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terça-feira, 10 de abril de 2012

Zé Cabra no Técnico

É sexta-feira, a noite de excelência para sair em Lisboa, segundo Miguel, estudante de Agronomia. Na mesma noite acontece um concerto dos Silence Four, também enquadrado na Semana Académica, que se prevê retirar público aos concertos no Instituto Superior Técnico. Zé Cabra sobe ao palco cedo, talvez demasiado cedo, ainda não são onze horas. Antes disso esteve no bar VIP, onde cumprimentou patrocinadores e organização.

A assistência não é muita, apesar de o (curto) concerto se vir a revelar mais concorrido que o dos Kamasutra ou dos Kane. Entre os grupos que se aproximam do palco existe bastante espaço vazio, muitos estudantes não abandonaram as barraquinhas do arraial, conversando e namorando entre cerveja e shots, vendidos à dezena, a preço especial. Zé Cabra é recebido com boa disposição ("Ganda maluco!") e responde com um sonoro "Boa Noite Rádio Cidade", está visto que audiência oblige. O cantor veste um fato com faixa de lantejoulas encarnadas e a iluminação mostra um rosto cansado e olheirento. Movimenta-se agilmente por todo o palco ("Não metas, não metas, não metas coisas nessa cabecinha, não metas coisas que não são verdade."), e a assistência canta com ele, dando provas de conhecer as letras de cor.

O ambiente tem a mesma energia de um bailarico da aldeia, várias raparigas entram em sintonia com o momento e dançam entre si. Vêem-se alguns copos de cerveja e muitos, muitos caloiros. Demora tempo a chegar o habitual cheiro a erva, fumada algures, entre estes jovens de ar saudável e desinteressante, banais, limpinhos e simpáticos que não parecem perceber que, até há pouco tempo, esta mistura académico-pimba seria algo bem mais improvável. Mas o Big Brother está no ar e não há pudor cultural que lhes valha.

A temperatura sobe com a arrastada "Lágrimas" ("São Lágrimas, são lágrimas.") e o humilde pedido "Mãozinhas no ar, agradecia imenso!", que deixa Margarida, 20 anos, capaz de um desabafo para as amigas "Eh pá, isto é mesmo ridículo!". As três amigas, um dos muitos grupinhos de raparigas que pontuam por todo o recinto (ao lado de grupos similares, e maiores, exclusivamente do sexo masculino) são caloiras mas já perceberam que ".o Zé Cabra está cá só para pôr o pessoal a beber". Pelo que se pode ver, até este momento, o pessoal diverte-se comedidamente, pelo mais pueril divertimento de pular e gritar numa sexta à noite.

O cantor aplica-se ("Passa a noite comigo morena, vai valer a pena, vais ver o que tens andado a perder, sou o homem que te vai fazer mulher") e volta a pedir palmas para a Rádio Cidade. Uns minutos mais tarde é a vez da sua editora "Uma salva de palmas para a minha editora Espacial, é graças a eles e aos estudantes que estou aqui!". Uma boa média final, com cinco músicas para três agradecimentos. Democrático, ao bisar, Zé Cabra deixa aos estudantes a opção "Qual é que querem?" e regista que a música "Lágrimas" é o seu hit estudantil.

Joana Leitão de Barros / Oni, 18/05/2001

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Saúl 1997/2007

Os meus pais arruinaram-me

Habituados aos palcos do circo, os pais de Saúl derreteram mais de meio milhão de contos em dez anos. Ficou, como ele canta, “sem dinheiro nem cuecas”. Mesmo que com o pé atrás e vergonha dos que o arruinaram, o pequeno do acordeão não desiste. Continua a actuar e vive com a namorada na Figueira da Foz.

Correio Êxito – Por que é que, nos últimos anos, o Saúl tem andado desaparecido?

Saúl – O Saúl só tem andado desaparecido na Comunicação Social, não vai à televisão nem aparece nos jornais. Nunca parou de fazer espectáculos e continua a correr mundo. Muitas vezes quando chego aos espectáculos as pessoas ficam surpreendidas porque pensavam que o Saúl já não existia.

P– Como é que explica isso?

– Não consigo explicar.

P– Houve algum momento de ruptura ou mudança que lhe fez perder o protagonismo?

– Durante muitos anos não tomei decisões nem geri a minha carreira. Também disseram que tinha morrido num acidente de carro.

P– Qual foi a decisão mais difícil que tomou na vida?

– Há um ano ocorreram umas coisas que eu não estava à espera.

P– Que coisas?

– Problemas familiares. Trabalhava com os meus pais, houve umas complicações e tive que deixar de trabalhar com eles. Tomei decisões que devia ter tomado logo no início da minha carreira.

P– Que decisões?

– Decisões que tomavam por mim.

P– Parece amadurecido à força.

– Sinto-me um bocado maduro porque já estou dentro do assunto. Já sou produtor e empresário de espectáculos. Trato da minha carreira em primeiro lugar.

P– Por que é que os seus pais deixaram de ser seus empresários?

– Agora trabalho com o meu tio, mais conhecido por Nelly Noronha. Estamos em conjunto para levarmos isto para a frente.

P– O que é que aconteceu entre si e os seus pais?

– Não posso dizer o que foi. Como é que eu hei-de explicar isto? Não deviam ter feito o que fizeram para arruinar a minha carreira. Agora estou a tentar levantá-la.

P– Mantém relações com eles?

– Sim. São meus pais, não vou deixar de falar com eles.

P– Por que é que vendeu a sua mansão?

– Foram eles que quiseram. Não pude fazer nada. Se fosse hoje seria diferente.

P– A propriedade, com campo de futebol e piscina, era sua ou deles?

– Estava em nome deles. Os problemas que existiram também foram derivados disso. Agora, sozinho, estou a tentar levantar-me para voltar a ter o património que tinha.

P– Quem ficou com o dinheiro da venda?

– Foram os meus pais.

P– O Saúl vive numa casa de uma instituição de caridade?

– Isso é mentira.

P– O que é que fez ao que ganhou durante dez anos?

– Não posso dizer que fiz muito porque nunca tive acesso directo ao meu dinheiro.

P– E os seus pais fizeram alguma coisa?

– Muita coisa.

P– O quê?

– Jogos, carros, dinheiro mal gasto. Dinheiro mesmo muito mal gasto.

P– Hoje estão bem na vida?

– Não estão muito bem.

P– Porque não souberam gerir o dinheiro?

– Sobretudo, não souberam gerir o meu dinheiro.

P– Eles deveriam dar-lhe o que têm, o que você ganhou?

– Não lhes peço nada porque não têm nada.

P– Perderam tudo o que tinham?

– Ficou quase tudo nos casinos.

P– Não cresceu na carreira porque gastaram tudo e não investiram nada na sua carreira?

– Eles não quiseram investir e a minha carreira começou a diminuir.

P– A sua família depende, ou dependeu, economicamente de si?

– O meu pai também me ajudava. Conduzia o camião, tal como o meu tio. Não vou dizer que sim nem que não. Ela por ela.

P– É verdade que recentemente não pagou as prestações de um automóvel?

– Não tenho carro e só agora é que estou a tirar a carta de condução.

P– Então foi o seu pai?

– Deve ter sido.

P– Há um ano compôs o single ‘Sem Dinheiro e Sem Cuecas’. Deixaram-no sem dinheiro. Deixaram-no também sem cuecas?

– Sem cuecas não. Isso não. Só me deixaram sem dinheiro.

P– Os seus pais tornaram público que lhe depositavam o dinheiro que ganhava numa conta a que teria acesso aos 18 anos.

– Não havia conta nenhuma. Foi mais uma mentira da minha mãe.

P– Não parece muito zangado...

– Não estou zangado mas também não lhes dou as largas que tinham antigamente.

P– Já não confia neles?

– Agora não. Posso dizer que não tenho confiança em ninguém.

P– E perdoou-lhes?

– Não. Perdoar não perdoei.

P– O Saúl também é de excessos?

– Já fui mais.

P– De que tipo?

– Excessos materiais, dinheiro gasto em computadores.

P– O que é que sentia quando via os seus pais a esbanjarem?

– Era muito pequeno para perceber isso. Não deve ser fácil para alguém que não tem nada e que de repente passa a ter tudo. Não os censuro por esse comportamento durante um ou dois anos. Mas passado esse tempo deviam pensar que tinham filhos, que tinham património e que era preciso saber geri-lo.

P– Como é que é viver com quatro irmãos, todos rapazes?

– Está a ver o que são homens à porrada? Nós éramos dia sim dia sim, todos os dias à pancada.

P– Porque é que alguns dos seus irmãos estão a viver com a avó?

– Porque os meus pais foram para Inglaterra.

P– Lembra-se de, com quatro anos, ser um grande contador de anedotas?

– Nos cafés, aquilo é que era ‘nice’. A minha mãe não sabia de mim; fugia para ir contar anedotas ao pessoal que achava muita piada.

P– Considera-se inteligente?

– Não muito. Se quisesse podia ser mais. Estou na média.

P– O que é que poderia fazer para ser mais?

– Em primeiro lugar, pensar duas vezes nas coisas e não entrar logo de cabeça. Pensar naquilo que vou fazer e não abrir o coração para toda a gente, como faço, nem ser tão dado.

P– Qual foi a maior asneira que fez na sua vida?

– Ter deixado os meus pais tomarem conta da minha carreira.

P– Foram eles que perceberam que tinha potencial artístico?

– Foram uns colegas do meu pai. Estávamos no circo, gostava de imitar o Quim Barreiros, mandaram-me ir ao ‘Big Show SIC’, e lá fui.

P– Nunca soube tocar acordeão?

– Aquilo era a brincar. Era só fechar e abrir esse instrumento.

P– No último ano foi aprender...

– Fui mas não sei tocar muito bem. Não faço melodias nem nada disso. Faço o que necessito para dar um espectáculo. E já é muito.

P– Como é o seu dia-a-dia?

– Divertido como sou e sempre fui. Estou a tirar um curso profissional de técnico de informática. Namoro.

P– Há quanto tempo namora?

– Há um ano e três meses. Faço o normal para um jovem de 19 anos.

P– Sai à noite, toma uns copos...

– Não gosto de beber. Só Coca-Cola, e já é bom.

P– Por que é que decidiu viver com a namorada e não casar?

– Cada coisa a seu tempo. Não nos podemos precipitar nas escolhas. Temos que ter calma.

P– Qual é a sua opinião sobre o casamento?

– Muitos dizem que serve para se enforcar. Tenho que experimentar uma vez para ver como é.

P– Por causa da música não brincou?

– Não vivi a minha infância como as outras crianças.

P– Tem saudades desse tempo?

– Um bocadinho. Tinha muito trabalho mas não me arrependo de nada. Gosto muito do que faço e do que fiz. Só gostava de voltar atrás para recomeçar tudo.

P– O que é que faria diferente?

– Tudo. Por exemplo, começava por ser eu a mandar logo desde o início.

P– Uma criança com seis anos não gere a sua própria carreira.

– Gere, com a ajuda de outros.

P– Alguma vez se sentiu vítima do trabalho infantil?

– Não. Os meus pais nunca me obrigaram a cantar.

P– Parece triste ao recordar o passado.

– Na altura eu era muito conhecido. Hoje, muita gente pensa que eu já não canto, e está enganada.

P– Quais são os momentos que mais o marcaram na vida?

– O início da minha carreira foi muito bonito. Quando se começa é sempre mais bonito do que já no meio.

P– Como é que se vê a si mesmo e àquela figura catita, de sorriso fácil e cara de puto reguila?

– Se me visse hoje pensava que aquele puto era parvo. Estava-me sempre a rir não sei de quê. Só se fosse por ter comichão nalgum sítio. Era muito alegre, maluco...

P– Maluco como?

– Tenho uma pancada qualquer. Não sei onde, mas um dia ainda hei-de descobrir.

P– Como é que isso se revela?

– Às vezes faço cada coisa!...Revela-se nas brincadeiras, na forma de dançar, nas bocas que mando.

P– Quando recebeu a tripla platina, por vendas superiores a 120 mil unidades, o que pensou?

– Pensei que era bom naquilo que fazia porque senão não tinha vendido tanto. Foi uma grande emoção porque nunca pensei que pudesse acontecer. Na altura em que gravei ‘O Bacalhau Quer Alho’, tinha sete ou oito anos, achei que não ia dar nada. Saiu e foi um estoiro, uma bomba. Fiquei muito admirado.

P– Quim Barreiros representa o quê para si?

– Em primeiro lugar é o meu ídolo de sempre. Aquele que comecei por imitar. É também um grande amigo. Aproveito a oportunidade para tirar uma dúvida às pessoas: o Quim Barreiros não é meu pai nem faz parte da minha família. Como ele é o meu padrinho artístico as pessoas confundiram tudo.

P– Conhece figuras ilustres que gostam da sua música?

– Conheço um, o falecido JFK Júnior que viu um concerto meu num restaurante em Providence, nos Estados Unidos, e disse que gostou muito de me ouvir cantar.

P– O que é que a música representa na sua vida?

– Animação, descontracção. Já que o nosso país está tão mau pelo menos alegro as pessoas e divirto-me.

P- Porque é que “o nosso país está tão mau”?

– Isso aí é complicado. Acho que é por causa dos ministros.

P– Até onde chegou na escola?

– Vou agora tirar a equivalência ao 12º ano. Decidi fazer um curso profissional.

P– Técnico de Gestão Informática. Usufruiu disso?

– Muito. Fiz um estágio, trabalhei, sei mexer melhor em computadores. Se precisarem de um técnico estou cá eu porque sou bom nisso.

P– Se o convidassem para trabalhar na área aceitava?

– Ainda não me sinto preparado. Se um dia a música deixar de dar, aí sim, tenho essa vertente.

P– O que é que mudou na sua vida nos últimos anos?

– A minha voz, passei eu a mandar na minha carreira, gravei novos trabalhos. A minha vida mudou completamente.

P– Para melhor?

– Para melhor.

P– Considera-se um ícone da música popular brejeira?

– Penso que sim. Porque, não sei como, toda a gente conhece ‘O Bacalhau Quer Alho’ e o Saúl.

P– É um mito?

– Sim, já lá vão 15 anos. Até hoje, graças a Deus, ninguém se esqueceu do Saúl. Agradeço a todos os que gostam de mim e das minhas músicas.

P– Acha-se um bom artista?

– Não devo responder a isso. Gosto de me ouvir, acho que tenho uma boa voz, às vezes até me consigo imitar a mim mesmo.

P– Inclui-se no rol de cantores pimba!?

– Há dois anos, eu e o Zé Malhoa fomos considerados os reis da música pimba. É bom. É sinal de que ainda sou conhecido.

P– Sente-se um pequeno rei?

– Só do meu próprio nariz.

P– O que é que responde a quem acha a sua música pirosa?

– Se acham que a música portuguesa é pirosa então traduzam a inglesa e vejam o resultado.

P– A música pimba é a música dos excluídos?

– Não. Ainda há pouco tempo o mercado era da música pimba e não das outras músicas.

P– A ‘inteligentzia’ portuguesa ignora-a?

– Acho que sim. São eles que estragam o nosso mercado.

P– De que forma?

– Tipo ‘Morangos com Açúcar’, rapazes jovens, 4 Taste e essas coisas assim, por que é que não cantam em português?

P– Qual é o seu cachet?

– Nunca falo de cachet. Mas sou mais barato do que os outros.

P– Por que é que não revela quanto cobra?

– Quem quer espectáculos liga e nós dizemos quanto cobramos.

P– Os euros amealhados alguma vez lhe subiram à cabeça?

– Não. Quem me conhece sabe que isso é verdade.

P– Ainda se dedica ao bilhar, aos póneis, aos cães de raça, aos jogos de computador?

– Agora estou a aprender a jogar golfe e gosto de jogar futebol.

P– Chegou a sonhar ser guarda-redes da Naval 1.º de Maio.

– Quando era pequeno sonhava que viria a ser guarda-redes da Selecção Nacional.

P– Ainda é fanático pelo Benfica?

– Sempre.

P– Continua a ser bem recebido nos locais onde actua?

– Não dizendo que os outros são mais ou menos bem recebidos, noto que as pessoas têm carinho por mim.

P– E as editoras têm alguma responsabilidade no esquecimento a que foi votado?

– Como é muito complicado vender CD não apostam tanto nos artistas.

P– Desiludido, deixou a Vidisco e entrou na Espacial, onde também não deu certo. Porquê?

– Houve pessoas lá dentro que só queriam agarrar no Saúl para o mandar cada vez mais para baixo.

P– Vive só dos espectáculos?

– Vivo.

P– Embora tenha editado ‘Hoje É Dia de Jesus’ para o Natal, ninguém passou a música nem foi à televisão. Sabe porquê?

– Lançámos o CD antes do Natal para irmos ao ‘Natal dos Hospitais’ e isso tudo, mas nunca me chamaram para nada.

P– A sua música estará estafada?

– Pelo contrário. A minha música ainda vai ter muita vida.

P– Sente-se revoltado ou triste por o terem esquecido?

– Mais triste porque na altura em que precisaram do Saúl, era Saúl para aqui e Saúl para ali. Agora que há outros deixaram o Saúl de parte. Deviam lembrar-se do Saúl, não digo mais, mas pelo menos uma vez por mês.

P– Quais são os seus maiores desejos?

– Continuar a animar Portugal, gravar muitos CD, ter saúde e uma vida estável.

'O BOATO DA MINHA MORTE CORREU ATÉ À AUSTRÁLIA'

P– Por que é que, em 1998, fez uma pausa na sua carreira?

– Foi por causa da escola. Estive parado um ano e queria recuperar.

P– É então que começa a correr o boato de que o Saúl tinha morrido num acidente...

– Já ouvi seis histórias a esse respeito. Uma, foi que no Hospital da Gala, Figueira da Foz, onde nasci, deu entrada um rapaz já morto com o mesmo nome que eu e a mãe dele com o mesmo nome da minha. Também pode ter sido por causa do acidente do meu tio. Pensavam que eu ia com ele e que tinha morrido. Esse boato correu até à Austrália, de onde me ligaram a perguntar se estava vivo. É aí que eu não entendo. A Comunicação Social, que não queria saber do Saúl, pediu, em peso, para assistir e filmar o funeral. Isso não me entra na cabeça. Para o bem, os ‘mass media’ nunca estão lá, mas para o mal fazem tudo para estar.

P– Esse boato ainda circula pelas localidades onde actua?

– Circula e muito. Tenho perdido muitos espectáculos porque pensam que já estou morto. Às vezes até faço uma brincadeira: “Cheguei no autocarro das cinco, o gajo lá de cima deixou-me vir cá abaixo”.

P– Sente que, de alguma forma, por causa da fortuna que os seus pais perderam e dessa notícia do acidente de viação, o Saúl está a começar do zero?

– É isso mesmo.

'DIZIAM QUE EU TINHA TRISSOMIA 21'

P– É saudável?

– Graças a Deus.

P– Um tio seu tem a doença Trissomia 21. Isso preocupa-o?

– Quando eu era pequeno os médicos diziam que eu também tinha essa doença. Diagnosticaram-me, inclusivamente, uma deficiência, mas nunca souberam qual.

P– Ainda tem o sonho de fazer uma licenciatura e de ser piloto de aviões?

– Não. Já me deixei disso. Porque os meus dentes não são muito bons e um piloto tem que ter os dentes direitos. A altura também conta e sou muito mau a matemática. Safo-me sempre mas por debaixo da mesa.

P– Costuma ser assediado?

– Quando tinha 16 anos, em Viseu, dei um autógrafo um bocado quente. A rapariga chegou perto de mim, toda doida, deu-me um grande beijo na boca e pediu-me para lhe autografar o peito.

P– Qual foi a última vez que chorou?

– Foi há um ano, por causa daquilo que os meus pais me fizeram. Senti-me posto de parte por eles.

P– E o momento mais duro?

– Um foi o acidente do meu tio Nelly, que esteve em coma. O outro foi quando descobri que afinal não havia conta nenhuma em meu nome. O meu pai estoirou tudo o que era meu, fez mais umas maroscas e desapareceu sem dizer nada a ninguém.

PERFIL

Saúl Ricardo nasceu na Figueira da Foz a 18 de Agosto de 1987. Em 1994 notabilizou-se com imitações a Quim Barreiros mas foi com ‘O Bacalhau Quer Alho’, de 96, que fez sucesso. No ano seguinte, ‘Os Pitos’ volta a atingir a platina. Depois tem um período conturbado, o seu nome cai no esquecimento. Em 2000 lança ‘Gosto de Ti à Brava’, registo mais pop a que o público não adere. Em 2002 opta por revisitar o estilo brejeiro e as letras maliciosas em ‘Espeto Um Prego’, que atinge o ouro. Dá indícios de recuperar o fôlego mas em 2003 regista ‘Não Sou Mau Estudante’, um fracasso de vendas, tal como o seguinte ‘As Bolas de Snooker’. O ano passado lança ‘Saúl’, mas ninguém parece ter notado.

José Manuel Simões / Correio Êxito, 06/01/2007

Criança ainda na muda dos dentes, Saúl Ricardo é já uma demonstração viva dos eternos valores da raça. Outros povos terão Shirley Temple, Pierino Gamba, outros mesmo terão Mozart (...). Mas nós, com Saúl Ricardo, estamos na vanguarda infantil. Produto do Big Show SIC (...) a glória universal do pequeno génio consiste na imitação de Quim Barreiros. Celebrizou-se particularmente com a interpretação de ‘Bacalhau quer alho’".

Mário Castrim, Tal e Qual, 03/01/1997

sábado, 14 de maio de 2011

Luis Filipe Reis

«Estou no lugar que mereço»

Foi a fazer bailes por todas as aldeias do distrito da Guarda que Luís Filipe Reis deu o pontapé de saída nas lides artísticas. Tinha então 16 anos e já uma grande paixão pela música popular portuguesa. Cantarolava muitas músicas «tipo José Malhoa», lembra. Na altura comprou uma bateria «muito pobrezinha» e aprendeu a tocar sozinho. Surgiu então a oportunidade de mostrar as suas habilidades em público. O convite veio da parte de um irmão do acordeonista António Júlio. Luís Filipe Reis aceitou e logo no primeiro dia fez um baile. «Recordo-me que em Gonçalo», terra natal de António Júlio. Um duo que viu a sua popularidade aumentar dia para dia. «Quase todos os dias tínhamos um baile», garante o cantor. A sintonia entre eles era tanta que ouviam uma música ao meio-dia e tocavam-na à noite, «sem ensaio». «Coisas muito bonitas que aconteciam entre mim e ele», diz a propósito. Sempre música portuguesa ou cantada em português. «Ouvíamos música estrangeira mas não a tocávamos». Actualmente não sabe do paradeiro do companheiro de tantos bailes mas espera que não tenha deixado de tocar. «Nunca conheci ninguém com o ouvido do António Júlio», argumenta. Falando de si, Luís conta que sempre foi fã do Roberto Carlos e Frederic François, entre outros cantores românticos. Uma linha que sempre seguiu. «O meu bilhete de identidade é cantar canções românticas».

O facto de ser conhecido, ter «uma vida social boa» e dos pais lhe pedirem não foram razões suficientes para o demover de procurar uma vida melhor fora daqui. «Exijo muito de mim», explica. Essa exigência e um telefonema de Abílio Curto conseguem-lhe um passaporte até Paris. «O máximo que ele [Abílio Curto] fez por mim foi muito bom, muito embora não tivesse resultado». Fala com um certo saudosismo do ex-autarca e lamenta que a «pessoa amiga do Abílio» talvez o tenha esquecido. «As pessoas são amigas quando estão presentes. Às vezes esquecem a amizade». Apesar de não querer «estar a escrever um livro tipo Linda de Suza», Luís Filipe não quis deixar de referir que foi com «muita luta e sacrifício» que venceu o desafio. «Gravei o meu primeiro álbum em Paris, depois fui convidado para gravar nos Estados Unidos». Nos primeiros dois anos que se deslocou a Portugal para dar alguns espectáculos, Luís «tinha uma certa vergonha», porque as pessoas lhe diziam que tinha um «espectáculo tão bonito e não era conhecido». «É sempre triste quando não reconhecem o nosso trabalho no nosso país de origem». O terceiro ano correu melhor. Foi convidado para gravar em Portugal. "Obrigado Portugueses" foi o nome do trabalho. Valeu-lhe o primeiro disco de ouro. Sem ir à televisão. «Não havia Mades in Portugal, nem apoio à música portuguesa». Os dois trabalhos posteriores, "Flor Portuguesa" e "Bate Coração", tiveram igual reconhecimento. «Valeu a pena ter saído do meu país e ter alcançado esses êxitos».

Gozar a velhice na Guarda

Da lista de recordações que tem da Guarda, de onde é natural, - «nascido e criado no Bairro de S.Vicente» – consta o nome de Germano Morais. «Estive na casa dele durante cinco anos», conta. Luís Filipe Antunes Reis «fazia uns recados no escritório» do empresário, que ainda hoje considera como «um homem de muito valor».

Mas nem todas as suas recordações são boas. Uma delas foi quando a mãe o deixou. «A inveja das pessoas, pelo facto de ter nascido de uma família humilde e ter conseguido tudo isto com trabalho e talento», é outra. Luís não concorda com quem pensa que só com dinheiro é que se consegue vencer na vida. «Eu não o consegui com dinheiro», até «porque não o tinha». Daí o ter de emigrar. Paris continua a ser o ponto nevrálgico de Luís Filipe, mas sempre que pode dá uma escapadela até à sua terra natal, onde espera vir a gozar a sua velhice. É de opinião de que a Guarda é uma cidade moderna, mas considera que as grandes mudanças não são de agora. «Depois do 25 de Abril a Guarda subiu dia a dia».

Actualmente, «as pessoas que pertencem à câmara, e as que estão a tomar conta da cidade, estão a fazer por ela aquilo que ela merece».

A carreira de Luís Filipe Reis vai de vento em popa. O seu mais recente trabalho, "Esquece o meu nome", valeu-lhe um disco de platina e os primeiros lugares no top nacional de vendas, designadamente no Made in Portugal. O primeiro da sua longa carreira. «Tenho dez anos de carreira como profissional». Sem falsa modéstia afirma: «Estou no lugar que mereço». Além do «salto qualitativo» que o trabalho apresenta, a introdução de uma banda, coristas, bailarinas e todo o suporte técnico, Luís apostou ainda numa mudança de visual. Uma aposta que o «cantor, autor e compositor» fundamenta com uma certa saturação. «Essa moda da música pimba, que eu nunca soube muito bem o que era, começou a entrar comigo e comecei a não gostar». A partir daí, «mudei de visual e dei também a entender que tenho qualidade para poder fazer outro estilo de música» Isto porque, segundo ele, tanto faz este estilo de música como outro. A propósito de qualidade, conta uma história que aconteceu num espectáculo dado na Suiça, junto da comunidade portuguesa. «Quatro ou cinco pessoas de uma rádio acusaram-nos de estarmos a enganar o povo».

Gabriela Marujo / terras da Beira, 14/05/1998
http://www.freipedro.pt/tb/140598/cult3.htm

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Carla Gamboa


Depois de um período de reflexão
Carla Gamboa de novo na estrada

Nasceu em Sintra há 27 anos, mas por razões pessoais veio viver há ano e meio para o Pinhal Novo, onde tem estado ligada à rádio Popular FM como locutora. Repartindo-se entre a paixão da rádio e a da música, iniciou-se nas cantigas há quatro anos, alcançando a prata logo com o primeiro disco, "Não Sou Sedutora", a que se seguiu "Cores e Raças".
Após um interregno de dois anos e meio na carreira, Carla Gamboa regressa com uma nova atitude, um nova postura que quer cortar com o passado e com as tendências do mercado, apostando na originalidade do seu trabalho e na utilização de músicos a sério, para se lançar "De Novo na Estrada".

Setúbal na Rede - A que se deveu esta pausa na carreira, que é retomada agora com a edição do trabalho "De Novo na Estrada"?
Carla Gamboa - Aconteceu essencialmente porque levei muito estalo enquanto andei na estrada e ouvi muitas coisas que nenhuma mulher com 'M' maiúsculo gosta de ouvir, como chegar ao local de um espectáculo e um responsável da comissão de festas vir perguntar ao meu marido se eu e as duas jovens dos coros também nos despíamos e íamos todas jeitosas para cima do palco. Nesse caso respondemos que se nos tivessem avisado que era isso que queriam teríamos levado duas strip-teasers para se despirem depois do concerto e assim podiam ficar contentes a ver mulheres nuas em cima do palco. Agora a nós, não é para isso que pagam. E depois eu era muito confundida com muitas coisas que por aí andam e isso fez-me sofrer imenso durante os dois anos em que andei na estrada. Então tivemos que parar e pensar bem se era isso que queríamos, se queríamos manter esta linha e entrar dentro do género mais popularucho da música portuguesa só para ganhar dinheiro, ou parar para pensar e optar por não ganhar tanto mas fazer uma coisa que digna e que me desse gosto a cantar para não estar a enganar ninguém. A questão era decidir entre ganhar dinheiro ou ser eu própria e a opção foi por ser eu própria. Foi assim que apareceu agora este "De Novo na Estrada", após dois anos e meio de reflexão.
SR - Quer isso dizer que a carreira da Carla Gamboa começou por essa música mais popularucha?
CG - Não chegou a ser bem popularucho, mas quase, já que eu tinha que entrar pela porta mais fácil e essa era a porta que estava aberta nessa altura, até mesmo para uma editora se dispor a pegar e editar um trabalho. A prova é que agora, com este novo trabalho, nenhuma editora me abriu as portas e nós corremos várias que nos disseram que o trabalho estava muito bonito, está uma produção muito boa, mas que não toca nas feiras. Mas a intenção deste trabalho não é tocar nas feiras, é tocar no coração das pessoas, fazer com que as pessoas oiçam a minha mensagem. Não quero que as pessoas assistam a um espectáculo da Carla Gamboa e no dia a seguir só se lembrem que as bailarinas são boazonas. Eu quero é que as pessoas no dia a seguir digam que a Carla Gamboa tem um espectáculo que vale mesmo a pena.
SR - Mas a Carla Gamboa também quer vender discos?
CG - Para vender discos é necessário, para já, ter uma grande editora por detrás, com um grande jogo de marketing e de publicidade. Não é preciso fazer música a pensar nas feiras, pois o Paulo Gonzo, o Rui Veloso, a Dulce Pontes e os Madredeus também vendem. Não é preciso ser popularucho. Se me tocarem nas feiras, óptimo, fico feliz porque é sinal que as pessoas das feiras também gostam de outro estilo de música. O problema é que as editoras presentemente injectam todo o mercado só com um estilo de música e tudo o que se desvie não convém que saia, porque se pegar vai ser uma grande chatice e vai obrigar a fazer uma viragem e começar tudo de novo. Por isso eu estou muito feliz neste momento porque sou original. Não há mais ninguém a fazer este tipo de música actualmente em Portugal. Este é o meu estilo. Esta sou eu. Depois houve um amigo que abriu uma editora, a Socidisco, e que editou a Carla Gamboa, mas temos um problema, pois sou a primeira artista da editora e como é uma editora que está no início da actividade é praticamente impossível chegar à televisão.
SR - Ao dizer isto a Carla Gamboa evidencia uma certa amargura, não?
CG - Estou muito amargurada, pois uma pessoa leva dois anos e meio a fazer um trabalho com cabeça, tronco e membros, e chega à conclusão que vale a pena em termos pessoais porque vem de dentro, mas para o resto não faz sentido. As editoras não pegam, a televisão não passa. Afinal serviu para quê todo este trabalho?
SR - Para o que está à espera que sirva?
CG - Estou à espera que me levem à televisão para eu desbobinar tudo e meia alguma coisa. Felizmente as rádios estão a passar, estou a dar entrevistas por telefone para rádios de todo o país que nos escrevem e nos ligam a dizer que o disco está muito bom, está diferente e é bom ouvir coisas diferentes.
SR - Este trabalho resulta sobretudo de um investimento pessoal da Carla Gamboa. É sinal de que acredita muito no que faz?
CG - Acima de tudo é preciso gostar muito de cantar e é preciso ter uma coragem muito grande quando não se tem um bom apoio por detrás. É preciso ter alguma lata mas acho que este projecto merece algum destaque, mais que não seja por assinalar um ponto de viragem, por se estar a tentar fazer coisas novas e originais em Portugal, onde até agora eram tudo cópias. Fartei-me de ser uma ovelha atrás do rebanho.

Carla Gamboa SR - Mas este trabalho é diferente em quê?
CG - É diferente nas músicas, é diferente nos poemas, é diferente na interpretação porque são músicos que estão a tocar, é já um trabalho de uma grande envergadura. Mas é um trabalho que está ao alcance de ser feito por qualquer pessoa, basta que se tenha a coragem de dizer que já chega de fazer figura de palhaço a imitar os outros.
SR - Isso é uma crítica implícita à denominada música 'pimba'?
CG - 'Pimba' é a canção do Emanuel. Não estou a querer fugir à pergunta mas acho que há música de boa qualidade e música de má qualidade, e isto é uma crítica a sério à música de má qualidade que se faz neste país. Música de muito má qualidade, sem gosto nenhum, porque metem um órgão a tocar, metem a voz por cima e meia dúzia de coros e o disco está cá fora. Às vezes é o primeiro disco, onde se gastam mil ou dois mil contos, e ainda compram os discos para subirem no top e já são artistas. É mentira. Eu ando nisto há quatro anos e sou uma aprendiz de artista, não sou artista, pois ainda há muito que aprender. Um advogado quando tira o bacharelato está uma série de anos até ser advogado. Ele tem um patrono e tem que estar ali a aprender. Connosco é a mesma coisa. Ninguém pode gravar um disco e dizer que é artista. Então e a Simone de Oliveira? Então e a Amália Rodrigues? O que é que elas são? Agora quanto à música, há boa música e má música e a boa música são os originas. A má música são as cópias, porque uma cópia nunca é, nem de longe nem de perto, igual a um original.
SR - Mas a Carla Gamboa não está livre de no regresso à estrada voltar a ouvir perguntas sobre se se vai despir em palco ou não?
CG - Enquanto isto não der a volta a cem por cento e nós nos mentalizarmos que um artista, ou um aprendiz de artista, quando vai para cima de um palco e é pago para cantar, para dançar e para entreter o público e não para se despir a ele ou às bailarinas, isto vai continuar na barafunda total. E os homens, é claro, querem é ver um bom par de pernas em cima do palco, mas o problema é que ninguém se convence que no dia a seguir ninguém fala do artista mas das pernas das bailarinas. Agora, eu nunca senti a necessidade de me despir em cima do palco e no final dos espectáculos recebo tantos ou mais aplausos que os outros. Não preciso de me despir e sou fiel a mim própria.
SR - Mas a Carla Gamboa em cima do palco é a mesma que fora dele?
CG - Sou, embora haja um cuidado adicional com a maquilhagem e com a roupa. Quando chego a um sitio onde vou actuar, apresento-me da forma mais simples possível, de uma forma natural, porque acho que é mais bonito e melhora a componente do espectáculo chegar depois a cima do palco já produzida. É como a metamorfose da lagarta que depois se transforma em borboleta. Tudo isso faz parte do espectáculo e depende só do tipo que espectáculo que queremos ter. Não critico ninguém, mas gostava era que não nos confundissem uns com os outros e não nos metessem todos no mesmo saco, porque não somos todos iguais. É como aquela grande máxima, "todos diferentes, todos iguais", mas aqui ao contrário, "todos iguais, todos diferentes", porque somos todos artistas, estamos todos no mesmo núcleo, mas cada macaco no seu galho.
SR - Como são então os espectáculos da Carla Gamboa?
CG - Há uma atitude bastante alegre, bastante jovial, bastante roqueira, de miúda, mas com muita alegria porque eu adoro o palco e o palco é a minha vida. Gravo um disco com muito carinho, especialmente este porque senti as letras todas, mas é no palco que eu vibro e sou incapaz de ficar parada. Eu salto, corro de um lado para o outro, meto-me com o público, ponho-os a cantar e pular comigo. Há todo um entrusamento entre mim e o público e isso é muito importante. Os discos gravo-os para chegar ao palco.
SR - Quer dizer que os discos ficam aquém dos concertos?
CG - O meu sonho era gravar um álbum ao vivo, mas não quero é fazer tudo de repente e, sobretudo, não quero dar o passo maior que a perna. Tenho muito medo de rasgar as calças. Isto vai devagarinho, pois eu só tenho 27 anos e tenho tantos anos pela frente, que não preciso de ter pressa nenhuma. Tudo o que tiver que acontecer vai acontecer naturalmente, porque tem que acontecer e porque o público gosta de mim e porque eu gosto essencialmente daquilo que faço. No dia em que deixar de gostar do que faço, acabou a Carla Gamboa.

Pedro Brinca / Setubal Na Rede, 05/10/1998

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domingo, 27 de março de 2011

Ricardo Landum

Serviço completo (artigo de 2000)

RICARDO Landum, 39 anos, moreno, olhos escuros, cabelo semicomprido, estatura média. Para os críticos - e são muitos - da música dita «pimba» (versão «emanuelística de música ligeira), este é o homem a abater. Guitarrista, compositor e produtor, é ele quem escreve as letras, cria as melodias e produz os álbuns de quase todas as estrelas da canção e da cassete popular.

Sim, é ele o culpado pela súbita veia musical que o atinge durante o duche matinal ou no trânsito infernal, ainda que inconscientemente. De repente, não se sabe vindo de onde, lá lhe escapa um verso melodramático de Ágata ou um romântico refrão de faca e alguidar de Mónica Sintra. Ou de Romana, Ruth Marlene, Tony Carreira, Micaela, Tentações, Axel, Tayti.

Sim, foi ele o responsável pela colectiva adoração pró-maternal dos portugueses, que homenagearam a plenos pulmões e meses a fio a «Mãe querida, mãe querida, o melhor que a gente tem…» E também pelo calvário emocional de Mónica Sintra, que ora descobre que «Afinal, havia outra», e uma família, um lar, uma casa e, no fim de contas, ela era apenas o amor das horas vagas; ora apanha o marido na «Minha (sua) cama com ela», ele e outra no seu quarto, perdido nos braços de outra mesmo ao pé do seu retrato.

A Ágata reservou idêntica traição e pô-la a cantar «Sai, sai da minha vida...» (Perfume de Mulher), um romance que acaba inevitavelmente num complicado divórcio, em que a louríssima cantora, numa atitude de completo desapego material, apenas implora pela custódia do filho: «Podes ficar com as jóias, o carro e a casa, mas não fiques com ele. E até as contas do banco e a casa de campo...».

Refugiado no seu estúdio de gravação, na Póvoa de Santa Iria, Ricardo tem dificuldade em explicar o sucesso. Fala constantemente em sorte, instinto, inspiração misteriosa para justificar os quase 200 discos de platina e ouro que já ganhou, quer na Discossete, onde trabalhou cinco anos, quer como produtor independente, desde 1991. Apesar disso poucos portugueses o conhecem. Ricardo não se importa. Tímido, prefere o «conforto do anonimato» que o afasta das luzes da ribalta e da histeria popular. Confessa, no entanto, que, por vezes, esse afastamento deliberado lhe traz alguma frustração, facilmente compensada pelos lucros do ofício. «Podia já viver só dos direitos de autor das canções, mas não me consigo imaginar longe do estúdio, longe da música».

Mas também ele teve a sua quota-parte de fama. Em 1989, na altura em que o Festival da Canção ainda esvaziava as ruas e recheava sofás de olhos e ouvidos pegados no ecrã, Ricardo conquistou, literalmente, Portugal. Como guitarrista dos Da Vinci, subiu ao pódio com a música «Conquistador», composta por ele numa guitarra rosa-choque, e sentiu pela primeira vez o orgulho contido de ver e ouvir o país, transbordante de orgulho histórico, cantar em uníssono «Já fui ao Brasil, Praia e Bissau, Angola, Moçambique, Goa e Macau...».

Músico precoce, aos nove anos já passeava com à-vontade pela escala das guitarras e aos treze encantou-se com os palcos de bailaricos da capital. Os seus gostos musicais, muito pouco ligeiros, em nada indiciavam um futuro no cançonetismo popular. Aliando-se ao «boom» do rock português dos anos 70, integrou os Samurai e os TNT, duas bandas de hard-rock e depois os Ibéria, mais virados para o então radical «heavy-metal».

Ainda sob a alçada familiar queria a todo o custo viver da música e rendeu-se, então, a sons mais comerciais na CBS. Abandonou o «look» metálico, as guitarradas frenéticas e até o nome. Ricardo é, na verdade, Francisco Landum, um baptismo pouco mediático à luz da análise de mercado da editora. «Entre André e Ricardo…». Arrependeu-se. Quer da mudança de nome - até a mulher lhe chama Ricardo , a mãe preserva o «Chico» - quer da experiência musical. «Gravei dois discos de pop pimbalhada, foleiros, que não tinham nada a ver comigo. Parecia o João Pinto com uma camisola do Porto». Fingiu ser um cantor romântico, um Tony Carreira do pop, mas o público deu pela mentira. «O povo não é estúpido». Os Da Vinci salvaram-no.

A entrada para a Discossete marcou a viragem definitiva. «Eu compunha 'heavy-metal' e 'trash', mas paralelamente criava outras melodias mais comerciais. Pediram-me para produzir o álbum de Márcio Ivens e eu, que nunca me tinha visto naquelas andanças, até tive sucesso». Hoje é ele que escolhe os artistas que produz.

Laboralmente egocêntrico e exigente, anda sempre com um bloco onde aponta ideias, chavões, melodias que lhe surgem em qualquer altura e local. «O 'Pisca-Pisca' da Ruth Marlene saiu-me no carro». Mas nem todas as canções surgem do acaso. Antes de começar a escrever e a compor, Ricardo Landum faz questão de conhecer a vida, a voz e as ambições dos artistas. Só depois se transforma, sucessivamente, em mulher traída, homem não correspondido, mãe solteira ou menina que quer ser mulher.

Quando sente saudades do palco, dá uma «perninha» nos concertos das «suas» estrelas, com uma guitarrada suave ou murmúrios de «backing vocal». As do rock sacia-as na aparelhagem onde Garbage, Prodigy e Massive Attack têm passagem assegurada. É que não há amor como o primeiro.

Raquel Moleiro / Expresso, 15/04/2000

Não tem nome de faz-tudo, mas é como se o ostentasse como a uma bandeira. A mais aligeirada da música ligeira é o reino de Ricardo

terça-feira, 8 de março de 2011

Luis Manuel

Luís Manuel comemora vinte anos de carreira junto das comunidades

Luís Manuel é natural de Ferreira do Alentejo, distrito de Beja, e muito novo emigrou com os seus pais para o Luxemburgo. Aos vinte anos de idade formou o grupo musical "Os Apolos", para 8 anos mais tarde ser convidado a gravar o seu primeiro trabalho a solo. Na sua carreira já foi premiado com dois discos de Ouro, dois de Prata e um de Platina.

Gazeta Lusófona - Faz-nos uma retrospectiva sobre os teus vinte anos de carreira?
Luís Manuel - Devo dizer que são vinte anos de estrada, vinte anos de gravações, vinte anos de produção e, essencialmente, vinte anos a gravar músicas para todo o género de público. Como tal, foram muito positivos. É um marco na minha carreira que não se comemora todos os dias. Estamos a preparar uma tournée que irá abranger as comunidades portuguesas de França, Suíça, Bélgica, Luxemburgo e Alemanha.

GL - Qual foi o momento mais alto nestes vinte anos de carreira?
LM - O momento que mais me marcou foi quando recebi o meu primeiro disco de prata. Depois desse, recebi dois de ouro e um de platina. No entanto, devo reconhecer que o primeiro deixou uma marca muito especial.

GL - É difícil para ti conseguir as canções para os teus trabalhos?
LM - Não é muito difícil porque eu já tenho um nome bem implantado no mercado. Eu tenho bons compositores a escreverem para mim. Depois, eu também componho temas e já fui músico. Fui baterista e toco guitarra. Ou seja, não dependo necessariamente de terceiros. No entanto, existem sempre talentos que compõem boas músicas, como o Ricardo Landon e o José Félix.

GL - Há uns tempos atrás o termo “Pimba” era muito falado e comentado. Que é que tens a dizer sobre isto?
LM - É como em tudo na vida. A música não foge à regra. Aproveitaram o sucesso do Emanuel para o chamado “Jet Set”, que antes chamava às músicas que não gostavam de “pirosas”, para passarem a chamar de “Pimba”…

GL - Afecta-te de alguma maneira se chamarem à tua música de “Pimba”?
LM - Não. Cada um ouve o que quer. Mas aquilo que eu sei é que se organizarem dois espectáculos, um de música clássica com o maestro Vitorino de Almeida e outro com um Roberto Leal, por exemplo, para não mencionar outro, eu tenho quase a certeza que o maior sucesso é o concerto do Roberto Leal e não o do maestro. E depois não se trata de música “Pimba”, mas sim de música ligeira portuguesa que tem o seu espaço e o seu público. Isto é que é a grande verdade… Vejam quem participa no Natal dos Hospitais? O maior número é artistas da música ligeira portuguesa. São eles que muitas vezes dão a cara para muitos espectáculos de beneficência e não só.

GL - Como é que estamos com novos temas? E ainda sentes que tens inspiração para compor?
LM - Existem sempre momentos especiais nos quais nos sentimos bem para compor e aí sai sempre algo, que depois pode ser do agrado do público ou não. Mas uma pessoa sente o que as pessoas desejam ouvir e sentir. Depois, tudo é a sequência de continuar a ter espectáculos e os meus cd’s continuarem a vender. E a prova disso é o meu último trabalho “Loucuras de amor”, estar a vender muito bem. Por exemplo, hoje estou aqui, amanhã, domingo, pela tarde vou estar na Anadia e à noite em Pombal. Ou seja, é o reconhecimento dos longos anos de carreira. A música popular portuguesa está no bom caminho, como é o caso do Tony Carreira.

GL - É importante para vocês este contacto com as comunidades?
LM - Olha, eu sou capaz de dar uma importância maior porque eu senti na pele o que é ser emigrante. A maior parte da minha vida vivi no Luxemburgo, onde estive 18 anos e depois vivi 8 anos em França na maravilhosa cidade que é Paris. Bem há pouco tempo é que me radiquei em Portugal. Portanto, eu sei o que é viver fora. Por exemplo, no mês de Outubro, todos os fins-de-semana tive espectáculos na Suíça. Um artista sente um carinho especial quando actua para estes portugueses que labutam fora da sua terra e sentem como ninguém a palavra saudade. O convívio e a amizade são valores que só os emigrantes sabem valorizar e interpretar.

Gazeta Lusófona, 29/11/2005

sábado, 19 de fevereiro de 2011

As Delycias


Delycias são uma girls band portuguesa, formada por duas jovens com quatro álbuns gravados, centena de espectáculos por todo o país e estrangeiro.

É no palco que as Delycias se destacam pela sua postura, versatilidade, energia, cor e movimento. Um espectáculo muito alegre para animar a vossa festa!


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Zé Cabra

É tão mau, tão mau que até parece bom

O JN falou com o cançonetista do momento. Zé Cabra vende 10 mil discos, ainda que admita «não saber cantar»...

É o homem de quem se fala: Casimiro Afonso, ou melhor, Zé Cabra, é a mais recente ilustre personagem que, da noite para o dia, saltou do anonimato para o estrelato neste país de Zés Marias e Manueis Subtis. Ora, o que terá de especial este Zé Cabra? Muito simples: canta. Ou melhor, da sua boca soltam-se uns gemidos e umas frases_, não canta, portanto. E isso é bom ou mau? É mau, claro, mas o mau, aqui, neste rectângulo chamado Portugal, também pode, pelos vistos, representar o contrário disso mesmo _ pode ser bom. Confusos?

O António

«Isto é o fenómeno da arte de mal cantar» _ quem o diz é António, uma espécie de mistura híbrida de empresário, «manager» e representante do artista. O JN acompanhou um ensaio de Zé Cabra nos estúdios da sua editora _ a Espacial _, e tentou, dentro do possível, tentar compreender o fenómeno. Rodeada por paredes repletas de discos de ouro e platina atribuídos a artistas do calibre de Tony Carreira, Bruna e Liliana, Tentações, Toy e Ágata, a reportagem do JN ia aguardando a chegada da grande figura enquanto ouvia as explicações de António, o homem que exige rigidez e disciplina em fase de pré-digressão, na qual cobrará 800 contos por espectáculo: «Não me interessa nada que ele consiga afinar ou cantar melhor. A minha única preocupação é que ele se esqueça das letras. Vai ter um concerto daqui a três dias e ainda não consegui meter-lhe as letras na cabeça».

Ciente da realidade, António não tem problemas em afirmar: «É inegável que ele não tem talento. Ao nível da interpretação aquilo é muito mau. Mas ainda ontem estive a ouvir aquela merda (refere-se ao disco) e reparei que até existem partes em que ele, apesar de não estar afinado, consegue entrar no tom da música. Não sei explicar!». Entretanto, entra em cena Francisco José, um dos gerentes da editora Espacial. Mete-se logo na conversa; e, do alto da sua sapiência, declara: «Já vendeu dez mil discos. Só ele é que é capaz de cantar assim; ninguém vai conseguir imita-lo». Atento, António, não deixa escapar a oportunidade para, quase em segredo, confessar: «Bem, eu acho que era capaz de cantar ainda pior do que ele...».

A azeitona

É então chega o grande homem, Zé Cabra. Primeira impressão: é tímido e um tipo simples. Nota-se que ainda não está habituado a situações de entrevistas. Mais: Zé Cabra parece estar nervoso nos primeiros minutos da conversa. Mas diz: «Canto desde muito novo. Lembro-me que cantava músicas do Roberto Leal enquanto andava a apanhar azeitona pelos campos na minha aldeia, em Gralhós, perto de Macedo de Cavaleiros. A gente tinha que se distrair com alguma coisa...».

Depois disso, com 15 anos, mandou-se para França: «Era suposto ter ido de férias, mas acabei por lá ficar». Hoje, vive-se um período de paradeiro incerto: «A minha família está lá. Eu vim para cá porque o povo português me chamou». E, qual candidato às eleições presidenciais, lança, pela primeira vez, a afirmação que repetirá vezes sem conta ao longo da conversa: «Estou aqui ao serviço do povo português e enquanto o povo português quiser».

Zé Cabra, pintor na construção civil em França, 35 anos, signo gémeos. É um homem lúcido, consciente da realidade. E não hesita ao admitir: «Sei que canto mal e é verdade que me engano e me esqueço das letras. Vou começar a dar espectáculos agora e estou preparado para enfrentar o povo; mas as pessoas têm que compreender os meus erros. Errar é humano». Pois: herrar é umano. É claro que um cantor deste calibre só podia ser de um clube: o Benfica. Ao mesmo tempo que o confessa, parece profetizar futuros breves: «Nem que ele vá parar à segunda divisão. Eu serei sempre benfiquista!».

As mulheres

O seu ídolo é Tony Carreira. Sonha em fazer um dueto com ele no Olympia de Paris. Até lá vai assistindo ao fenómeno crescente da fama: «Tenho dado muitos autógrafos. Já não passo despercebido na rua». E, já agora, qual foi o maior elogio que recebeu até hoje? «Foi quando entrei num avião da TAP e duas hospedeiras disseram-me que já me tinha visto na televisão», afirma.

Zé Cabra, cantor romântico. Todas as canções de «Deixei tudo por ela», o álbum, navegam tumultuosamente em águas de romantismo; há ali, sempre, uma «ela». E, se, por ventura, o traço romântico das suas letras despedaçar corações por esse país fora? Zé Cabra, homem casado, é firme na sua posição: «Não vou misturar a minha vida de cantor com a minha vida privada».

Zé Cabra decide ir para o estúdio. Ei-lo em grande estilo: o botim afiado, o casaco de couro negro com os colarinhos ligeiramente levantados, o cinto das calças exibindo imponente fivela. Coloca os auscultadores e começa o ensaio. Atrás de um vidro, o técnico da mesa arranca com o playback instrumental. Zé Cabra ondula, ergue os dedos, baila _, e canta. Canta? Enfim: o JN esforça-se para assistir a tudo isto com o ar mais sério e profissional do mundo. Até que, já cá fora, entre um cigarro e umas confissões, Zé Cabra profere a verdade maior de toda a entrevista: «O disco fecha com a canção «Não troco as portuguesas» por uma razão muito simples: as portuguesas são as mulheres mais bonitas do Mundo».

CRISTIANO PEREIRA / Jornal de Notícias, 31/03/2001
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ágata - Um «cocktail» doce


Ágata percorre o país a cantar: «Sou mãe solteira e de mim tenham dó...»

QUEM não conhece nenhum cantor de música ligeira portuguesa de certeza que já ouviu falar pelo menos de Ágata. No mundo da música «pimba» é uma verdadeira estrela. A canção «Perfume de Mulher» («Sai, sai da minha vida») esteve, em 1995, mais de 52 semanas no «top» e o disco atingiu vendas superiores a 300 mil exemplares. A «sitcom» com Rita Blanco e Miguel Guilherme, transmitida pela SIC, «Sai da Minha Vida», inspirou-se no tema. E o genérico arrancava com a voz de Ágata.

Mas a artista, de verdadeiro nome Maria Fernanda de Sousa, não apareceu de repente, de lado nenhum. Tem um verdadeiro currículo, ao contrário das jovens que agora atingem o estrelato e os «tops» aos 18 anos.

Nasceu numa família humilde, em Lisboa, a 11 de Novembro de 1959, e percorreu um grande caminho até chegar a ser o que hoje é: um nome que vende milhares de discos e que tem uma agência promotora de artistas da música ligeira. A sua biografia oficial revela que aos dois anos de idade já cantarolava ao som do banjo. Aos 15 anos grava o primeiro disco e entra para o centro de preparação de artistas da Emissora Nacional, onde frequenta durante alguns anos o curso de música e arte. Um ano depois grava o segundo disco. Faz a voz da Abelha Maia e canta o tema principal destes desenhos animados.

Aos 18 anos ingressa no trio feminino Cocktail e permanece no grupo durante dez anos, enquanto sonha com uma carreira a solo. Em 1985 entra para as Doce, o grupo feminino onde se tornaram famosas Laura Diogo e Fernanda Padinha.

No entanto, o sucesso só viria depois de optar pelo nome de Ágata e de tomar nas próprias mãos o destino profissional. Liberta-se do grupo e grava os discos Quentinha e Boa, (1987), Amor Latino (1989) e Louca por Ti (1991).





Começava a tornar-se a loura explosiva que aparece nas capas de revistas do coração. As letras das músicas falam da sua vida. «Sou mãe solteira e de mim tenham dó...». É uma cantora popular e romântica. E a biografia reza que «é uma mulher sonhadora e apaixonada, que apesar de ter sofrido a dor da traição e da condição de mãe solteira, tem continuado a sonhar». O ponto de viragem dá-se em 1995, precisamente com o êxito «Perfume de Mulher», tema escrito por Ricardo Landum. A carreira e a vida seguem juntas. Desde então, começa a acumular discos de platina. Ágata percorre o país de lés a lés para estar perto das multidões de fãs, a quem dedica o nascimento do seu segundo filho, Francisco.

T.M., Expresso, 03/07/1998

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ricardo Landum - Um duro na música Light

Tem 44 anos de idade e 25 dedicados de alma e coração à música. Começou no rock e acabou por se tornar no autor mais requisitado da área da "música light" - expressão que inventou para designar as suas canções. O grande público não o conhece, mas sabe de cor muitas das suas canções. Chama-se Francisco Landum, mas no meio da música todos o conhecem apenas por Ricardo.

Autores - Como é que o devo tratar? Francisco Landum, Ricardo, Ricardo Landum?
Ricardo - Neste caso talvez seja melhor tratar-me por Ricardo, que foi o nome que eu adoptei como compositor e como autor, e é como a maioria das pessoas hoje me conhece. Claro que a minha mãe, por exemplo, trata-me por Francisco, mas quase toda a gente hoje me trata por Ricardo...

A - Mas nem sempre foi assim, mesmo no meio da música. Como é que nasceu o Ricardo?
R - O Ricardo surgiu em princípios dos anos 80, nos tempos áureos do rock português. Eu tinha um grupo, os TNT...

A - ...que foi uma banda de algum sucesso, na altura...
R - Sim, foi. Na altura também havia ainda poucas bandas de rock, depois é que se deu aquele "boom". Entretanto os TNT acabaram e eu quis fazer uma carreira a solo. E fui para a CBS, que tinha acabado de se instalar em Portugal. Fui dos primeiros artistas a assinar contrato com a CBS - acho que fui o segundo, o primeiro foi o José Malhoa - mas eles não gostaram muito do meu nome, acharam que não era muito comercial... E, como na altura havia alguns nomes da moda, por causa das novelas brasileiras, eles propuseram-me dois nomes para escolher: Ricardo e André. E eu escolhi Ricardo...

A - E começou aí a sua carreira a solo...
R - A partir daí, gravei dois discos, que tiveram algum impacto na altura, comecei a trabalhar em estúdio, e o pessoal todo começou a chamar-me Ricardo para aqui, Ricardo para ali, e fiquei a ser o Ricardo. E agora vivo com uma "dupla identidade": sou o Francisco, para os mais antigos, e o Ricardo para todos os que me conheceram depois disso...

A - Também teve uma passagem pelos Da Vinci...
R - Uma passagem que durou oito anos, e onde eu tive um dos meus maiores êxitos, com o "Conquistador", uma música que ainda hoje é conhecida.

A - O Ricardo, entretanto, abandonou os palcos...
R - Sim, só faço de vez em quando uma brincadeira, como quando o Tony Carreira foi ao Pavilhão Atlântico. Mas é muito raro, pode dizer-se que abandonei mesmo os palcos...

A - ... e tornou-se essencialmente autor, compositor e produtor, com uma carreira cheia de êxitos...
R - É verdade. A partir de certa altura, passei a dedicar- me de alma e coração só à composição e à produção. Achei sobretudo que queria ter uma vida mais ligada ao "backstage" do que propriamente ao palco. O palco dá gozo, mas é uma coisa "dolorosa", anda-se sempre a viajar, os verões são sempre passados dum lado para o outro... E não há condições em Portugal como há lá fora: nós, cá, temos uma banda e não temos um jacto privado, temos uma carrinha, as coisas muitas vezes são mal organizadas... E eu achei que gostava de ter uma vida mais sedentária, de estar aqui sentado e a escrever coisas. Achei que talvez fosse mais interessante...

A - E também tem menos exposição pública...
R - Também. E eu sou bastante tímido, não gosto de me ver na televisão, prefiro estar mais recatado, ter a minha privacidade. Mas nem foi por isso, porque em Portugal as coisas não são como nos Estados Unidos, onde há artistas que não podem sair à rua sem serem assaltados pelos fãs. Foi só porque queria ter uma vida mais calma, menos agitada. E então optei pelo trabalho de estúdio.

A - E, no seu caso, como é viver apenas dos direitos de autor? Normalmente não é fácil...
R - Não, não é nada fácil. Eu tenho colegas, bons autores, que se vêem aflitos para viver - a maior parte deles sobrevive. Mas eu considero que vivo bem dos direitos de autor. E porquê? Porque faço milhentas canções, e tenho a sorte de ser um autor completo, faço as músicas e as letras. E, depois, também tenho a sorte de ser um autor muito fértil, em termos de trabalho: praticamente não passo um dia sem fazer uma canção, tenho centenas de cassetes com originais. E como faço muito e edito muito, aí a balança já se equilibra e posso perfeitamente viver dos direitos de autor. Mas porque faço muita coisa...

A - Ou seja, não basta ter talento, é preciso muito trabalho também...
R - É. E é preciso haver trabalho, é preciso haver escoamento para aquilo que se faz. Eu tenho sorte, edito centenas de músicas anualmente. E trabalho com um leque de artistas que vende bastante.

A - A opção por um tipo de música mais ligeira - "música light", como já o ouvi dizer - foi deliberada? Foi porque, comercialmente, é mais rentável?
R - Não, foi uma coisa que aconteceu, naturalmente. Eu, na altura, estava desempregado e aquilo, nos TNT, não dava nada, era difícil viver daquilo. Eu sou músico profissional porque optei por isso, queria acordar de manhã satisfeito por ir trabalhar, era a única maneira de ser feliz. Eu acho que o grande problema da nossa sociedade é que, muitas vezes, as pessoas não estão a fazer aquilo de que gostam - e por isso é que há maus funcionários, maus profissionais... E, então, comigo as coisas aconteceram naturalmente: começaram a aparecer coisas para fazer, encontrei uma editora que apostou em mim e que estava muito ligada à música ligeira, eu achei que tinha jeito para aquilo, as coisas começaram a funcionar, comecei a vender carradas de discos e, naturalmente, fiquei naquele sector. Não quer dizer que eu tenha esquecido o rock, e ainda agora acabei de fazer uma produção de um disco de rock. Mas, pronto, foi mais para aquele lado que eu fui, foi ali que me especializei, e funciona.

A - O Ricardo é um bom ouvinte de música?
R - Sou. Ouço muita música, e ouço de todo o tipo.

A - Não tem géneros específicos a que se sinta mais ligado?
R - Não, não tenho. Eu acho que não há coisa maior do que o universo dos nossos sentimentos, que é infinito. A gente tem que abrir o coração a tudo. E, portanto, quando uma música me diz alguma coisa, para mim é muito bom. Seja country music, seja clássica, seja rap, seja fado, seja rock, seja o que for.

A - O Ricardo também tem fama de ser muito exigente, a nível profissional...
R - Sou terrivelmente exigente...

A - Consigo próprio também?
R - Em primeiro lugar sou exigente comigo. Aliás, eu costumo dizer aos meus amigos que tenho um caixote do lixo enorme lá em casa: a primeira pessoa a reprovar uma música que eu faço, sou eu, e por isso mando muita coisa para o caixote do lixo. Enquanto eu não gostar, enquanto uma coisa não me fizer vibrar a mim, não pode fazer vibrar mais ninguém. Sou muito exigente. E no estúdio é a mesma coisa: se um artista não me faz vibrar, se não me põe aos pulos... Eu estou numa indústria de discos, não posso fazer discos só para os amigos.

A - Das milhares de canções que já fez, e das centenas de discos em que já participou, como autor ou como produtor, há algum que seja mesmo o disco da sua vida?
R - Olhe, vou dizer um cliché, mas é mesmo assim: o meu melhor disco é aquele que ainda não fiz. Há um disco que eu quero fazer um dia, que é o meu disco: comigo a cantar, a fazer as burrices todas, e também as coisas boas. Esse disco ainda não foi feito, nem sei quando é que o vou fazer...

A - E será mais na linha das coisas que faz ultimamente, ou mais virado para o rock que fazia há vinte anos?
R - Talvez seja mais na linha do rock que já fiz. Porque eu não sou um cantor de música ligeira. Consigo fazer boas canções de música ligeira - ou, pelo menos, funcionais - mas não as consigo interpretar. Acho que nunca seria um bom cantor de música ligeira.

A - O que é mais difícil para si: criar as canções ou produzir discos?
R - A criação é sempre o mais difícil. Porque eu posso produzir as minhas canções melhor do que outro produtor - porque não são dele - mas a verdade é que elas poderiam ser produzidas por outra pessoa. Agora, o trabalho de criação é muito complicado. Produzir um disco, com mais botão, menos botão, é uma coisa que se consegue fazer mais facilmente, agora a criação é "lixada": quantas vezes a gente não passa dias e dias às voltas com uma frase. Quando não há aquele clic... E isso é inexplicável. Às vezes, nas poucas entrevistas que eu dou, há jornalistas que me perguntam qual é "a fórmula". É uma pergunta que não faz sentido, porque a verdade é que não há nenhuma fórmula! Se houvesse uma, toda gente a tinha, e eu nem precisava de estar aqui a trabalhar: ficava em casa, pegava no telefone, e dava uma fórmula para a Ágata, outra para a Romana, outra para o Tony Carreira... Isto não é assim, a arte tem a ver com as emoções, com a inspiração. Há dias em que sou capaz de fazer duas ou três canções espectaculares, e depois sou capaz de ficar um mês ou dois em que não aparece nada. Agora, se me perguntarem se há esquemas que nós usamos para a música ligeira, claro que há, como há para o rock, ou para o hip-hop. Mas, se não houver inspiração, só o esquema em si não chega. Há coisas que não são palpáveis, não se explicam, têm a ver com o coração, com o espírito...

A - O Ricardo é uma pessoa muito ligada às questões emocionais?
R - Sou, mas também sou materialista. Só que sou uma pessoa consciente de que não devo ser tão materialista. E por isso estou sempre a tentar cortar na parte material para me ligar mais à parte emocional. Quando escrevo, por exemplo, nunca estou a pensar se a canção vai ser um êxito, se vai vender muito. A primeira coisa que eu sinto é a alegria de ter conseguido uma frase boa, ou um refrão, ou uma melodia. O resto vem depois.

A - Hoje, o mercado da música, debate-se com vários problemas, nomeadamente um que ganhou uma maior dimensão com as novas tecnologias: a pirataria.
R - Esse é um problema terrível, mas tem muito a ver com outros. Eu acho que os nossos governos não são muito amigos da cultura. E ainda menos quando se trata de música. Os que mandam pensam que os músicos são ricos, acham que a música é "o primo rico" e que, por isso, não precisa do IVA reduzido, como é para os livros, não precisa de subsídios, como o cinema ou o teatro... Se os discos tivessem a mesma taxa de IVA dos livros, chegavam mais baratos ao público, e logo aí acho que a pirataria ia cair um bom bocado. Depois, se a aplicação das leis fosse mais eficaz, se de cada vez que um pirata é apanhado ele não fosse libertado logo a seguir, acho que se conseguia reduzir grandemente esse problema. Porque pirataria há em toda a parte, mas não é tão grave como nos países do Terceiro Mundo - e o nosso país, sobretudo em termos culturais, é completamente terceiro-mundista...

A - A cultura é vista como um "parente pobre", e a propriedade intelectual também não é muito valorizada pela generalidade das pessoas. E ainda há muito quem pense que isto de escrever ou fazer música não é propriamente um trabalho...
R - As pessoas confundem muito as coisas, acham que isto é tudo muito fácil e que vivemos todos num mar de rosas. E os governantes entendem que a música, nomeadamente a ligeira, é uma indústria, e consequentemente que rende muito dinheiro. E por isso preocupam-se pouco com questões como a da pirataria, que está a minar o mercado e a dar cabo da vida dos compositores e dos editores...

A - O Ricardo sente-se bem como português, ou às vezes gostaria de ter nascido noutro país?
R - Não, isso não. Se eu tivesse nascido noutro sítio nunca teria a experiência do que é ser português. E eu gosto dessa experiência, para o bem e para o mal. Na próxima vida que eu vier a ter - porque eu acredito que há outra vida depois da morte - talvez já seja americano, ou iraquiano, ou outra coisa qualquer. Mas não, não gostava de ter nascido noutro país. Porque, no fundo, nós dizemos mal de Portugal, mas, bolas, ser português é muito bom. Nós somos um povo único no mundo! Somos tão únicos que até temos uma palavra que mais ninguém tem, que é a "saudade". E podíamos ser um país espectacular. É pena é as "ervas daninhas" que há por aí e que fazem com que a gente nunca mais saia desta pequena "cepa torta"...

A - E temos um problema nacional acentuado, que é a inveja...
R - Pois. Quando alguém consegue fazer alguma coisa e destacar-se numa ou noutra área, há logo quem comece a fazer tudo para o deitar abaixo.

A - O Ricardo não sofre desse mal, convive bem com o sucesso dos outros?
R - Bem, eu também sou português, não é? E, às vezes, também sou capaz de ficar com alguma dor de cotovelo se um colega consegue um êxito e eu não. Mas tento não ser invejoso, não gosto nada de sentir inveja.

Viriato Teles / Revista Autores, SPA, Out-Dez 2005

DE RICARDO A FRANCISCO

Francisco Landum é o seu nome de baptismo, mas no meio artístico é sobretudo conhecido como Ricardo, pseudónimo que utiliza desde há cerca de vinte anos e com o qual assinou alguns dos maiores êxitos de Ágata, Tony Carreira, Ruth Marlene, Romana, Chiquita e muitos, muitos mais. Criador de "música light" (a expressão é dele, que não gosta do apodo de "música pimba" com que as suas canções são frequentemente rotuladas) são dele alguns temas que, de um dia para outro, passaram a andar na boca, e sobretudo no ouvido, de quase toda a gente: "Afinal Havia Outra", "Comunhão de Bens", "Depois de Ti Mais Nada", "Coisinha Sexy", "Mãe Querida, Mãe Querida" ou "Já Não Sou Bebé" são alguns dos mais conhecidos temas que criou e gravou ou deu a gravar. É também autor do tema que se tornou imagem de marca dos Da Vinci, "Conquistador", que representou Portugal num festival da Eurovisão. Ao todo são mais de mil e quinhentas canções, que fazem dele um dos autores mais requisitados na sua área musical.

Mas Ricardo (ou Francisco Landum, se preferirem) nem sempre se movimentou nas águas da "música light": começou com o rock, através dos TNT, e além da já referida passagem pelos Da Vinci, esteve ainda nos Samurai e nos Ibéria (uma banda de heavy metal , um pouco na linha dos Metallica, que tem algum sucesso) e em meados dos anos 80 estreou-se a solo com o disco "Coração Latino", editado pela CBS, e que marcou a estreia do pseudónimo por que hoje é conhecido.

Actualmente é produtor, dos mais requisitados na sua área, mas não esqueceu as origens, e promete voltar, um dia destes, com um disco próprio. Afastado dos palcos por vontade própria, sente-se bem a fazer o que faz porque entende que "a música ligeira é uma música de emoções primárias" e ele considera-se um homem aberto a todas as emoções. Operário da música, nem por isso deixa de considerar que a sua é uma arte tão respeitável como qualquer outra. Diz ser um homem de sorte, porque conseguiu ter na vida a profissão que sempre quis. E não está nada arrependido.

Viriato Teles / Revista Autores, SPA

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dulce Guimarães





Dulce Guimarães e staff.

Foros: Singra, Caixa de Música, net

http://www.dulceguimaraes.com/

Numa curta passagem por Toronto, a artista revelou-nos um pouco sobre a sua carreira, ambições futuras e a vontade de conquistar o coração dos imigrantes lusos no Canadá

Dulce Guimarães estreou-se nos palcos em Setembro de 1978 como actriz de revista. Fez parte duma "fornada" que tornou conhecidos nomes como Carlos Cunha, Carlos Areia, Fernando Mendes e Camacho Costa e durante cerca de treze anos integrou o elenco de várias revistas e comédias nacionais de renome.

Do seu currículo artístico constam duas telenovelas, imensas peças de teatro – onde contracenou com nomes sonantes do espectáculo, como Raul Solnado e Ivone Silva – um programa de rádio e, desde 1990, vários CDs gravados como cantora.

Com uma carreira artística reconhecida em Portugal e pelas comunidades portuguesas em vários outros países, Dulce Guimarães gostaria agora de "invadir" o mercado canadiano e conquistar o público luso-descendente.

Para isso, apresenta um espectáculo que define como alegre e dinâmico, onde a comunicação e a interacção com o público são pontos-chave.

 
Esteve entre nós recentemente para fazer o seu primeiro espectáculo neste país, onde actuou no Centro Cultural Português de Mississauga.

Vejamos o que tem para nos contar à cerca da sua carreira, ambições futuras e sobre esta passagem pela comunidade portuguesa.

Sol Português – Iniciou-se no mundo artístico em 1978 no teatro e conta já com uma carreira com mais de 30 anos durante os quais tem passado por várias experiências. Como é que a Dulce Guimarães se define a si própria?

Dulce Guimarães – Numa palavra, eu definir-me-ia como uma comunicadora. Eu estreei-me no teatro e não nas cantigas. Dentro do teatro fiz teatro de revista e comédia. Tive a sorte de ainda trabalhar com os grandes: a Laura Alves, o Paulo Renato, a Ivone Silva e muitos, muitos outros. Foi uma aprendizagem tremenda para mim, que hoje me serve muito no palco – porque no teatro aprende-se a linguagem das tábuas, a linguagem da comunicação com o público.

Fiz telenovelas quando elas começaram, a segunda e a terceira – a primeira foi a "Vila Faia", onde eu não entrei, e depois as outras foram a "Origens" e a "Passerelle". Fiz cinema e rádio. Fui locutora da Rádio Renascença durante dois anos e foi uma experiência apaixonante.

Até que houve uma altura em que eu decidi que... eu costumo dizer que não fui eu que deixei o teatro, foi o teatro que nos deixou a todos nós, actores. Quando eu me iniciei, o Parque Mayer tinha quatro teatros em força a trabalhar: o Variedades, o ABC, do Sérgio de Azevedo, o Maria Vitória e o Capitólio. Sempre todos com peças em cena – mais o Monumental no Saldanha, mais o Vilaret... Todos trabalhavam. E não tinha um dia de férias. Nunca tive, durante 14 anos, porque eu estava a fazer uma peça mas à tarde já estava a ensaiar a outra, que entretanto estreava. Eu não chegava a parar de uma para a outra.

Quando o teatro me deixou – como eu costumo dizer – o Sérgio de Azevedo já tinha deixado de ser empresário; o Vasco Morgado já tinha falecido. As coisas ficaram nas mãos do filho dele – e de todo não era a mesma coisa, ainda que o nome fosse o mesmo – e não havia praticamente teatro para fazer.

Eu decidi então que era tempo de deixar o teatro. O teatro não tinha evoluído da mesma forma que o nosso país evoluiu. Digamos que se o nosso país evoluiu a cem, o teatro "desevoluiu" a cem. Estagnou.

Veio então um convite da Vidisco para gravar o meu primeiro disco – porque na revista há que saber representar mas também há que saber cantar e eu já [nessa altura] cantava.

Eu tinha feito um programa na televisão com o Carlos Paião, que nessa altura tinha falecido há três ou quatro anos e de quem eu mantinha muita saudade. Resolvi que, para gravar um disco eu queria fazer uma coisa diferente, que era pegar em alguns temas do Carlos Paião, fazer uma escolha, e transformá-los em fado.

O som da guitarra, no meu cérebro, está automaticamente ligado à saudade e à nostalgia e o que eu sentia do Carlos era exactamente isso.

Este disco foi um sucesso, foi logo disco de ouro muito rapidamente – isto passa-se em 1990 – e logo a seguir peguei em temas estrangeiros e fiz o mesmo exercício: trazê-los para a guitarra portuguesa.

Isso não passa a ser fado, obviamente, porque o "Ansiedade" do Nat King Cole ou temas do Alcione não passam a ser fado pelo facto de estarem acompanhados à guitarra. Mas foi um trabalho bonito, de pesquisa e triagem das músicas, das que seriam ou não possíveis de adaptar para a guitarra.

A partir de 1990 para cá... cantigas, cantigas, cantigas... sempre cantigas, com o tal acréscimo da comunicação, que me ficou da rádio, do teatro, essencialmente do teatro – eu fiz uma peça em que estive dois anos em cena com o Raul Solnado e onde aprendi muito, porque ao lado daquele homem aprende-se muito, tal como aprendi muito com a Ivone Silva.

Hoje para mim o espectáculo, mais do que o desfiar de 14, 15 ou 16 cantigas, é aquilo que há entre elas, que é a comunicação constante necessária para mim com a plateia. Eu não gosto de ter pessoas a assistir ao meu espectáculo, eu gosto de ter pessoas a interagir comigo durante o meu espectáculo.

SP – Passou pelo teatro, pela televisão, pela rádio e pela música. Há alguma destas áreas pela qual tenha preferência? Hoje, que está mais dedicada à música, se a convidassem para voltar ao teatro aceitaria?

DG – Só não aceitaria porque o teatro é incompatível com as canções. Quando uma peça estreia nós temos de estar lá todas as noites e, portanto, eu não posso dizer "olhem meus amigos, desculpem mas no dia tal eu não posso ir porque tenho um espectáculo".

Como não podia compatibilizar, não aceitaria. Não porque não tenha muitas saudades – fui agora à estreia do Maria Vitória, onde estreou a semana passada uma revista com a Florbela Queiroz, que voltou aos palcos, e eu estou a assistir e estou com vontade de ir lá, mas...

SP _ ... mas a música está na sua prioridade em termos profissionais...

DG – Está sim, logo a seguir ao meu filho que essa é a minha primeira prioridade.

SP – No mundo da música desde 1990, como é que considera que evoluíram estes seus 20 anos de carreira em termos de estilo musical, visto que começou com um estilo mais saudoso e melancólico e hoje em dia apresenta um espectáculo muito mais animado e virado para o público?

DG – A passagem deu-se de acordo com uma análise do que é mais importante para o artista, [ou seja,] trabalhar não para mim, fazendo aquilo que eu mais gostaria, mas trabalhando essencialmente a pensar no público que eu tenho à minha frente.

Aquele target, aquele público alvo, o que é que gosta? Gosta mais de "baladinhas" e coisas do género ou aquela alegria que eu transmito? Então se eu vou sentindo que é a alegria que eu transmito que melhor lhes sabe e que mais se adapta ao público para quem eu estou a trabalhar... eu fui formatando a minha carreira, não de acordo com o meu gosto pessoal, mas de acordo com o público para quem trabalho.

SP – Visto que a Dulce Guimarães, apesar de ter uma carreira de sucesso em Portugal e em vários países, não é ainda conhecida no Canadá, pode-nos definir como é o espectáculo que neste momento apresenta ao público?

DG – Primeiro deixe-me falar um pouco sobre o fenómeno do Canadá não me conhecer. Eu há pouco tempo disse isso ao Jorge Gabriel, que é meu amigo do peito e de clube do futebol – dois sofredores do Sporting (risos).

Desde 1990 que eu corro o mundo, e quando estou a falar do mundo estou a falar da Austrália – já lá fui cantar umas sete vezes – da Venezuela, África do Sul, Estados Unidos (tanto na costa leste como na costa oeste) e realmente o Canadá era o meu calcanhar de Aquiles.

Não sei porquê, e só pode ter sido por acaso, nunca acontecia. Eu ia ao Luxemburgo, a França, Alemanha, Austrália, África do Sul... mas ao Canadá, nunca. Talvez por falta de contactos, não sei. Por alguma razão foi assim durante estes 20 anos.

Na minha opinião, o meu espectáculo pode-se definir como muito alegre, muito belo e muito dinâmico. Basicamente é isto. Ensaios muito rigorosos, porque eu não gosto de ter, como costumo dizer, "abanadeiras", que são as bailarinas que não dançam e só se abanam, porque isso todas as senhoras que estão na pista também podem fazer.

Tenho bailarinas que fazem... – uma delas, por exemplo, num dos temas entra de um lado do palco e sai do outro a fazer três mortais sem pôr as mãos no chão; é campeã nacional de capoeira em Portugal – todas elas fazem espargata e quando levantam a perna levantam até à cabeça.

O meu espectáculo é um espectáculo de rigor, onde os profissionais têm que ser profissionais, porque nós temos de ter respeito não só por quem investiu aquele dinheiro para nos contratar, como pelas pessoas que pagaram o dinheiro para entrar e para assistir a ele.

Não podemos nunca partir do pressuposto que está feito [e que] no final tanto nos pagam quer se faça bem quer se faça mal...

Rigor, um alinhamento que é feito com uma sequência e um ritmo que não tem paragens – as paragens que existem são apenas para eu interagir com o público – mudanças constantes de roupa, as minhas bailarinas mudam de roupa cinco vezes e a meio do espectáculo tem um número para que eu própria possa mudar de roupa e refrescar-me.

É um espectáculo "ta-ta-ta-ta-ta-ta", sempre com uma cadência e uma dinâmica muito envolvente, com músicas de todos os géneros, sobretudo sempre músicas muito animadas – há quizomba, samba, música popular e tradicional... também há um tema para partir o coração, que também faz falta e que, segundo me parece é um estilo que gostam muito aqui, porque na rádio têm passado muito o "Estúpido".

Resumindo, é um espectáculo alegre, colorido, belo, dinâmico e com muita interacção entre o palco e a plateia.

SP – Falou-me do "Estúpido" que foi o seu penúltimo CD, editado em 2007. Qual foi o último?

DG – "Beija-me na boca".

SP – O "Beija-me na boca" foi editado há pouco tempo?

DG – Exactamente, agora mesmo. É aquele com que agora estou a trabalhar e também o que eu apresentei no Clube Português de Mississauga.

SP – Era isso que queríamos perguntar-lhe: o porquê da sua curta visita a Toronto?

DG – Basicamente foi para dar a conhecer a Dulce Guimarães a alguns canadianos. Infelizmente não foi a muitos. Como só fiz um espectáculo no Clube Português de Mississauga, não foi a muitos. Espero que, através desta entrevista, as pessoas que ainda não me tenham visto possam saber um pouco mais sobre mim. Para quem tiver internet e queira saber um pouco mais, poderá ir a www.dulceguimaraes.com e visualizar o espectáculo no computador.

SP – Sendo que fez apenas um espectáculo entre nós, como se sente depois desta deslocação ao Canadá?

DG – Há uma dicotomia neste momento dentro de mim. Vou felicíssima por ir abraçar e beijar o meu filho e, [ao mesmo tempo,] é muito mau para mim ir-me embora com a sensação de que não consegui chegar junto de um grande número de pessoas como eu gostaria.

Eu gostava que os portugueses no Canadá, e eu sei que o Canadá não é só o Clube Português de Mississauga, conhecessem este belo espectáculo. Eu sei que sou suspeita, porque estou a falar em causa própria, mas acreditem, que não estou a falar de mim, estou a falar de um conjunto que é o espectáculo Dulce Guimarães. Um conjunto de seis pessoas – quando actuamos sem banda – em que todas elas contribuem para que ele seja um belo espectáculo.

Alexandra Faria / Sol Português, 19/11/2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O que chamam de música pimba é música popular

Bonita e descontraída, Mónica Sintra voltou a animar mais uma emissão de «A Vida é Bela» da TVI. A TVI Online quis saber o que a cantora pensa da música portuguesa e como é recebida pelo público, entre outras coisas. Uma conversa sem pressas.

TVI - O que pensa da música que se faz em Portugal?

Mónica Sintra - Ao contrário do que muita gente possa, eventualmente, dizer, acho que tem qualidade e o facto de haver cada vez mais pessoas novas a cantarem é extremamente positivo. Faz com que exista uma «concorrência» saudável e que se traduz no aperfeiçoamento dos artistas.

TVI - Pensa que com os novos cantores portugueses a música nacional tem sofrido uma evolução?

M.S. - Acho que vai evoluindo aos poucos. Antes tínhamos como modelo os trabalhos de artistas estrangeiros. Consumíamos, e ainda consumimos, muita música estrangeira para termos um modelo de comparação. Hoje temos os trabalhos uns dos outros para comparar e para ver o que podemos melhorar e modificar e isso é que dá a tal evolução.

TVI - Hoje as pessoas têm uma ideia pré-concebida da música portuguesa, considerando-a pimba. O que pensa disso?

M.S. - Isso já surgiu há algum tempo. Como toda a gente sabe, devido à música do Emanuel, «Pimba Pimba». Acho que aquilo que as pessoas conotam como música pimba é algo que sempre existiu e faz parte das nossas raízes. Da mesma maneira que o fado é um estilo de música bem português, aquilo que determinadas pessoas e artistas chamam de música pimba é música popular e é do que as pessoas gostam e consomem.

Não aceito muito bem esse termo... pimba.

TVI- Dá muitos espectáculos por todo o país. Qual é a adesão do público?

M. S. - É óbvio que aquelas músicas mais conhecidas como «Afinal Havia Outra» e «Na Minha Cama com Ela» são sempre as mais cantadas e esperadas, por isso é que as guardo para o fim (risos)! As pessoas têm-me recebido muito bem.

TVI - O que há de melhor no mundo do espectáculo?

M.S. - Andarmos na estrada e diariamente conhecermos pessoas diferentes. O melhor mesmo é conhecer algumas zonas de Portugal que não conheceria se não tivesse esta profissão e, claro, ter o carinho do público.

TVI - E o pior?

M.S. - Não tenho nada de grave e de mau para dizer, até porque a minha música abrange um público de mulheres de uma faixa etária a partir dos 25 anos e também as crianças. Nunca foram desagradáveis comigo.

TVI - Está a tirar um curso de Psicologia. Quando acabar o curso, como vai conciliar a carreira de cantora com uma actividade profissional na Psicologia?

M.S. - Ainda não acabei, de facto é um curso de quatro anos que eu acho que irei fazer em 10 (risos)! Mas isso também não me preocupa muito, porque nesta altura tenho muito trabalho e mesmo que acabassse o curso agora nunca poderia conciliar.

TVI - Quais são os projectos para agora?

M.S. - Estamos numa fase de começar a pensar num novo trabalho. Se bem que este último CD ainda não foi apresentado muito bem em termos de estrada. Os projectos passam só pela gravação de um próximo trabalho, com algum cuidado, se calhar irá demorar muito mais tempo do que todos os outros. A nível mais pessoal, passa por tentar fazer mais cadeiras de Psicologia.

TVI - Costuma consultar muitas vezes a Internet?

M.S. - Costumo consultar para ver os mails enviados por todos aqueles que querem trocar algumas impressões comigo e para fazer pesquisas de Psicologia... dá-me jeito!

TVI - Quer deixar uma mensagem para os nossos cibernautas?

M.S. - Sim... podem mandar-me uma mensagem (monicasintra@hotmail.com). Se, entretanto, a mensagem vier devolvida, não desesperem, mandem-na na manhã seguinte, porque normalmente tenho que despejar o mail à noite. E, essencialmente, que sejam felizes. Procurem fazer alguma coisa de que gostem. Procurem a felicidade!

TVI Online, 14/02/2003