho e Teresa Salgueiro, Charrua, Vozes da Rádio, Pátria, Luís Portugal e Despe e Siga.
Os artistas portugueses não cobraram qualquer "cachet", razão por que Pedro Abrunhosa ainda não participou neste projecto, designado por "Clube das Músicas". Os programas, de 50 minutos cada, serão transmitidos em "prime time" para a Europa e em "prime time" para os Estados Unidos.
Esta segunda fase tem igualmente como objectivo a possibilidade de a RTP colocar, sem encargos, estes programas nas televisões nacionais da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), disse ainda à Agência Lusa Francisco Cruz.
Uma terceira fase do projecto, prevista para 1998, consiste na realização de festivais de música nos diversos países onde haja comunidades portuguesas, com artistas idos de Lisboa e artistas portugueses ou luso-portugueses locais.
"Ainda temos de pensar muito bem neste projecto, porque este envolve custos mais avultados", concluiu Francisco Cruz.
O disco que Faul Al-Aufy encomendou é uma colectânea de música pimba editada pela Espacial com o título "Sol de Verão
Agência Lusa, 1997 ©
sábado, 14 de maio de 2011
Luis Filipe Reis
«Estou no lugar que mereço»
Foi a fazer bailes por todas as aldeias do distrito da Guarda que Luís Filipe Reis deu o pontapé de saída nas lides artísticas. Tinha então 16 anos e já uma grande paixão pela música popular portuguesa. Cantarolava muitas músicas «tipo José Malhoa», lembra. Na altura comprou uma bateria «muito pobrezinha» e aprendeu a tocar sozinho. Surgiu então a oportunidade de mostrar as suas habilidades em público. O convite veio da parte de um irmão do acordeonista António Júlio. Luís Filipe Reis aceitou e logo no primeiro dia fez um baile. «Recordo-me que em Gonçalo», terra natal de António Júlio. Um duo que viu a sua popularidade aumentar dia para dia. «Quase todos os dias tínhamos um baile», garante o cantor. A sintonia entre eles era tanta que ouviam uma música ao meio-dia e tocavam-na à noite, «sem ensaio». «Coisas muito bonitas que aconteciam entre mim e ele», diz a propósito. Sempre música portuguesa ou cantada em português. «Ouvíamos música estrangeira mas não a tocávamos». Actualmente não sabe do paradeiro do companheiro de tantos bailes mas espera que não tenha deixado de tocar. «Nunca conheci ninguém com o ouvido do António Júlio», argumenta. Falando de si, Luís conta que sempre foi fã do Roberto Carlos e Frederic François, entre outros cantores românticos. Uma linha que sempre seguiu. «O meu bilhete de identidade é cantar canções românticas».
O facto de ser conhecido, ter «uma vida social boa» e dos pais lhe pedirem não foram razões suficientes para o demover de procurar uma vida melhor fora daqui. «Exijo muito de mim», explica. Essa exigência e um telefonema de Abílio Curto conseguem-lhe um passaporte até Paris. «O máximo que ele [Abílio Curto] fez por mim foi muito bom, muito embora não tivesse resultado». Fala com um certo saudosismo do ex-autarca e lamenta que a «pessoa amiga do Abílio» talvez o tenha esquecido. «As pessoas são amigas quando estão presentes. Às vezes esquecem a amizade». Apesar de não querer «estar a escrever um livro tipo Linda de Suza», Luís Filipe não quis deixar de referir que foi com «muita luta e sacrifício» que venceu o desafio. «Gravei o meu primeiro álbum em Paris, depois fui convidado para gravar nos Estados Unidos». Nos primeiros dois anos que se deslocou a Portugal para dar alguns espectáculos, Luís «tinha uma certa vergonha», porque as pessoas lhe diziam que tinha um «espectáculo tão bonito e não era conhecido». «É sempre triste quando não reconhecem o nosso trabalho no nosso país de origem». O terceiro ano correu melhor. Foi convidado para gravar em Portugal. "Obrigado Portugueses" foi o nome do trabalho. Valeu-lhe o primeiro disco de ouro. Sem ir à televisão. «Não havia Mades in Portugal, nem apoio à música portuguesa». Os dois trabalhos posteriores, "Flor Portuguesa" e "Bate Coração", tiveram igual reconhecimento. «Valeu a pena ter saído do meu país e ter alcançado esses êxitos».
Gozar a velhice na Guarda
Da lista de recordações que tem da Guarda, de onde é natural, - «nascido e criado no Bairro de S.Vicente» – consta o nome de Germano Morais. «Estive na casa dele durante cinco anos», conta. Luís Filipe Antunes Reis «fazia uns recados no escritório» do empresário, que ainda hoje considera como «um homem de muito valor».
Mas nem todas as suas recordações são boas. Uma delas foi quando a mãe o deixou. «A inveja das pessoas, pelo facto de ter nascido de uma família humilde e ter conseguido tudo isto com trabalho e talento», é outra. Luís não concorda com quem pensa que só com dinheiro é que se consegue vencer na vida. «Eu não o consegui com dinheiro», até «porque não o tinha». Daí o ter de emigrar. Paris continua a ser o ponto nevrálgico de Luís Filipe, mas sempre que pode dá uma escapadela até à sua terra natal, onde espera vir a gozar a sua velhice. É de opinião de que a Guarda é uma cidade moderna, mas considera que as grandes mudanças não são de agora. «Depois do 25 de Abril a Guarda subiu dia a dia».
Actualmente, «as pessoas que pertencem à câmara, e as que estão a tomar conta da cidade, estão a fazer por ela aquilo que ela merece».
A carreira de Luís Filipe Reis vai de vento em popa. O seu mais recente trabalho, "Esquece o meu nome", valeu-lhe um disco de platina e os primeiros lugares no top nacional de vendas, designadamente no Made in Portugal. O primeiro da sua longa carreira. «Tenho dez anos de carreira como profissional». Sem falsa modéstia afirma: «Estou no lugar que mereço». Além do «salto qualitativo» que o trabalho apresenta, a introdução de uma banda, coristas, bailarinas e todo o suporte técnico, Luís apostou ainda numa mudança de visual. Uma aposta que o «cantor, autor e compositor» fundamenta com uma certa saturação. «Essa moda da música pimba, que eu nunca soube muito bem o que era, começou a entrar comigo e comecei a não gostar». A partir daí, «mudei de visual e dei também a entender que tenho qualidade para poder fazer outro estilo de música» Isto porque, segundo ele, tanto faz este estilo de música como outro. A propósito de qualidade, conta uma história que aconteceu num espectáculo dado na Suiça, junto da comunidade portuguesa. «Quatro ou cinco pessoas de uma rádio acusaram-nos de estarmos a enganar o povo».
Gabriela Marujo / terras da Beira, 14/05/1998
http://www.freipedro.pt/tb/140598/cult3.htm
Foi a fazer bailes por todas as aldeias do distrito da Guarda que Luís Filipe Reis deu o pontapé de saída nas lides artísticas. Tinha então 16 anos e já uma grande paixão pela música popular portuguesa. Cantarolava muitas músicas «tipo José Malhoa», lembra. Na altura comprou uma bateria «muito pobrezinha» e aprendeu a tocar sozinho. Surgiu então a oportunidade de mostrar as suas habilidades em público. O convite veio da parte de um irmão do acordeonista António Júlio. Luís Filipe Reis aceitou e logo no primeiro dia fez um baile. «Recordo-me que em Gonçalo», terra natal de António Júlio. Um duo que viu a sua popularidade aumentar dia para dia. «Quase todos os dias tínhamos um baile», garante o cantor. A sintonia entre eles era tanta que ouviam uma música ao meio-dia e tocavam-na à noite, «sem ensaio». «Coisas muito bonitas que aconteciam entre mim e ele», diz a propósito. Sempre música portuguesa ou cantada em português. «Ouvíamos música estrangeira mas não a tocávamos». Actualmente não sabe do paradeiro do companheiro de tantos bailes mas espera que não tenha deixado de tocar. «Nunca conheci ninguém com o ouvido do António Júlio», argumenta. Falando de si, Luís conta que sempre foi fã do Roberto Carlos e Frederic François, entre outros cantores românticos. Uma linha que sempre seguiu. «O meu bilhete de identidade é cantar canções românticas».
O facto de ser conhecido, ter «uma vida social boa» e dos pais lhe pedirem não foram razões suficientes para o demover de procurar uma vida melhor fora daqui. «Exijo muito de mim», explica. Essa exigência e um telefonema de Abílio Curto conseguem-lhe um passaporte até Paris. «O máximo que ele [Abílio Curto] fez por mim foi muito bom, muito embora não tivesse resultado». Fala com um certo saudosismo do ex-autarca e lamenta que a «pessoa amiga do Abílio» talvez o tenha esquecido. «As pessoas são amigas quando estão presentes. Às vezes esquecem a amizade». Apesar de não querer «estar a escrever um livro tipo Linda de Suza», Luís Filipe não quis deixar de referir que foi com «muita luta e sacrifício» que venceu o desafio. «Gravei o meu primeiro álbum em Paris, depois fui convidado para gravar nos Estados Unidos». Nos primeiros dois anos que se deslocou a Portugal para dar alguns espectáculos, Luís «tinha uma certa vergonha», porque as pessoas lhe diziam que tinha um «espectáculo tão bonito e não era conhecido». «É sempre triste quando não reconhecem o nosso trabalho no nosso país de origem». O terceiro ano correu melhor. Foi convidado para gravar em Portugal. "Obrigado Portugueses" foi o nome do trabalho. Valeu-lhe o primeiro disco de ouro. Sem ir à televisão. «Não havia Mades in Portugal, nem apoio à música portuguesa». Os dois trabalhos posteriores, "Flor Portuguesa" e "Bate Coração", tiveram igual reconhecimento. «Valeu a pena ter saído do meu país e ter alcançado esses êxitos».
Gozar a velhice na Guarda
Da lista de recordações que tem da Guarda, de onde é natural, - «nascido e criado no Bairro de S.Vicente» – consta o nome de Germano Morais. «Estive na casa dele durante cinco anos», conta. Luís Filipe Antunes Reis «fazia uns recados no escritório» do empresário, que ainda hoje considera como «um homem de muito valor».
Mas nem todas as suas recordações são boas. Uma delas foi quando a mãe o deixou. «A inveja das pessoas, pelo facto de ter nascido de uma família humilde e ter conseguido tudo isto com trabalho e talento», é outra. Luís não concorda com quem pensa que só com dinheiro é que se consegue vencer na vida. «Eu não o consegui com dinheiro», até «porque não o tinha». Daí o ter de emigrar. Paris continua a ser o ponto nevrálgico de Luís Filipe, mas sempre que pode dá uma escapadela até à sua terra natal, onde espera vir a gozar a sua velhice. É de opinião de que a Guarda é uma cidade moderna, mas considera que as grandes mudanças não são de agora. «Depois do 25 de Abril a Guarda subiu dia a dia».
Actualmente, «as pessoas que pertencem à câmara, e as que estão a tomar conta da cidade, estão a fazer por ela aquilo que ela merece».
A carreira de Luís Filipe Reis vai de vento em popa. O seu mais recente trabalho, "Esquece o meu nome", valeu-lhe um disco de platina e os primeiros lugares no top nacional de vendas, designadamente no Made in Portugal. O primeiro da sua longa carreira. «Tenho dez anos de carreira como profissional». Sem falsa modéstia afirma: «Estou no lugar que mereço». Além do «salto qualitativo» que o trabalho apresenta, a introdução de uma banda, coristas, bailarinas e todo o suporte técnico, Luís apostou ainda numa mudança de visual. Uma aposta que o «cantor, autor e compositor» fundamenta com uma certa saturação. «Essa moda da música pimba, que eu nunca soube muito bem o que era, começou a entrar comigo e comecei a não gostar». A partir daí, «mudei de visual e dei também a entender que tenho qualidade para poder fazer outro estilo de música» Isto porque, segundo ele, tanto faz este estilo de música como outro. A propósito de qualidade, conta uma história que aconteceu num espectáculo dado na Suiça, junto da comunidade portuguesa. «Quatro ou cinco pessoas de uma rádio acusaram-nos de estarmos a enganar o povo».
Gabriela Marujo / terras da Beira, 14/05/1998
http://www.freipedro.pt/tb/140598/cult3.htm
quarta-feira, 27 de abril de 2011
LInhas Cruzadas
Cauteloso e observador. Estes são os adjectivos que se podem aplicar a Norberto Fernandes nos primeiros minutos de conversa.
Depois, é preciso fazer evoluir o dialogo com cautela, para baixar as defesas dos seus intensos olhos azuis e do tom fleumático com que responde às minhas perguntas. "Não gosto de sapatos novos". Esta inusitada resposta vem um pouca seca e refere-se ao edifício da Marconi, gentilmente alcunhado pelos lisboetas de "bolo de noiva".
Agucei as orelhas, convencida de ter detectado uma critica, Mas em vão, o presidente do Conselho de Administração da Marconi sorri da minha agitação ingénua e esclarece: "Não aprecio muito edifícios novos e acho que não necessitávamos de estar no centro de Lisboa, Mas tirando estas pequenas reservas, acho que é muito funcional".
Norberto Fernandes assumiu há dois anos a presidência da Marconi, depois de uma efémera passagem como Secretário de Estado dos Transportes e Comunicações do 13° Governo Constitucional no gabinete de Henrique Constantino, que faleceu escassos meses depois de ter sido nomeado.
Mas conhece bem a empresa, tem quase dez anos de dedicação à causa das Telecomunicações. Devagar percorremos a sala do Conselho de Administração, analisando os retratos dos presidentes anteriores ao anfitrião. Imperscrutável, Norberto Fernandes faz comentários de circunstância sobre os seus antecessores, comentando o estilo dos retratistas. Anoto: o nosso homem gosta de pintura.
O tom de voz só se altera quando nos perfilamos em frente de Henrique Constantino, o homem que levou o meu entrevistado para a política e para os corredores do poder. "Era difícil resistir-lhe, segui-o sempre que ele precisou de mim, Era um grande amigo". Na imponente sala da presidência da Marconi, vibra uma nota de calor e saudade. Imperceptível, mas presente, Noto que não existe nenhum retrato do Presidente em exercício, a imagem deste quarentão grisalho, nascido em 1950 na Cidade dos Arcebispos. Informa-me que só se tem direito a retrato depois de ter abandonado a presidência, uma manifestação de decoro e modéstia, para não se perderem as reuniões do CA, contemplando a sua própria imagem, Uma prática de grande bom senso, quando verifico que Miguel Horta e Costa lá passou pela Presidência da Marconi.
A vaidade não é um dos traços mais evidentes do actual líder desta empresa, que recentemente foi nomeado administrador da Portugal Telecom. Ou então é bem dissimulada. Faz a síntese do seu percurso profissional de forma comedida, pesando as palavras e os feitos. Sem ceder nunca ao auto-elogio.
E, contudo, o caminho profissional é assinalável. Lá muito para trás fica a infância em Braga, a licenciatura em Engenharia Electrotécnica (Electrónica e Telecomunicações) pelo Instituto Superior Técnico Tudo certo, como mandam as regras.
Inicia a carreira profissional nos CTT Correios e Telecomunicações, como engenheiro, Este início comedido foi pulverizado seis anos depois, Aos 28 anos Norberto Fernandes é catapultado para o topo, como Director-Geral dos Correios do Norte. Por esta altura, ajuda ao parto de um projecto que veio revolucionar a distribuição do correio nacional: a implantação do código postal, O sucesso da operação deve ter rendido os seus dividendos. "Meio caminho andado" na carreira do líder da Marconi: aos trinta anos já é Director-Adjunto da Direcção Geral de Telecomunicações dos CTT. E podia ter sido assim até à presidência de qualquer das empresas ligadas às Telecomunicações. Tranquilamente, sem sobressaltos.
Mas o meu entrevistado, embora pareça contido e programado para uma existência sem exaltações, parece não apreciar a previsibilidade. E, contra todas as previsões, rompe o percurso ligado a esta área:
"Fui trabalhar para a marinha mercante. O sector estava debilitado, a marinha mercante portuguesa moribunda, mas eu nem pensei duas vezes. Fui para a administração da Portline, onde passei anos muito bons. É uma actividade muito estimulante e exigente. E, ainda por cima, tem o mar associado. Aqui para nós, eu tenho alma de marinheiro". Estava finalmente quebrado o gelo. A partir daqui, o Presidente da Marconi solta-se e a conversa deixa o registo da entrevista formal. "Tenho uma enorme paixão pelo mar." Norberto Fernandes não é um marinheiro de água doce, possui embarcação e, pelo que deixa escapar, não deixa ninguém pegar no leme: "Tenho uma propriedade em Tróia e um dos momentos mais estimulantes do fim-de-semana é ir até Alcácer de barco, com a brisa na cara, almoçar ou meter o totoloto".
Com os olhos no mar e a carreira nos barcos, o presidente da Marconi parecia ter feito uma opção. Acumulou participações em empresas da marinha mercante, sempre como administrador ou presidente. Os olhos animam-se quando evoca estas recordações e já se permite sorrir:
"Nos finais de 80, resolvi dar outra reviravolta. E, assim, aceitei a direcção de frente da internacionalização da Marconi em Bruxelas Foi um posto importantíssimo, porque me permitia continuar no mundo empresarial internacional Foi um momento de aprendizagem".
Bruxelas encantou-o. Habituou-se à ironia flamenga, viciou-se na cerveja belga. "Ali fiquei no meu papel de observador de factos contemporâneos". Lança a provocação a brincar revelando um sentido de humor que se adivinha agudo e certeiro.
Regressa a Portugal e a progressão para a cadeira da presidência da Marconi é inexorável. Mais seis anos e de director sobe tranquilamente a administrador sendo finalmente eleito Presidente. E pouco tempo depois é nomeado para o Conselho de administração da PT.
A forma como lidera a empresa é pragmática e dialogante. Orgulha-se de não fechar a porta a nenhum funcionário que queira falar com ele e, sempre que pode, imprime o seu cunho nas relações com os subordinados. Deixa-me perplexa quando confessa que é conhecido dentro da empresa por ser travesso e imprevisível. Não é bem o que eu estava à espera do Presidente de uma das maiores empresas de telecomunicações do País. Diverte-se com o meu espanto:
"Toda a gente dentro da empresa sabe que eu adoro pregar partidas. Ainda hoje preguei uma".
Olho para todos os lados, indagando se teria sido eu o alvo de tanto esforço. "Não é esforço nenhum. Todos os dias tento desmanchar a seriedade das coisas. Que sentido tem a vida se não brincarmos um pouco?"
Confessa-me então o seu gosto pela festa, pela boa-disposição, pela subversão. "Construir uma festa é ainda melhor que vivê-la. É desfrutar, por antecipação, o prazer que vamos proporcionar aos nossos amigos".
Surpreendente! As festas do senhor Presidente são operações de grande fôlego, prática que mantém desde a juventude:
"Pertenço a uma família grande, que se reunia todos os verões, para brincar e celebrar. Atacávamos sempre em bando."
Dentro da Marconi, toda a gente sabe da disponibilidade do Presidente para subverter.
"Atenção, não faça juízos errados. A cultura desta empresa é de comunicação e de proximidade. Não se pode confundir a nossa filosofia positiva com falta de disciplina. Mas gosto de baralhar as regras, odeio os paradigmas de automatismo, que nos fazem repetir todos os dias as mesmas tarefas".
Começo a compreender que o meu convidado é um poço de surpresas. As telecomunicações têm o seu fascínio, mas não lhe provocam discursos apaixonados. A palavra que lhe faz acender a alma é inesperada e parece quase deslocada nos salões bem-comportados da presidência da Marconi:
"A música tem um efeito poderoso em mim, Adoro música coral, Cheguei a considerar a hipótese de ser músico profissional. Depois, o pragmatismo impôs-se. Mas fiz estudos musicais sérios, estive no Centro de Estudos Gregorianos, fiz parte de um agrupamento de musica coral liderado pelo Francisco d'Orey, percorri o Pais a cantar em tournées divertidíssimas".
As recordações emergem sem dificuldade, os episódios saltam do passado:
"Lembro-me de que muitas vezes, na Juventude Musical, à tarde, púnhamo-nos a ensaiar. Mas, como não tínhamos a sonoridade desejada, arrancávamos para os Jerónimos e cantávamos para quem estivesse. Às vezes, era um velório, outras um casamento. Era fantástico. Uma tarde de sábado, deu-nos para cantar numa escadinha lateral do convento. Quando nos calámos tínhamos à nossa frente um grupo de turistas entusiasmados, que resolveram agradecer atirando-nos moedas. Foi dos poucos dividendos económicos que a música me rendeu. Mas o prazer que provoca!..."
A voz é o seu instrumento. Permite-se uma única vaidade, classificando-a de bonita e afinada, mas logo com timidez confessa que não tem aptidões especiais para qualquer outro artefacto musical. Mas a guitarra é uma presença constante no seu escritório doméstico e, segundo me conta, não se passa um dia que não dedilhe qualquer coisa, só para limpar a alma. No gabinete da Marconi ouve-se Haendel em surdina, quase aposto que assobia no elevador e canta na casa de banho, mas conseguiu surpreender-me de novo quando me revela o conteúdo da sua mais prezada colecção musical:
"Música pimba. Sou um fanático apreciador de música pimba. Adoro fazer provocações sobre musica pimba e divirto-me a teorizar sobre o fenómeno. Compro tudo, tenho autógrafos dos artistas. Faço sessões críticas com os meus amigos".
Amigos, parentes e colaboradores sabem desta fixação e todos se esforçam por contemplar o Presidente com os últimos sucessos da Ágata e não deixar escapar nenhum dos registos da Ruth Marlene e da Romana.
"O que mais me interessa são as letras. É extraordinário, a verdade do País está ali, em coisas singelas como o "Pisca-Pisca". Estão ali pérolas de senso comum".
De propósito, esquiva-se de tecer comentários sobre telecomunicações, um tema que, não o deixando indiferente, não parece estar nos seus afectos. E quando, para rematar, lhe pergunto, se lhe interessava mais conhecer Aristóteles Onássis ou Bill Gates, responde-me com diplomacia:
"Essa pergunta é difícil. Os armadores gregos são heróis para quem gosta do mar. O Bill Gates também é um gigante... Mas, se não se importa, quem interessaria mais nesse pacote era a Maria Callas".
Júlia Pinheiro / Linhas Cruzadas nº 12
Depois, é preciso fazer evoluir o dialogo com cautela, para baixar as defesas dos seus intensos olhos azuis e do tom fleumático com que responde às minhas perguntas. "Não gosto de sapatos novos". Esta inusitada resposta vem um pouca seca e refere-se ao edifício da Marconi, gentilmente alcunhado pelos lisboetas de "bolo de noiva".
Agucei as orelhas, convencida de ter detectado uma critica, Mas em vão, o presidente do Conselho de Administração da Marconi sorri da minha agitação ingénua e esclarece: "Não aprecio muito edifícios novos e acho que não necessitávamos de estar no centro de Lisboa, Mas tirando estas pequenas reservas, acho que é muito funcional".
Norberto Fernandes assumiu há dois anos a presidência da Marconi, depois de uma efémera passagem como Secretário de Estado dos Transportes e Comunicações do 13° Governo Constitucional no gabinete de Henrique Constantino, que faleceu escassos meses depois de ter sido nomeado.
Mas conhece bem a empresa, tem quase dez anos de dedicação à causa das Telecomunicações. Devagar percorremos a sala do Conselho de Administração, analisando os retratos dos presidentes anteriores ao anfitrião. Imperscrutável, Norberto Fernandes faz comentários de circunstância sobre os seus antecessores, comentando o estilo dos retratistas. Anoto: o nosso homem gosta de pintura.
O tom de voz só se altera quando nos perfilamos em frente de Henrique Constantino, o homem que levou o meu entrevistado para a política e para os corredores do poder. "Era difícil resistir-lhe, segui-o sempre que ele precisou de mim, Era um grande amigo". Na imponente sala da presidência da Marconi, vibra uma nota de calor e saudade. Imperceptível, mas presente, Noto que não existe nenhum retrato do Presidente em exercício, a imagem deste quarentão grisalho, nascido em 1950 na Cidade dos Arcebispos. Informa-me que só se tem direito a retrato depois de ter abandonado a presidência, uma manifestação de decoro e modéstia, para não se perderem as reuniões do CA, contemplando a sua própria imagem, Uma prática de grande bom senso, quando verifico que Miguel Horta e Costa lá passou pela Presidência da Marconi.
A vaidade não é um dos traços mais evidentes do actual líder desta empresa, que recentemente foi nomeado administrador da Portugal Telecom. Ou então é bem dissimulada. Faz a síntese do seu percurso profissional de forma comedida, pesando as palavras e os feitos. Sem ceder nunca ao auto-elogio.
E, contudo, o caminho profissional é assinalável. Lá muito para trás fica a infância em Braga, a licenciatura em Engenharia Electrotécnica (Electrónica e Telecomunicações) pelo Instituto Superior Técnico Tudo certo, como mandam as regras.
Inicia a carreira profissional nos CTT Correios e Telecomunicações, como engenheiro, Este início comedido foi pulverizado seis anos depois, Aos 28 anos Norberto Fernandes é catapultado para o topo, como Director-Geral dos Correios do Norte. Por esta altura, ajuda ao parto de um projecto que veio revolucionar a distribuição do correio nacional: a implantação do código postal, O sucesso da operação deve ter rendido os seus dividendos. "Meio caminho andado" na carreira do líder da Marconi: aos trinta anos já é Director-Adjunto da Direcção Geral de Telecomunicações dos CTT. E podia ter sido assim até à presidência de qualquer das empresas ligadas às Telecomunicações. Tranquilamente, sem sobressaltos.
Mas o meu entrevistado, embora pareça contido e programado para uma existência sem exaltações, parece não apreciar a previsibilidade. E, contra todas as previsões, rompe o percurso ligado a esta área:
"Fui trabalhar para a marinha mercante. O sector estava debilitado, a marinha mercante portuguesa moribunda, mas eu nem pensei duas vezes. Fui para a administração da Portline, onde passei anos muito bons. É uma actividade muito estimulante e exigente. E, ainda por cima, tem o mar associado. Aqui para nós, eu tenho alma de marinheiro". Estava finalmente quebrado o gelo. A partir daqui, o Presidente da Marconi solta-se e a conversa deixa o registo da entrevista formal. "Tenho uma enorme paixão pelo mar." Norberto Fernandes não é um marinheiro de água doce, possui embarcação e, pelo que deixa escapar, não deixa ninguém pegar no leme: "Tenho uma propriedade em Tróia e um dos momentos mais estimulantes do fim-de-semana é ir até Alcácer de barco, com a brisa na cara, almoçar ou meter o totoloto".
Com os olhos no mar e a carreira nos barcos, o presidente da Marconi parecia ter feito uma opção. Acumulou participações em empresas da marinha mercante, sempre como administrador ou presidente. Os olhos animam-se quando evoca estas recordações e já se permite sorrir:
"Nos finais de 80, resolvi dar outra reviravolta. E, assim, aceitei a direcção de frente da internacionalização da Marconi em Bruxelas Foi um posto importantíssimo, porque me permitia continuar no mundo empresarial internacional Foi um momento de aprendizagem".
Bruxelas encantou-o. Habituou-se à ironia flamenga, viciou-se na cerveja belga. "Ali fiquei no meu papel de observador de factos contemporâneos". Lança a provocação a brincar revelando um sentido de humor que se adivinha agudo e certeiro.
Regressa a Portugal e a progressão para a cadeira da presidência da Marconi é inexorável. Mais seis anos e de director sobe tranquilamente a administrador sendo finalmente eleito Presidente. E pouco tempo depois é nomeado para o Conselho de administração da PT.
A forma como lidera a empresa é pragmática e dialogante. Orgulha-se de não fechar a porta a nenhum funcionário que queira falar com ele e, sempre que pode, imprime o seu cunho nas relações com os subordinados. Deixa-me perplexa quando confessa que é conhecido dentro da empresa por ser travesso e imprevisível. Não é bem o que eu estava à espera do Presidente de uma das maiores empresas de telecomunicações do País. Diverte-se com o meu espanto:
"Toda a gente dentro da empresa sabe que eu adoro pregar partidas. Ainda hoje preguei uma".
Olho para todos os lados, indagando se teria sido eu o alvo de tanto esforço. "Não é esforço nenhum. Todos os dias tento desmanchar a seriedade das coisas. Que sentido tem a vida se não brincarmos um pouco?"
Confessa-me então o seu gosto pela festa, pela boa-disposição, pela subversão. "Construir uma festa é ainda melhor que vivê-la. É desfrutar, por antecipação, o prazer que vamos proporcionar aos nossos amigos".
Surpreendente! As festas do senhor Presidente são operações de grande fôlego, prática que mantém desde a juventude:
"Pertenço a uma família grande, que se reunia todos os verões, para brincar e celebrar. Atacávamos sempre em bando."
Dentro da Marconi, toda a gente sabe da disponibilidade do Presidente para subverter.
"Atenção, não faça juízos errados. A cultura desta empresa é de comunicação e de proximidade. Não se pode confundir a nossa filosofia positiva com falta de disciplina. Mas gosto de baralhar as regras, odeio os paradigmas de automatismo, que nos fazem repetir todos os dias as mesmas tarefas".
Começo a compreender que o meu convidado é um poço de surpresas. As telecomunicações têm o seu fascínio, mas não lhe provocam discursos apaixonados. A palavra que lhe faz acender a alma é inesperada e parece quase deslocada nos salões bem-comportados da presidência da Marconi:
"A música tem um efeito poderoso em mim, Adoro música coral, Cheguei a considerar a hipótese de ser músico profissional. Depois, o pragmatismo impôs-se. Mas fiz estudos musicais sérios, estive no Centro de Estudos Gregorianos, fiz parte de um agrupamento de musica coral liderado pelo Francisco d'Orey, percorri o Pais a cantar em tournées divertidíssimas".
As recordações emergem sem dificuldade, os episódios saltam do passado:
"Lembro-me de que muitas vezes, na Juventude Musical, à tarde, púnhamo-nos a ensaiar. Mas, como não tínhamos a sonoridade desejada, arrancávamos para os Jerónimos e cantávamos para quem estivesse. Às vezes, era um velório, outras um casamento. Era fantástico. Uma tarde de sábado, deu-nos para cantar numa escadinha lateral do convento. Quando nos calámos tínhamos à nossa frente um grupo de turistas entusiasmados, que resolveram agradecer atirando-nos moedas. Foi dos poucos dividendos económicos que a música me rendeu. Mas o prazer que provoca!..."
A voz é o seu instrumento. Permite-se uma única vaidade, classificando-a de bonita e afinada, mas logo com timidez confessa que não tem aptidões especiais para qualquer outro artefacto musical. Mas a guitarra é uma presença constante no seu escritório doméstico e, segundo me conta, não se passa um dia que não dedilhe qualquer coisa, só para limpar a alma. No gabinete da Marconi ouve-se Haendel em surdina, quase aposto que assobia no elevador e canta na casa de banho, mas conseguiu surpreender-me de novo quando me revela o conteúdo da sua mais prezada colecção musical:
"Música pimba. Sou um fanático apreciador de música pimba. Adoro fazer provocações sobre musica pimba e divirto-me a teorizar sobre o fenómeno. Compro tudo, tenho autógrafos dos artistas. Faço sessões críticas com os meus amigos".
Amigos, parentes e colaboradores sabem desta fixação e todos se esforçam por contemplar o Presidente com os últimos sucessos da Ágata e não deixar escapar nenhum dos registos da Ruth Marlene e da Romana.
"O que mais me interessa são as letras. É extraordinário, a verdade do País está ali, em coisas singelas como o "Pisca-Pisca". Estão ali pérolas de senso comum".
De propósito, esquiva-se de tecer comentários sobre telecomunicações, um tema que, não o deixando indiferente, não parece estar nos seus afectos. E quando, para rematar, lhe pergunto, se lhe interessava mais conhecer Aristóteles Onássis ou Bill Gates, responde-me com diplomacia:
"Essa pergunta é difícil. Os armadores gregos são heróis para quem gosta do mar. O Bill Gates também é um gigante... Mas, se não se importa, quem interessaria mais nesse pacote era a Maria Callas".
Júlia Pinheiro / Linhas Cruzadas nº 12
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Carla Gamboa
Depois de um período de reflexão
Carla Gamboa de novo na estrada
Nasceu em Sintra há 27 anos, mas por razões pessoais veio viver há ano e meio para o Pinhal Novo, onde tem estado ligada à rádio Popular FM como locutora. Repartindo-se entre a paixão da rádio e a da música, iniciou-se nas cantigas há quatro anos, alcançando a prata logo com o primeiro disco, "Não Sou Sedutora", a que se seguiu "Cores e Raças".
Após um interregno de dois anos e meio na carreira, Carla Gamboa regressa com uma nova atitude, um nova postura que quer cortar com o passado e com as tendências do mercado, apostando na originalidade do seu trabalho e na utilização de músicos a sério, para se lançar "De Novo na Estrada".
Setúbal na Rede - A que se deveu esta pausa na carreira, que é retomada agora com a edição do trabalho "De Novo na Estrada"?
Carla Gamboa - Aconteceu essencialmente porque levei muito estalo enquanto andei na estrada e ouvi muitas coisas que nenhuma mulher com 'M' maiúsculo gosta de ouvir, como chegar ao local de um espectáculo e um responsável da comissão de festas vir perguntar ao meu marido se eu e as duas jovens dos coros também nos despíamos e íamos todas jeitosas para cima do palco. Nesse caso respondemos que se nos tivessem avisado que era isso que queriam teríamos levado duas strip-teasers para se despirem depois do concerto e assim podiam ficar contentes a ver mulheres nuas em cima do palco. Agora a nós, não é para isso que pagam. E depois eu era muito confundida com muitas coisas que por aí andam e isso fez-me sofrer imenso durante os dois anos em que andei na estrada. Então tivemos que parar e pensar bem se era isso que queríamos, se queríamos manter esta linha e entrar dentro do género mais popularucho da música portuguesa só para ganhar dinheiro, ou parar para pensar e optar por não ganhar tanto mas fazer uma coisa que digna e que me desse gosto a cantar para não estar a enganar ninguém. A questão era decidir entre ganhar dinheiro ou ser eu própria e a opção foi por ser eu própria. Foi assim que apareceu agora este "De Novo na Estrada", após dois anos e meio de reflexão.
SR - Quer isso dizer que a carreira da Carla Gamboa começou por essa música mais popularucha?
CG - Não chegou a ser bem popularucho, mas quase, já que eu tinha que entrar pela porta mais fácil e essa era a porta que estava aberta nessa altura, até mesmo para uma editora se dispor a pegar e editar um trabalho. A prova é que agora, com este novo trabalho, nenhuma editora me abriu as portas e nós corremos várias que nos disseram que o trabalho estava muito bonito, está uma produção muito boa, mas que não toca nas feiras. Mas a intenção deste trabalho não é tocar nas feiras, é tocar no coração das pessoas, fazer com que as pessoas oiçam a minha mensagem. Não quero que as pessoas assistam a um espectáculo da Carla Gamboa e no dia a seguir só se lembrem que as bailarinas são boazonas. Eu quero é que as pessoas no dia a seguir digam que a Carla Gamboa tem um espectáculo que vale mesmo a pena.
SR - Mas a Carla Gamboa também quer vender discos?
CG - Para vender discos é necessário, para já, ter uma grande editora por detrás, com um grande jogo de marketing e de publicidade. Não é preciso fazer música a pensar nas feiras, pois o Paulo Gonzo, o Rui Veloso, a Dulce Pontes e os Madredeus também vendem. Não é preciso ser popularucho. Se me tocarem nas feiras, óptimo, fico feliz porque é sinal que as pessoas das feiras também gostam de outro estilo de música. O problema é que as editoras presentemente injectam todo o mercado só com um estilo de música e tudo o que se desvie não convém que saia, porque se pegar vai ser uma grande chatice e vai obrigar a fazer uma viragem e começar tudo de novo. Por isso eu estou muito feliz neste momento porque sou original. Não há mais ninguém a fazer este tipo de música actualmente em Portugal. Este é o meu estilo. Esta sou eu. Depois houve um amigo que abriu uma editora, a Socidisco, e que editou a Carla Gamboa, mas temos um problema, pois sou a primeira artista da editora e como é uma editora que está no início da actividade é praticamente impossível chegar à televisão.
SR - Ao dizer isto a Carla Gamboa evidencia uma certa amargura, não?
CG - Estou muito amargurada, pois uma pessoa leva dois anos e meio a fazer um trabalho com cabeça, tronco e membros, e chega à conclusão que vale a pena em termos pessoais porque vem de dentro, mas para o resto não faz sentido. As editoras não pegam, a televisão não passa. Afinal serviu para quê todo este trabalho?
SR - Para o que está à espera que sirva?
CG - Estou à espera que me levem à televisão para eu desbobinar tudo e meia alguma coisa. Felizmente as rádios estão a passar, estou a dar entrevistas por telefone para rádios de todo o país que nos escrevem e nos ligam a dizer que o disco está muito bom, está diferente e é bom ouvir coisas diferentes.
SR - Este trabalho resulta sobretudo de um investimento pessoal da Carla Gamboa. É sinal de que acredita muito no que faz?
CG - Acima de tudo é preciso gostar muito de cantar e é preciso ter uma coragem muito grande quando não se tem um bom apoio por detrás. É preciso ter alguma lata mas acho que este projecto merece algum destaque, mais que não seja por assinalar um ponto de viragem, por se estar a tentar fazer coisas novas e originais em Portugal, onde até agora eram tudo cópias. Fartei-me de ser uma ovelha atrás do rebanho.
Carla Gamboa SR - Mas este trabalho é diferente em quê?
CG - É diferente nas músicas, é diferente nos poemas, é diferente na interpretação porque são músicos que estão a tocar, é já um trabalho de uma grande envergadura. Mas é um trabalho que está ao alcance de ser feito por qualquer pessoa, basta que se tenha a coragem de dizer que já chega de fazer figura de palhaço a imitar os outros.
SR - Isso é uma crítica implícita à denominada música 'pimba'?
CG - 'Pimba' é a canção do Emanuel. Não estou a querer fugir à pergunta mas acho que há música de boa qualidade e música de má qualidade, e isto é uma crítica a sério à música de má qualidade que se faz neste país. Música de muito má qualidade, sem gosto nenhum, porque metem um órgão a tocar, metem a voz por cima e meia dúzia de coros e o disco está cá fora. Às vezes é o primeiro disco, onde se gastam mil ou dois mil contos, e ainda compram os discos para subirem no top e já são artistas. É mentira. Eu ando nisto há quatro anos e sou uma aprendiz de artista, não sou artista, pois ainda há muito que aprender. Um advogado quando tira o bacharelato está uma série de anos até ser advogado. Ele tem um patrono e tem que estar ali a aprender. Connosco é a mesma coisa. Ninguém pode gravar um disco e dizer que é artista. Então e a Simone de Oliveira? Então e a Amália Rodrigues? O que é que elas são? Agora quanto à música, há boa música e má música e a boa música são os originas. A má música são as cópias, porque uma cópia nunca é, nem de longe nem de perto, igual a um original.
SR - Mas a Carla Gamboa não está livre de no regresso à estrada voltar a ouvir perguntas sobre se se vai despir em palco ou não?
CG - Enquanto isto não der a volta a cem por cento e nós nos mentalizarmos que um artista, ou um aprendiz de artista, quando vai para cima de um palco e é pago para cantar, para dançar e para entreter o público e não para se despir a ele ou às bailarinas, isto vai continuar na barafunda total. E os homens, é claro, querem é ver um bom par de pernas em cima do palco, mas o problema é que ninguém se convence que no dia a seguir ninguém fala do artista mas das pernas das bailarinas. Agora, eu nunca senti a necessidade de me despir em cima do palco e no final dos espectáculos recebo tantos ou mais aplausos que os outros. Não preciso de me despir e sou fiel a mim própria.
SR - Mas a Carla Gamboa em cima do palco é a mesma que fora dele?
CG - Sou, embora haja um cuidado adicional com a maquilhagem e com a roupa. Quando chego a um sitio onde vou actuar, apresento-me da forma mais simples possível, de uma forma natural, porque acho que é mais bonito e melhora a componente do espectáculo chegar depois a cima do palco já produzida. É como a metamorfose da lagarta que depois se transforma em borboleta. Tudo isso faz parte do espectáculo e depende só do tipo que espectáculo que queremos ter. Não critico ninguém, mas gostava era que não nos confundissem uns com os outros e não nos metessem todos no mesmo saco, porque não somos todos iguais. É como aquela grande máxima, "todos diferentes, todos iguais", mas aqui ao contrário, "todos iguais, todos diferentes", porque somos todos artistas, estamos todos no mesmo núcleo, mas cada macaco no seu galho.
SR - Como são então os espectáculos da Carla Gamboa?
CG - Há uma atitude bastante alegre, bastante jovial, bastante roqueira, de miúda, mas com muita alegria porque eu adoro o palco e o palco é a minha vida. Gravo um disco com muito carinho, especialmente este porque senti as letras todas, mas é no palco que eu vibro e sou incapaz de ficar parada. Eu salto, corro de um lado para o outro, meto-me com o público, ponho-os a cantar e pular comigo. Há todo um entrusamento entre mim e o público e isso é muito importante. Os discos gravo-os para chegar ao palco.
SR - Quer dizer que os discos ficam aquém dos concertos?
CG - O meu sonho era gravar um álbum ao vivo, mas não quero é fazer tudo de repente e, sobretudo, não quero dar o passo maior que a perna. Tenho muito medo de rasgar as calças. Isto vai devagarinho, pois eu só tenho 27 anos e tenho tantos anos pela frente, que não preciso de ter pressa nenhuma. Tudo o que tiver que acontecer vai acontecer naturalmente, porque tem que acontecer e porque o público gosta de mim e porque eu gosto essencialmente daquilo que faço. No dia em que deixar de gostar do que faço, acabou a Carla Gamboa.
Pedro Brinca / Setubal Na Rede, 05/10/1998
Imagem
segunda-feira, 18 de abril de 2011
domingo, 27 de março de 2011
Ricardo Landum
Serviço completo (artigo de 2000)
RICARDO Landum, 39 anos, moreno, olhos escuros, cabelo semicomprido, estatura média. Para os críticos - e são muitos - da música dita «pimba» (versão «emanuelística de música ligeira), este é o homem a abater. Guitarrista, compositor e produtor, é ele quem escreve as letras, cria as melodias e produz os álbuns de quase todas as estrelas da canção e da cassete popular.
Sim, é ele o culpado pela súbita veia musical que o atinge durante o duche matinal ou no trânsito infernal, ainda que inconscientemente. De repente, não se sabe vindo de onde, lá lhe escapa um verso melodramático de Ágata ou um romântico refrão de faca e alguidar de Mónica Sintra. Ou de Romana, Ruth Marlene, Tony Carreira, Micaela, Tentações, Axel, Tayti.
Sim, foi ele o responsável pela colectiva adoração pró-maternal dos portugueses, que homenagearam a plenos pulmões e meses a fio a «Mãe querida, mãe querida, o melhor que a gente tem…» E também pelo calvário emocional de Mónica Sintra, que ora descobre que «Afinal, havia outra», e uma família, um lar, uma casa e, no fim de contas, ela era apenas o amor das horas vagas; ora apanha o marido na «Minha (sua) cama com ela», ele e outra no seu quarto, perdido nos braços de outra mesmo ao pé do seu retrato.
A Ágata reservou idêntica traição e pô-la a cantar «Sai, sai da minha vida...» (Perfume de Mulher), um romance que acaba inevitavelmente num complicado divórcio, em que a louríssima cantora, numa atitude de completo desapego material, apenas implora pela custódia do filho: «Podes ficar com as jóias, o carro e a casa, mas não fiques com ele. E até as contas do banco e a casa de campo...».
Refugiado no seu estúdio de gravação, na Póvoa de Santa Iria, Ricardo tem dificuldade em explicar o sucesso. Fala constantemente em sorte, instinto, inspiração misteriosa para justificar os quase 200 discos de platina e ouro que já ganhou, quer na Discossete, onde trabalhou cinco anos, quer como produtor independente, desde 1991. Apesar disso poucos portugueses o conhecem. Ricardo não se importa. Tímido, prefere o «conforto do anonimato» que o afasta das luzes da ribalta e da histeria popular. Confessa, no entanto, que, por vezes, esse afastamento deliberado lhe traz alguma frustração, facilmente compensada pelos lucros do ofício. «Podia já viver só dos direitos de autor das canções, mas não me consigo imaginar longe do estúdio, longe da música».
Mas também ele teve a sua quota-parte de fama. Em 1989, na altura em que o Festival da Canção ainda esvaziava as ruas e recheava sofás de olhos e ouvidos pegados no ecrã, Ricardo conquistou, literalmente, Portugal. Como guitarrista dos Da Vinci, subiu ao pódio com a música «Conquistador», composta por ele numa guitarra rosa-choque, e sentiu pela primeira vez o orgulho contido de ver e ouvir o país, transbordante de orgulho histórico, cantar em uníssono «Já fui ao Brasil, Praia e Bissau, Angola, Moçambique, Goa e Macau...».
Músico precoce, aos nove anos já passeava com à-vontade pela escala das guitarras e aos treze encantou-se com os palcos de bailaricos da capital. Os seus gostos musicais, muito pouco ligeiros, em nada indiciavam um futuro no cançonetismo popular. Aliando-se ao «boom» do rock português dos anos 70, integrou os Samurai e os TNT, duas bandas de hard-rock e depois os Ibéria, mais virados para o então radical «heavy-metal».
Ainda sob a alçada familiar queria a todo o custo viver da música e rendeu-se, então, a sons mais comerciais na CBS. Abandonou o «look» metálico, as guitarradas frenéticas e até o nome. Ricardo é, na verdade, Francisco Landum, um baptismo pouco mediático à luz da análise de mercado da editora. «Entre André e Ricardo…». Arrependeu-se. Quer da mudança de nome - até a mulher lhe chama Ricardo , a mãe preserva o «Chico» - quer da experiência musical. «Gravei dois discos de pop pimbalhada, foleiros, que não tinham nada a ver comigo. Parecia o João Pinto com uma camisola do Porto». Fingiu ser um cantor romântico, um Tony Carreira do pop, mas o público deu pela mentira. «O povo não é estúpido». Os Da Vinci salvaram-no.
A entrada para a Discossete marcou a viragem definitiva. «Eu compunha 'heavy-metal' e 'trash', mas paralelamente criava outras melodias mais comerciais. Pediram-me para produzir o álbum de Márcio Ivens e eu, que nunca me tinha visto naquelas andanças, até tive sucesso». Hoje é ele que escolhe os artistas que produz.
Laboralmente egocêntrico e exigente, anda sempre com um bloco onde aponta ideias, chavões, melodias que lhe surgem em qualquer altura e local. «O 'Pisca-Pisca' da Ruth Marlene saiu-me no carro». Mas nem todas as canções surgem do acaso. Antes de começar a escrever e a compor, Ricardo Landum faz questão de conhecer a vida, a voz e as ambições dos artistas. Só depois se transforma, sucessivamente, em mulher traída, homem não correspondido, mãe solteira ou menina que quer ser mulher.
Quando sente saudades do palco, dá uma «perninha» nos concertos das «suas» estrelas, com uma guitarrada suave ou murmúrios de «backing vocal». As do rock sacia-as na aparelhagem onde Garbage, Prodigy e Massive Attack têm passagem assegurada. É que não há amor como o primeiro.
Raquel Moleiro / Expresso, 15/04/2000
Não tem nome de faz-tudo, mas é como se o ostentasse como a uma bandeira. A mais aligeirada da música ligeira é o reino de Ricardo
RICARDO Landum, 39 anos, moreno, olhos escuros, cabelo semicomprido, estatura média. Para os críticos - e são muitos - da música dita «pimba» (versão «emanuelística de música ligeira), este é o homem a abater. Guitarrista, compositor e produtor, é ele quem escreve as letras, cria as melodias e produz os álbuns de quase todas as estrelas da canção e da cassete popular.
Sim, é ele o culpado pela súbita veia musical que o atinge durante o duche matinal ou no trânsito infernal, ainda que inconscientemente. De repente, não se sabe vindo de onde, lá lhe escapa um verso melodramático de Ágata ou um romântico refrão de faca e alguidar de Mónica Sintra. Ou de Romana, Ruth Marlene, Tony Carreira, Micaela, Tentações, Axel, Tayti.
Sim, foi ele o responsável pela colectiva adoração pró-maternal dos portugueses, que homenagearam a plenos pulmões e meses a fio a «Mãe querida, mãe querida, o melhor que a gente tem…» E também pelo calvário emocional de Mónica Sintra, que ora descobre que «Afinal, havia outra», e uma família, um lar, uma casa e, no fim de contas, ela era apenas o amor das horas vagas; ora apanha o marido na «Minha (sua) cama com ela», ele e outra no seu quarto, perdido nos braços de outra mesmo ao pé do seu retrato.
A Ágata reservou idêntica traição e pô-la a cantar «Sai, sai da minha vida...» (Perfume de Mulher), um romance que acaba inevitavelmente num complicado divórcio, em que a louríssima cantora, numa atitude de completo desapego material, apenas implora pela custódia do filho: «Podes ficar com as jóias, o carro e a casa, mas não fiques com ele. E até as contas do banco e a casa de campo...».
Refugiado no seu estúdio de gravação, na Póvoa de Santa Iria, Ricardo tem dificuldade em explicar o sucesso. Fala constantemente em sorte, instinto, inspiração misteriosa para justificar os quase 200 discos de platina e ouro que já ganhou, quer na Discossete, onde trabalhou cinco anos, quer como produtor independente, desde 1991. Apesar disso poucos portugueses o conhecem. Ricardo não se importa. Tímido, prefere o «conforto do anonimato» que o afasta das luzes da ribalta e da histeria popular. Confessa, no entanto, que, por vezes, esse afastamento deliberado lhe traz alguma frustração, facilmente compensada pelos lucros do ofício. «Podia já viver só dos direitos de autor das canções, mas não me consigo imaginar longe do estúdio, longe da música».
Mas também ele teve a sua quota-parte de fama. Em 1989, na altura em que o Festival da Canção ainda esvaziava as ruas e recheava sofás de olhos e ouvidos pegados no ecrã, Ricardo conquistou, literalmente, Portugal. Como guitarrista dos Da Vinci, subiu ao pódio com a música «Conquistador», composta por ele numa guitarra rosa-choque, e sentiu pela primeira vez o orgulho contido de ver e ouvir o país, transbordante de orgulho histórico, cantar em uníssono «Já fui ao Brasil, Praia e Bissau, Angola, Moçambique, Goa e Macau...».
Músico precoce, aos nove anos já passeava com à-vontade pela escala das guitarras e aos treze encantou-se com os palcos de bailaricos da capital. Os seus gostos musicais, muito pouco ligeiros, em nada indiciavam um futuro no cançonetismo popular. Aliando-se ao «boom» do rock português dos anos 70, integrou os Samurai e os TNT, duas bandas de hard-rock e depois os Ibéria, mais virados para o então radical «heavy-metal».
Ainda sob a alçada familiar queria a todo o custo viver da música e rendeu-se, então, a sons mais comerciais na CBS. Abandonou o «look» metálico, as guitarradas frenéticas e até o nome. Ricardo é, na verdade, Francisco Landum, um baptismo pouco mediático à luz da análise de mercado da editora. «Entre André e Ricardo…». Arrependeu-se. Quer da mudança de nome - até a mulher lhe chama Ricardo , a mãe preserva o «Chico» - quer da experiência musical. «Gravei dois discos de pop pimbalhada, foleiros, que não tinham nada a ver comigo. Parecia o João Pinto com uma camisola do Porto». Fingiu ser um cantor romântico, um Tony Carreira do pop, mas o público deu pela mentira. «O povo não é estúpido». Os Da Vinci salvaram-no.
A entrada para a Discossete marcou a viragem definitiva. «Eu compunha 'heavy-metal' e 'trash', mas paralelamente criava outras melodias mais comerciais. Pediram-me para produzir o álbum de Márcio Ivens e eu, que nunca me tinha visto naquelas andanças, até tive sucesso». Hoje é ele que escolhe os artistas que produz.
Laboralmente egocêntrico e exigente, anda sempre com um bloco onde aponta ideias, chavões, melodias que lhe surgem em qualquer altura e local. «O 'Pisca-Pisca' da Ruth Marlene saiu-me no carro». Mas nem todas as canções surgem do acaso. Antes de começar a escrever e a compor, Ricardo Landum faz questão de conhecer a vida, a voz e as ambições dos artistas. Só depois se transforma, sucessivamente, em mulher traída, homem não correspondido, mãe solteira ou menina que quer ser mulher.
Quando sente saudades do palco, dá uma «perninha» nos concertos das «suas» estrelas, com uma guitarrada suave ou murmúrios de «backing vocal». As do rock sacia-as na aparelhagem onde Garbage, Prodigy e Massive Attack têm passagem assegurada. É que não há amor como o primeiro.
Raquel Moleiro / Expresso, 15/04/2000
Não tem nome de faz-tudo, mas é como se o ostentasse como a uma bandeira. A mais aligeirada da música ligeira é o reino de Ricardo
sexta-feira, 18 de março de 2011
terça-feira, 8 de março de 2011
Luis Manuel
Luís Manuel comemora vinte anos de carreira junto das comunidades
Luís Manuel é natural de Ferreira do Alentejo, distrito de Beja, e muito novo emigrou com os seus pais para o Luxemburgo. Aos vinte anos de idade formou o grupo musical "Os Apolos", para 8 anos mais tarde ser convidado a gravar o seu primeiro trabalho a solo. Na sua carreira já foi premiado com dois discos de Ouro, dois de Prata e um de Platina.
Gazeta Lusófona - Faz-nos uma retrospectiva sobre os teus vinte anos de carreira?
Luís Manuel - Devo dizer que são vinte anos de estrada, vinte anos de gravações, vinte anos de produção e, essencialmente, vinte anos a gravar músicas para todo o género de público. Como tal, foram muito positivos. É um marco na minha carreira que não se comemora todos os dias. Estamos a preparar uma tournée que irá abranger as comunidades portuguesas de França, Suíça, Bélgica, Luxemburgo e Alemanha.
GL - Qual foi o momento mais alto nestes vinte anos de carreira?
LM - O momento que mais me marcou foi quando recebi o meu primeiro disco de prata. Depois desse, recebi dois de ouro e um de platina. No entanto, devo reconhecer que o primeiro deixou uma marca muito especial.
GL - É difícil para ti conseguir as canções para os teus trabalhos?
LM - Não é muito difícil porque eu já tenho um nome bem implantado no mercado. Eu tenho bons compositores a escreverem para mim. Depois, eu também componho temas e já fui músico. Fui baterista e toco guitarra. Ou seja, não dependo necessariamente de terceiros. No entanto, existem sempre talentos que compõem boas músicas, como o Ricardo Landon e o José Félix.
GL - Há uns tempos atrás o termo “Pimba” era muito falado e comentado. Que é que tens a dizer sobre isto?
LM - É como em tudo na vida. A música não foge à regra. Aproveitaram o sucesso do Emanuel para o chamado “Jet Set”, que antes chamava às músicas que não gostavam de “pirosas”, para passarem a chamar de “Pimba”…
GL - Afecta-te de alguma maneira se chamarem à tua música de “Pimba”?
LM - Não. Cada um ouve o que quer. Mas aquilo que eu sei é que se organizarem dois espectáculos, um de música clássica com o maestro Vitorino de Almeida e outro com um Roberto Leal, por exemplo, para não mencionar outro, eu tenho quase a certeza que o maior sucesso é o concerto do Roberto Leal e não o do maestro. E depois não se trata de música “Pimba”, mas sim de música ligeira portuguesa que tem o seu espaço e o seu público. Isto é que é a grande verdade… Vejam quem participa no Natal dos Hospitais? O maior número é artistas da música ligeira portuguesa. São eles que muitas vezes dão a cara para muitos espectáculos de beneficência e não só.
GL - Como é que estamos com novos temas? E ainda sentes que tens inspiração para compor?
LM - Existem sempre momentos especiais nos quais nos sentimos bem para compor e aí sai sempre algo, que depois pode ser do agrado do público ou não. Mas uma pessoa sente o que as pessoas desejam ouvir e sentir. Depois, tudo é a sequência de continuar a ter espectáculos e os meus cd’s continuarem a vender. E a prova disso é o meu último trabalho “Loucuras de amor”, estar a vender muito bem. Por exemplo, hoje estou aqui, amanhã, domingo, pela tarde vou estar na Anadia e à noite em Pombal. Ou seja, é o reconhecimento dos longos anos de carreira. A música popular portuguesa está no bom caminho, como é o caso do Tony Carreira.
GL - É importante para vocês este contacto com as comunidades?
LM - Olha, eu sou capaz de dar uma importância maior porque eu senti na pele o que é ser emigrante. A maior parte da minha vida vivi no Luxemburgo, onde estive 18 anos e depois vivi 8 anos em França na maravilhosa cidade que é Paris. Bem há pouco tempo é que me radiquei em Portugal. Portanto, eu sei o que é viver fora. Por exemplo, no mês de Outubro, todos os fins-de-semana tive espectáculos na Suíça. Um artista sente um carinho especial quando actua para estes portugueses que labutam fora da sua terra e sentem como ninguém a palavra saudade. O convívio e a amizade são valores que só os emigrantes sabem valorizar e interpretar.
Gazeta Lusófona, 29/11/2005
Luís Manuel é natural de Ferreira do Alentejo, distrito de Beja, e muito novo emigrou com os seus pais para o Luxemburgo. Aos vinte anos de idade formou o grupo musical "Os Apolos", para 8 anos mais tarde ser convidado a gravar o seu primeiro trabalho a solo. Na sua carreira já foi premiado com dois discos de Ouro, dois de Prata e um de Platina.
Gazeta Lusófona - Faz-nos uma retrospectiva sobre os teus vinte anos de carreira?
Luís Manuel - Devo dizer que são vinte anos de estrada, vinte anos de gravações, vinte anos de produção e, essencialmente, vinte anos a gravar músicas para todo o género de público. Como tal, foram muito positivos. É um marco na minha carreira que não se comemora todos os dias. Estamos a preparar uma tournée que irá abranger as comunidades portuguesas de França, Suíça, Bélgica, Luxemburgo e Alemanha.
GL - Qual foi o momento mais alto nestes vinte anos de carreira?
LM - O momento que mais me marcou foi quando recebi o meu primeiro disco de prata. Depois desse, recebi dois de ouro e um de platina. No entanto, devo reconhecer que o primeiro deixou uma marca muito especial.
GL - É difícil para ti conseguir as canções para os teus trabalhos?
LM - Não é muito difícil porque eu já tenho um nome bem implantado no mercado. Eu tenho bons compositores a escreverem para mim. Depois, eu também componho temas e já fui músico. Fui baterista e toco guitarra. Ou seja, não dependo necessariamente de terceiros. No entanto, existem sempre talentos que compõem boas músicas, como o Ricardo Landon e o José Félix.
GL - Há uns tempos atrás o termo “Pimba” era muito falado e comentado. Que é que tens a dizer sobre isto?
LM - É como em tudo na vida. A música não foge à regra. Aproveitaram o sucesso do Emanuel para o chamado “Jet Set”, que antes chamava às músicas que não gostavam de “pirosas”, para passarem a chamar de “Pimba”…
GL - Afecta-te de alguma maneira se chamarem à tua música de “Pimba”?
LM - Não. Cada um ouve o que quer. Mas aquilo que eu sei é que se organizarem dois espectáculos, um de música clássica com o maestro Vitorino de Almeida e outro com um Roberto Leal, por exemplo, para não mencionar outro, eu tenho quase a certeza que o maior sucesso é o concerto do Roberto Leal e não o do maestro. E depois não se trata de música “Pimba”, mas sim de música ligeira portuguesa que tem o seu espaço e o seu público. Isto é que é a grande verdade… Vejam quem participa no Natal dos Hospitais? O maior número é artistas da música ligeira portuguesa. São eles que muitas vezes dão a cara para muitos espectáculos de beneficência e não só.
GL - Como é que estamos com novos temas? E ainda sentes que tens inspiração para compor?
LM - Existem sempre momentos especiais nos quais nos sentimos bem para compor e aí sai sempre algo, que depois pode ser do agrado do público ou não. Mas uma pessoa sente o que as pessoas desejam ouvir e sentir. Depois, tudo é a sequência de continuar a ter espectáculos e os meus cd’s continuarem a vender. E a prova disso é o meu último trabalho “Loucuras de amor”, estar a vender muito bem. Por exemplo, hoje estou aqui, amanhã, domingo, pela tarde vou estar na Anadia e à noite em Pombal. Ou seja, é o reconhecimento dos longos anos de carreira. A música popular portuguesa está no bom caminho, como é o caso do Tony Carreira.
GL - É importante para vocês este contacto com as comunidades?
LM - Olha, eu sou capaz de dar uma importância maior porque eu senti na pele o que é ser emigrante. A maior parte da minha vida vivi no Luxemburgo, onde estive 18 anos e depois vivi 8 anos em França na maravilhosa cidade que é Paris. Bem há pouco tempo é que me radiquei em Portugal. Portanto, eu sei o que é viver fora. Por exemplo, no mês de Outubro, todos os fins-de-semana tive espectáculos na Suíça. Um artista sente um carinho especial quando actua para estes portugueses que labutam fora da sua terra e sentem como ninguém a palavra saudade. O convívio e a amizade são valores que só os emigrantes sabem valorizar e interpretar.
Gazeta Lusófona, 29/11/2005
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