quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Música Com Pimenta


Peaches vem terça-feira a Portugal para mais um concerto libidinoso, cheio de palavrões, poses e gestos ‘hardcore’. Por cá também há quem cante com pouca roupa e abuse da sensualidade. Porque o sexo, mais ou menos encapotado, ajuda a vender discos.

Lux, sexta-feira à noite. Entre copos e sorrisos malandros, a pista da discoteca mais ‘in’ da capital dá sinais enchente. A música, baixa para o costume, não convida à dança. Mas também não é pela electrónica dos DJs residentes que tanta gente compareceu ao chamamento. Falta pouco para os corpos entrarem num delírio. Peaches sobe ao palco. Começa agressiva, de microfone em punho e um vestido curto que lá mais para o meio da actuação passará a biquíni e tanga.

As palavras obscenas, os gestos sexuais, dão o mote para um concerto aconselhável a maiores de 18 anos, tal o clima ‘hardcore’ que proporciona. O ‘filme’ tem algum tempo. Principal impulsionadora do estilo electroclash, que tanta celeuma causou há meia dúzia de anos, Peaches volta terça-feira a Lisboa, desta feita tendo o Paradise Garage como local do crime, para mostrar que a fórmula que junta sexo e canções está longe de se esgotar.

O fenómeno tem geografia abrangente, que varia de país em país consoante o puritanismo do povo. Em Portugal, onde os habituais brandos costumes travam tamanha ousadia, nunca se viu nada assim. Começam agora a soprar ventos de mudança. Ana Malhoa é disso exemplo. Recentemente colocou no seu ‘site’ oficial fotos com poses altamente provocantes nos locais mais sugestivos, do chuveiro à praia.

“Estava na República Dominicana e dadas as condições naturais decidimos fazer umas fotos para o catálogo da marca que me patrocina, a Donedhardy, que ainda não está em Portugal mas faz parte do meu projecto internacional. Colocámo-las no ‘site’, mas eu não estava à espera de uma reacção tão boa”, explica.

Depois, veio a polémica, as manchetes de jornal, as mensagens ‘online’ relativas à falta de roupa e de pudor da ex-apresentadora de um programa infantil, a deliciar os mais velhinhos. A estratégia colheu frutos, com um súbito aumento de popularidade e a tão desejada promoção ao álbum. Num abrir e fechar de olhos era convidada pela revista FHM para um ensaio fotográfico.

“Já tinha falado com o meu marido, o Jorge. Como não tenho preconceitos nem ele tem medo, decidimos aceitar. As roupas eram minhas, o cenário também e, naturalmente, impusemos algumas condições, porque as fotos tinham de passar a minha imagem: Sou bem portuguesa: baixinha e com as formas arredondadas”, brinca a cantora, que até sente ser mais respeitada pela ousadia. “Sou frequentemente abordada por senhoras, que não o fariam, para me darem os parabéns.”

A vitória tem o seu sabor, mas nem todas as artistas partilham o gosto pela sensualidade desmedida. “Não censuro a Ana Malhoa, até acho que devemos ter liberdade total para fazer o que nos apetecer, mas eu nunca o faria. Tenho coisas mais interessantes para partilhar com o público do que o meu corpo”, diz Romana. Igualmente conhecida pela sua beleza, a cantora de ‘Não És Homem Para Mim’ admite que a “imagem tem a sua importância e o impacto inicial é importante”. Mas avisa: “A beleza não é eterna. É preciso talento e muito trabalho para poder chegar a velhinha e continuar ser uma cantora respeitada.”

Chaty, a loira da dupla Tayti, prefere juntar o útil ao agradável, ou seja, ajustar a carinha laroca aos temas trauteados. “A sensualidade é um complemento que ajuda a vender o produto, mas só por si não vale de muito para seguir em frente. Não tenho a pose de ‘topmodel’ mas sei que sou minimamente bonita, e acho que não foi por isso que a carreira me correu bem ou mal.”

Como ela, Ruth Marlene, as Delirium e Adriana são alguns dos nomes que se fazem valer da boa forma física para ajudar na luta da conquista da tabela de vendas.

DOCE FORAM PIONEIRAS

Em Portugal, as Doce abriram caminho para a fórmula que ainda hoje faz sucesso: ritmos cativantes, quatro belas raparigas e muita pele destapada. O conjunto formado por Fá, Teresa Miguel, Lena Coelho e uma ex-miss Portugal, Laura Diogo, conseguiu uma vitória no festival da Canção de 1982. Entre discos de prata, ainda gravaram um dos maiores clássicos da música nacional: ‘Amanhã de Manhã’.

CURIOSIDADES

TELEVISÃO

Ana Malhoa começou desde cedo a habituar-se a ser o centro das atenções. Em homenagem ao pai, José Malhoa, cantou o seu primeiro sucesso, ‘Pai Amigo’. Aos oito anos apresentou um programa de televisão para crianças, ‘O Grande Pagode’, e aos 15 fez parte da equipa fundadora da SIC ao apresentar, durante seis anos, o ‘Super Buéréré’.

CARREIRA

‘Êxitos’, editado já este ano, comemora o 20.º aniversário da primeira versão de ‘Êxitos’, um disco gravado em 1986 ainda com a colaboração do pai, José Malhoa. No total, entre discos a solo e em dueto com o progenitor, são já 13 os álbuns editados pela cantora que, à medida que foi crescendo, se rendeu aos sons e ritmos latinos.

'MEXE O TUTU'

A dupla Taity estreou-se em 1998 com o disco ‘Mexe o Tu-tu’ e rapidamente conquistaram os ‘tops’ de vendas nacionais: com 15 semanas entre os primeiros lugares, o álbum de estreia atingiu o patamar de Platina. ‘Cuidado com a fruta’, editado este ano, é o nono trabalho da dupla.

MADRINHA

No meio da música popular, Carla Silva dificilmente podia ter tido uma madrinha melhor. A cantora que se celebrizou como Romana quando cantou ‘Continuas Chamando-me Assim Bebé’ é sobrinha de Ágata.

TATUAGENS

Durante a participação no Big Brother Famosos, Romana tornou conhecida a sua predilecção por tatuagens e ‘piercings’. A cantora tem quatro desenhos pintados na pele e 17 furos espalhados pelo corpo. Actualmente, nas suas actuações ao vivo Romana aparece sempre acompanhada de duas bailarinas espanholas. Aos 25 anos, e com 11 de carreira, a cantora rendeu-se aos ritmos do flamenco.

PEACHES DE VOLTA A LISBOA

Na próxima terça-feira, Peaches regressa a Portugal para um concerto no Paradise Garage, em Lisboa. Conhecida pelo seu vibrante electroclash, a cantora canadiana tornou-se célebre pelas suas exibições, no mínimo, quentes em palco. Alusões a sexo, à discriminação sexual e letras sempre bem explicitas completam a receita de sucesso da cantora que iniciou a sua carreira em 1995 (Fanypants Hoodlum), ainda com o seu nome de baptismo Merril Nisker. Desde então, de polémica em polémica, Peaches ganhou um estatuto único na música independente. A última guerra foi travada com o e-Bay.

A cantora quis leiloar umas cuecas fio dental para que o lucro revertesse para uma organização humanitária, mas a empresa retirou o artigo dos leilões. Peaches não perdeu tempo, colocou um rolo de fio, mas com a promessa de que quem o comprasse receberia por correio uma prenda muito especial. Na gravação do álbum que agora promove em Portugal, ‘Impeach my Bush’, a ajuda de Josh Homme, dos Queens of the Stone Age, e de Feist são um dos sinais de que já ninguém questiona o talento da cantora.

Canções como ‘Fuck the Pain Away’, o seu maior ‘hit’ e parte da banda sonora de ‘Lost In Translation’, fará certamente parte do reportório onde o mais recente álbum, estará em destaque. Em Portugal irá tocar acompanhada por Riot Grrrl: JD Samson, Radio Sloan e Sam Malone.

"AINDA HÁ MUITOS PRECONCEITOS"

CARLOS GUILHERME, SÓCIO-GERENTE DA ESPACIAL

- Correio da Manhã – O cariz sexual ajuda os músicos a vender discos?

- Ao nível internacional talvez, mas em Portugal ainda não terá grandes resultados. Embora a mentalidade esteja bem mais aberta, continuam a existir muitos preconceitos.

- Mas, por cá, o caminho aponta para que os artistas comecem a aproveitar-se da sensualidade?

- O mercado é pequeno. Pode ser que ganhem vantagens noutros ramos, como a televisão, mas se a Ana Malhoa teve sucesso é possível que outros também o tentem.

- A carreira musical da Ana Malhoa disparou com as fotos no ‘site’?

- Ainda não temos o ‘feedback’, mas só fomos informados com as sessões já realizadas. Penso que para funcionar em termos musicais teria de ter sido feito em conjunto com um tema sensual.

- Um ensaio fotográfico sensual afecta a credibilidade de um artista?

- Hoje só compram discos os fãs, ou outros quando um tema é muito publicitado. Só o tempo poderá dizer se esta é uma forma de aumentar as vendas, mas mesmo assim temos de ter em atenção o ‘target’ comercial de cada músico.

Filipe Garcia / Correio Êxito, 23/09/2006

imagens: Doce (site Ágata)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O que chamam de música pimba é música popular

Bonita e descontraída, Mónica Sintra voltou a animar mais uma emissão de «A Vida é Bela» da TVI. A TVI Online quis saber o que a cantora pensa da música portuguesa e como é recebida pelo público, entre outras coisas. Uma conversa sem pressas.

TVI - O que pensa da música que se faz em Portugal?

Mónica Sintra - Ao contrário do que muita gente possa, eventualmente, dizer, acho que tem qualidade e o facto de haver cada vez mais pessoas novas a cantarem é extremamente positivo. Faz com que exista uma «concorrência» saudável e que se traduz no aperfeiçoamento dos artistas.

TVI - Pensa que com os novos cantores portugueses a música nacional tem sofrido uma evolução?

M.S. - Acho que vai evoluindo aos poucos. Antes tínhamos como modelo os trabalhos de artistas estrangeiros. Consumíamos, e ainda consumimos, muita música estrangeira para termos um modelo de comparação. Hoje temos os trabalhos uns dos outros para comparar e para ver o que podemos melhorar e modificar e isso é que dá a tal evolução.

TVI - Hoje as pessoas têm uma ideia pré-concebida da música portuguesa, considerando-a pimba. O que pensa disso?

M.S. - Isso já surgiu há algum tempo. Como toda a gente sabe, devido à música do Emanuel, «Pimba Pimba». Acho que aquilo que as pessoas conotam como música pimba é algo que sempre existiu e faz parte das nossas raízes. Da mesma maneira que o fado é um estilo de música bem português, aquilo que determinadas pessoas e artistas chamam de música pimba é música popular e é do que as pessoas gostam e consomem.

Não aceito muito bem esse termo... pimba.

TVI- Dá muitos espectáculos por todo o país. Qual é a adesão do público?

M. S. - É óbvio que aquelas músicas mais conhecidas como «Afinal Havia Outra» e «Na Minha Cama com Ela» são sempre as mais cantadas e esperadas, por isso é que as guardo para o fim (risos)! As pessoas têm-me recebido muito bem.

TVI - O que há de melhor no mundo do espectáculo?

M.S. - Andarmos na estrada e diariamente conhecermos pessoas diferentes. O melhor mesmo é conhecer algumas zonas de Portugal que não conheceria se não tivesse esta profissão e, claro, ter o carinho do público.

TVI - E o pior?

M.S. - Não tenho nada de grave e de mau para dizer, até porque a minha música abrange um público de mulheres de uma faixa etária a partir dos 25 anos e também as crianças. Nunca foram desagradáveis comigo.

TVI - Está a tirar um curso de Psicologia. Quando acabar o curso, como vai conciliar a carreira de cantora com uma actividade profissional na Psicologia?

M.S. - Ainda não acabei, de facto é um curso de quatro anos que eu acho que irei fazer em 10 (risos)! Mas isso também não me preocupa muito, porque nesta altura tenho muito trabalho e mesmo que acabassse o curso agora nunca poderia conciliar.

TVI - Quais são os projectos para agora?

M.S. - Estamos numa fase de começar a pensar num novo trabalho. Se bem que este último CD ainda não foi apresentado muito bem em termos de estrada. Os projectos passam só pela gravação de um próximo trabalho, com algum cuidado, se calhar irá demorar muito mais tempo do que todos os outros. A nível mais pessoal, passa por tentar fazer mais cadeiras de Psicologia.

TVI - Costuma consultar muitas vezes a Internet?

M.S. - Costumo consultar para ver os mails enviados por todos aqueles que querem trocar algumas impressões comigo e para fazer pesquisas de Psicologia... dá-me jeito!

TVI - Quer deixar uma mensagem para os nossos cibernautas?

M.S. - Sim... podem mandar-me uma mensagem (monicasintra@hotmail.com). Se, entretanto, a mensagem vier devolvida, não desesperem, mandem-na na manhã seguinte, porque normalmente tenho que despejar o mail à noite. E, essencialmente, que sejam felizes. Procurem fazer alguma coisa de que gostem. Procurem a felicidade!

TVI Online, 14/02/2003

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Nasceu a literatura pimba

Um molho de garrafas de cerveja emoldurando a mesa da esplanada do café de Almada onde conversamos, cabelo comprido puxado para trás, camisa de flanela aberta sobre uma camisa de ganga também aberta e deixando ver uma «sweat-shirt», Nuno Tonelo, 30 anos, confessa-se: «Convenhamos... eu sou tudo menos um escritor... não tenho problema nenhum em aceitar isso.»

Com o 12º ano, um curso de história e cronologia da música em Londres, que ele próprio se apressa a desvalorizar, ex-«disc jockey», ex-luminotécnico e confesso «gigolo», há cerca de um ano, Nuno, até aí um ilustre desconhecido, sentou-se à secretária a escrever durante 48 horas. «Bom, não foram ininterruptas, foram para aí 12 horas e, no outro dia, foi o dia todo.» Nuno, que se habituou a escrever nos dias que lhe corriam mal -- «apanho uma bebedeira e em vez de fazer uma desordem, escrevo» --, derramou um texto mínimo e autobiográfico sobre os seus dias como «gigolo». «Tudo o que lá está aconteceu, só mudei alguns nomes», explica.

A sua namorada da altura leu, passou a computador e pressionou-o a enviar para as editoras. «Enviámos para 20, seis responderam a dizer que não estavam interessadas, a sétima, a Europa-América, decidiu publicar.
O facto de alguém ter decidido publicar o texto já foi suficientemente surpreendente para Nuno. «`Tava à espera de tudo menos que fosse publicado», explica. Género é coisa que não cultiva. «Eu não tenho género porque não sei o que `tou a escrever, vai saindo.» Influências, também não. «Nenhumas», responde, quando lhe falamos em influências literárias, embora afirme nutrir especial afecto pela obra de Mário de Sá Carneiro e Oscar Wilde.

A obra resume-se a 145 páginas impressas numa letra enorme -- «presumo que foi para ocupar espaço» -- que se lêem em 45 minutos e que focam a vida autodestrutiva do «gigolo» Nuno e dos seus amigos noctívagos. Nuno passa a vida a beber Jack Daniels em festas onde está sempre tudo a «partir», até ser contratado por uma agência que serve mulheres casadas que desejam sexo.
O livro inclui descrições de bacanais, diálogos ao telefone e páginas de um só parágrafo como este: «O Jorge telefona-me de manhã convidando-me para almoçar. Aceito, na condição de o almoço ser às três da tarde, e volto para a cama onde estão a Xana e a Teresa.» E é tudo para a página 85.

As descrições das festarolas em casa de amigos, como a Gina, são esmagadoras: «O Luís está em cima da mesa a `comer' a Mónica. O Jonas está à volta do cu da Paula. A Teresa, eu e a Xana já estamos os três embrulhados. Só me lembro que no fim de contas acabei por comer a Clara também, porque o Nuno Rocha caiu de maduro e a Xana e a Teresa resolveram `esfarrapá-la' completamente.»

Telefonemas entre o Nuno e os amigos, há muitos, mas o da página 106 supera tudo:

«-- Tudo bem. Apanha-me às duas e meia.»

«-- Okay. Ouve!»

«-- Sim?»

«- Enquanto tu ficas a dormir, vou aproveitar para seguir o teu conselho.»

«-- Qual?»

«- Vou cagar.»

«-- Tchau.»

Na página 118, Nuno está em casa da Xana a conversar com ela acerca da sua profissão de «gigolo». A cena continua na página 119, Nuno faz uma pergunta a Xana e, na página 120, a resposta de Xana já é feita na praia!

As críticas, todas elas negativas e esmagadoras, não parecem incomodar Tonelo. «`Bada' merda, quero lá saber disso, disseram que eu era uma cópia patética do Brett Easton Ellis, `tou-me a borrifar! Eu recebo 190 paus por cada livro vendido. Acha que por 200 escudos eu me vou preocupar se o livro vende ou não vende?' Tou-me a cagar! Completamente! Tive amigos que gostaram, a minha mãe é que não porque acha que o livro tem uma linguagem baixa e ordinária.»

A incursão de Nuno Tonelo no mundo das letras começou no liceu, sobretudo sempre que se sentia mal com o mundo. Mas foram os dois anos que passou na Marinha e a revolta que sentiu contra o rígido sistema militar que o levaram a escrever em grande quantidade. «Escrevia muito, à resma, mas não se aproveita grande coisa. É uma destilação de ódio completa.» Um dia, transportando um caixote de fruta, escorregou e deixou cair seis peças. «Apanha!», gritou-lhe o cabo. «Apanha tu», respondeu o grumete Tonelo. Resultado: um mês de cadeia por insubordinação e desobediência.
Depois de uma estada de dois anos em Londres, Nuno ainda foi DJ no Café Concerto -- «fechei o Café Concerto» -- até acabar no Casino do Estoril a trabalhar na iluminação de «007» e «Mozart». A carreira de luminotécnico encurtou por causa de umas calças de ganga. «Não podia entrar de calças de ganga e um chefe de mesa pôs-me cá fora.»

A carreira de «gigolo» começou muito tempo antes. A mãe de Nuno trabalhava numa empresa ligada ao Casino. Nuno acompanhou-a numa recepção e uma senhora pensou que ele fosse o «gigolo» da mãe dele. Acabou a trabalhar para essa senhora. «Tem o género de uma agência, que funciona de boca em boca.» Nuno afirma receber então 25 contos por cada serviço e nunca se ter arrependido. «Toda a gente se põe de joelhos, uns põem-se de uma maneira, outros de outra.»

Retirado da profissão -- «ninguém aguenta muito tempo» --, Nuno trabalha agora em montagem vídeo como «free lancer» e afirma estar a preparar uma obra sobre um assassino profissional. Porquê? «Porque é aquilo em que eu tenho medo de me vir a transformar. Não me repugna matar alguém por dinheiro, como não me repugna assaltar um banco, como não tenho nada contra o traficante de droga. É um homem de negócios. O consumidor é um desgraçado.»

PUBLICO, 16/11/1995

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Pimba - Um Fenómeno Musical

O Fenómeno Musical "Pimba" - O caso Emanuel
Dissertação apresentada à Universidade Nova de Lisboa para obtenção do Mestrado em Estudos Portugueses (Variante de Culturas Regionais)
Director de tese: Professor Doutor João Ranita da Nazaré

Resumo

O objectivo deste trabalho é fazer uma reflexão acerca de um fenómeno que se veio a difundir em Portugal a partir da segunda metade da década de 90 na área da música ligeira que se faz no nosso país e é ouvida (senão apreciada) por uma grande parte da população portuguesa – o “pimba”. Assim, pretendemos com esta reflexão estudar algumas características desta música, de modo a podermos vir a compreender melhor o fenómeno supracitado.



Entendemos então que, para podermos alcançar os objectivos traçados, é necessário responder a algumas questões relacionadas com aspectos da sociologia da música. Que papel ou papéis pode eventualmente desempenhar esta música na nossa sociedade? Quais as características deste género musical que fazem com que as massas (às quais todos nós, sem excepção, acabamos por pertencer) em certas ocasiões se identifiquem com ele? E as canções incluídas no género musical “pimba” são criadas de acordo com a moda ou elas fazem a moda?

Gostaríamos de salientar acerca deste fenómeno social que verificámos que ao lado de certo tipo de comportamentos que demonstram uma total repugnância por esta música, considerando-a como música sem qualidade ou de qualidade duvidosa, coabitam outros que traduzem a mais fervorosa e quase fanática dedicação e no que diz respeito ao papel que este género de música pode ter, é importante referir que devido ao carácter simples das suas letras, com as quais muitas pessoas se identificam, estas canções chegam a desempenhar um papel como que de catarse social, contribuindo para aliviar as tensões do dia-a-dia e combater o stress característico duma sociedade moderna e onde predomina uma cultura de massa.

Índice

Introdução
1. Problemática
2. Pertinência do estudo
3. Dificuldades
4. Metodologia

Capítulo I – Enquadramento sociocultural
1. Origens e influências na música “pimba”
1.1. Da cultura de massa
1.2. Da cultura Kitsch
1.3. Da cultura tradicional e da canção “popular” portuguesa
2. Um novo estilo: o “pimba”

Capítulo II – Emanuel: o homem
1. História de vida
1.1. Covas do Douro
1.1.1. Os afazeres
1.1.2. As aventuras
1.2. As viagens
1.2.1. Covas do Douro – Lisboa
1.2.2. Lisboa (a casa dos tios) e o regresso a Covas do Douro
1.3. Lisboa (novos contactos)
1.3.1. O Paris Orly
1.3.2. A Escola de Música Duarte Costa
1.3.3. O futebol, o Atlético e o Sporting
1.4. As férias
2. Actividade artística
2.1. O professor Américo
2.2. O arranjador/orquestrador
2.3. O cantor (Américo Monteiro/Emanuel)

Capítulo III – O repertório
Aspectos musicais e literários
1. A criação musical
1.1. A forma
1.2. Os ritmos
1.3. As melodias
1.4. As harmonizações
1.5. As instrumentações
1.5.1. Os instrumentos
1.5.2. Os ensembles e os conjuntos instrumentais
1.5.3. As vozes e os conjuntos vocais
2. A criação dos textos
2.1. Os temas
2.2. O vocabulário
2.3. A métrica
2.4. A rima

Capítulo IV – A performance musical
Os espectáculos
1. Os espaços e o tempo
2. Os participantes
2.1. Os artistas
2.1.1. A “vedeta”
2.1.2. Os músicos
2.1.3. O coro
2.1.4. As bailarinas
2.2. O staff
2.2.1. Os agentes
2.2.2. A equipa de som e luz
2.3. O público
3. A imagem
3.1. O vestuário
3.2. As coreografias

Capítulo V – Registos sonoros e recortes de imprensa
1. Registos sonoros
1.1. A gravação das canções
1.2. Os trabalhos editados
1.3. A promoção e a divulgação
1.4. Os destinatários
2. Recortes de imprensa

Conclusão

Bibliografia e discografia
1. Bibliografia citada
2. Bibliografia consultada
3. Bibliografia da música “pimba” relativa ao caso Emanuel
4. Discografia consultada

Anexos
1. Transcrições musicais e literárias do corpus do trabalho
2. Outras transcrições musicais e literárias
3. Grelhas de registo dos dados para análise
4. Legenda das imagens utilizadas ao longo do trabalho
5. Exemplos musicais e literários referidos ao longo do trabalho (1 Cd)
6. Corpus do trabalho (2 Cds)


Francisco Manuel Marques
http://clientes.netvisao.pt/fmm65b/textos/Tese.htm
http://clientes.netvisao.pt/franci03/textos/Tese.htm


Lançamento do livro "O Pimba - Um Fenómeno Musical"

Apresentação pública em Beja no dia 25 de Maio de 2006, pelas 18.00 horas, no BejaParque Hotel, integrado nas Festas do Concelho.


O Pimba Um Fenomeno Musical - Francisco Manuel Marques (Editora: Setecaminhos / Colecção: Extra Setecaminhos)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um dia atrás do rei Emanuel

Quatro da tarde. Área de serviço de Santarém. Apesar do pedido - "sejam pontuais que ele nunca se atrasa" -, passam 15 minutos da hora marcada. É uma vez sem regra. O telefone toca e, do outro lado, uma das bailarinas diz-nos que Emanuel "foi lavar o carro". Está explicado. Um café, umas águas, um cigarro, e lá aparece, ao volante de um Mercedes topo de gama, o homem do dia. Estamos prontos para a viagem que nos vai levar a Argeriz, Trás-os-Montes, onde o autor de um hino chamado "Pimba, Pimba" vai brilhar perante o seu público.

Emanuel viaja quase sempre sozinho. Diz que ganha tempo para pensar, essa coisa tão escassa na "vertigem dos dias" que correm. Não são meras reflexões sobre a vida, é trabalho: "Componho muito mentalmente, depois agarro num teclado ou numa viola e faço a música", explica-nos sem tirar os olhos da estrada. Por agora veste roupa desportiva - calças de ganga e pólo -, mas quem entra no seu carro dificilmente deixa de reparar nos dois casacos pendurados na parte de trás. Saltam à vista pelas cores fortes e brilhantes, vermelhos e azuis de cetim. Artista popular é assim, vai para o palco impecavelmente engomado. E usa cores que combinam com os projectores.

Pimba

Existe quase um mito de que Emanuel é um homem da música clássica que um dia decidiu aventurar-se na canção popular brejeira. Ele próprio confessa nunca ter ponderado uma carreira assim. Começou por dar aulas de música em Odivelas e rapidamente se tornou o director da escola. É daquelas pessoas que transpiram confiança a cada palavra: "Comecei por tocar viola e piano. Mas também já toquei bateria. Houve uma altura que dirigia grupos de baile, era eu que fazia as pautas para a banda. Não apenas da guitarra, mas de todos os instrumentos."

Na altura, Américo Monteiro - assim se chama Emanuel - acumulava funções como músico de bar de hotel. "Um repertório contemporâneo, Pink Floyd, Elton John..." Até ao dia em que quis ser cantor. A decisão foi simples: "Queria ter um projecto meu e era preciso alguém para a voz. Acabei por ficar eu, porque não?" Desses tempos, já pouco resta: hoje, o staff de Emanuel são 25 pessoas, entre músicos bailarinos e técnicos. E, embora a banda tenha sido renovada há pouco tempo, é raro ele mexer na equipa. "A excepção são as bailarinas", conta. "Raramente são as mesmas. Não sei se será por ciúme dos namorados. Talvez eles não gostem de as ver de mini-saia em palco."

A conversa corre solta. Não há música dentro do carro, mas fala-se em jazz e música popular, embalados pelos toques polifónicos da consola do pequeno Emanuel, um dos seus dois filhos gémeos, que hoje acompanha o pai. O resto dos familiares ficaram na quinta do Ribatejo, onde vivem. É raro irem aos concertos do patriarca. "Costumo dizer que sou um operário da música. E um operário, seja ele mecânico ou pedreiro, não leva a mulher para o trabalho." Talvez aqui entrem as fãs que se acotovelam por um beijo e um autógrafo, nas muitas horas que se seguem aos espectáculos. Ossos do ofício, garante ele. Diz que nunca foi conquistador nem mulherengo, mas confessa que, no passado, antes de ser casado, "encarava a estrada de outra forma".

Claro que as fãs têm um papel decisivo na vida do artista. Seja as que gritam pelo seu charme na fila da frente, seja as milhares que lhe escrevem cartas. "Aprendi muito a ler as minhas fãs. Diziam--me de tudo. Houve quem me pedisse dinheiro emprestado ou confessasse nunca ter conseguido atingir um orgasmo."

Rapaziada vamos dançar

É tempo de fazer uma pausa no caminho. Emanuel não larga o telemóvel: "O palco é de fácil acesso?", pergunta ao seu road-manager, a trabalhar desde essa manhã o recinto do espectáculo. Quando Emanuel lá chegar, tudo deverá estar pronto. "Dantes não era assim, agora basta-me cantar uma música para ver como está o som. Vou jantar, actuo e levam-me ao hotel."

Na área de serviço de Santo Tirso, um grupo de jovens - que não aparenta ter mais de vinte anos - reconhece o músico e desata a cantar o "Pimba, Pimba". Ele reage tímido à abordagem, mas acaba por tirar uma fotografia, distribuir dois ou três beijos e assinar uma camisola. "Foi uma música que fiz há 15 anos, nessa altura estas miúdas nem deviam ser nascidas. É o poder da música."

Quem fala com Emanuel pela primeira vez dificilmente deixa de sentir uma energia positiva. Há um lado qualquer prosaico na sua postura, bem explícito nas metáforas que utiliza frequentemente - e nas frases que roubou a Kant. Sim, o filósofo alemão. "Ele dizia que há muitas verdades e diferentes realidades. Esta é a minha verdade, não tenho problemas em ser pimba."

Não tem problemas e defende-o com unhas e dentes. Voltamos à conversa do jazz, talvez a sua maior antítese, coisa de elite, pretensiosa até. E voltam as metáforas: "A canção é como uma mulher, se for lindíssima não precisa de artefactos. A qualidade está na sua essência. Uma música simples será sempre mais difícil de compor do que uma coisa complexa." Adiante.

Emigrantes e reformados

Como para qualquer artista popular, o mês de Agosto é dos mais fortes na agenda de Emanuel. Esqueçamos as grandes cidades: no Interior, nas aldeias e vilas desertas, a capacidade de mobilização é notável. Argeriz é um bom exemplo: um palco montado num largo de beira de estrada, meia dúzia e casas e uma densidade populacional pouco digna de registo. Ele contrapõe, à chegada: "Os meus espectáculos têm uma média de 10 mil pessoas." E se por agora, oito da noite, o cenário é desolador, o número multiplicar-se-á rapidamente à medida que se aproxima a hora do concerto.

Atrás do palco há um lar de terceira idade. É aqui que funciona o camarim do artista, muito bem recebido por funcionários e idosos. Deixaram-lhe uma mesa de frutas, uma cartolina cor-de- -rosa com versos simpáticos e uma jarro de flores pousado sobre uma toalha de renda. Ele retribui pouco antes de subir ao palco: mais beijos e fotografias para todos, antes de começar a aquecer a voz. "Meu amor, vem ter comigo", trauteia enquanto ao lado, num pequeno camarim improvisado, quatro imponentes bailarinas se maquilham e espalham creme de brilhantes na barriga.

Está tudo a postos: o road-manager abre caminho na escuridão com uma lanterna, que aponta para uma passadeira vermelha. São 50 metros de caminho ensurdecedor com os gritos da população. Emanuel estava certo: a praça tem milhares de pessoas, há carros estacionados dos dois lados da nacional e falta pouco para a GNR fechar a estrada. Já no palco, ainda temos tempo para uma última pergunta: nervoso? "Nada disso, são muitos anos a virar frangos."

Jornal i, 09/08/2010
artigo com video

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Na sombra das luzes da ribalta de Tony Carreira


Poucos reparam neles, pouco iluminados pela ribalta do palco, mas as funções que desempenham são essenciais para que Tony Carreira brilhe e arrebate as plateias
Quando entrar em palco para celebrar os vinte anos da concretização dos ‘Sonhos de Menino’ que nasceram com ele em Armadouro, Pampilhosa da Serra, Tony Carreira não vai estar sozinho. As luzes vão fazer de tudo para iluminar e fazer sobressair o romântico cantor, as palmas a ele vão ser dirigidas e o eco do nome artístico, que escolheu já lá vai o tempo, atingirá honras de atravessar o Pavilhão Atlântico em sonoros vivas.

Tem sido assim ao longo dos anos: a colher os frutos do sucesso, na vida que escolheu dedicar à música portuguesa. Mas o espectáculo existe, e é possível, também ao fundo do palco, em muito graças ao irmão José Antunes, ao compositor Ricardo Landum, ao técnico de som Paulito e a Ana Baptista, uma das vozes do coro – alguns dos elementos de uma equipa de 40 pessoas que trabalha para que nada falhe durante o show. E que, nos concertos de celebração de aniversário, a 14 e 15 de Março, vai estar a torcer para que Tony, que dizem ser “muito perfeccionista e profissional”, brilhe e se supere. Mais uma vez e cada vez mais.

José Antunes está “algures na ternura dos quarenta.” As duas décadas de carreira que Tony agora celebra pertencem-lhe também. Em 1988, rumou a Lisboa com uma missão muito especial: inscrever o irmão mais novo no Prémio Nacional da Música, que acabou por dar a Tony Carreira entrada directa no Festival da Canção, pela mão (e melodia) da canção ‘Uma Noite a teu Lado’ – foi um dos oito seleccionados entre mil participantes. “Convenci-o a gravar e a apresentar-se, mas confesso que acreditava sem acreditar que ele pudesse vencer”, conta José, explicando que as dúvidas se deveram à panóplia “de nomes sonantes” que compunham o leque de participantes. Na ‘ficha técnica’, José Antunes é ‘tour manager’. Na prática é o braço direito (e esquerdo) do irmão, a quem este confia a verificação de que tudo está nos eixos.

“Tenho de cuidar de todas as condições necessárias para ele apresentar os concertos.” Pode ser motorista, contabilista, gestor, organizador, de acordo com o que é a necessidade do momento. A sua empresa, a Dyam, teve nascimento registado em França – desde 1989 que produz concertos de artistas nacionais em países com fortes comunidades emigrantes - mas continua a dar cartas em Portugal desde que José se mudou para terras lusas.

Apesar dos laços de sangue que o unem ao cantor romântico, o irmão de Tony admite que “família só em casa, no trabalho tentamos não misturar.” Embora por vezes seja difícil, confessa quem tocava baixo na banda que teve com o irmão e um primo na adolescência. Porque não seguiu carreira artística?, perguntamos. “Desde cedo percebi que não tinha esse dom”, garante, admitindo mesmo assim as “memórias excelentes” que guarda “desse tempo.”

RICARDO LANDUM

De tempo precisa Ricardo Landum. Para compor. Abana a cabeça à pergunta se os cantores encomendam sentimentos quando lhe pedem para escrever canções. Autor de sucessos como ‘Pisca Pisca’, ‘Mãe Querida’ e ‘Conquistador’ é, além de um dos compositores mais conhecidos na praça lusa, amigo de Tony. “Tenho um coração muito grande em termos musicais, para mim música é música”, reage quando questionamos a diferença de estilos. Foi rockeiro com os TNT e os Da Vinci, também se passeou no sonoro heavy metal e é autor dos maiores sucessos do conhecido ‘cantor de sonhos’. “Encomendam-me canções para um disco, dizem como querem que seja, eu faço de acordo com os desejos de cada um”, explica o artista que escolheu deixar as luzes da ribalta aos 30 anos – hoje tem 47 - em prol do estúdio: “Um refúgio mais criativo.” Quando na próxima semana o esgotado Atlântico entoar mais ou menos afinado as badaladas baladas de Tony Carreira, dificilmente se vai lembrar do homem que, não estando no palco, se encarregou de “encarnar personagens, viver como se fosse elas, transportar romantismo para a vivência do dia-a-dia” enquanto durou o processo criativo de escrever e compor as letras para o amigo de há já vinte anos. Nem vai imaginar (o público) que a maioria das canções foi cúmplice da madrugada, um dos períodos mais fortes da inspiração de Ricardo.

Se Tony Carreira é o cantor dos sonhos, Ricardo é quem os imagina e compõe em forma de canções. “Durante os seis meses que estou a compor eu e o Tony falamos constantemente. Às vezes toco-lhe músicas ao telefone a pedir opinião, outras liga-me ele com uma ideia.” É fácil concretizar as vontades de Carreira? “É, porque já o conheço há muito tempo, devo ser das pessoas que melhor o conhece”, explica Ricardo, “muito observador por natureza.” E saudosista q.b., como confessa. Talvez por isso escreva um diário que também ajuda a inspiração em momentos em que esta teima e tarda a chegar.

Ana Baptista chegou em boa hora à equipa de Tony Carreira, há sete anos e por intermédio de uma amiga. “Estavam a precisar de uma cantora, fiz provas com o director musical e fui escolhida”, conta a corista, 36 anos. No ‘casting’ teve de cantar o refrão de uma música de Tony Carreira e a lembrança solta-lhe o riso. “Fui franca com ele e contei-lhe que não sabia qualquer tema, porque não era o meu género musical nem achava muita piada, mas houve um compromisso de profissionalismo”, conta, desfazendo-se em elogios para com o cantor.

“Tem evoluído imenso, é uma pessoa com grandes ambições, além de ser muito acessível - sempre lhe pedi conselhos e ele sempre me ajudou.” Agora, a ambição de Ana Baptista é dar o passo em frente: também literalmente. Passar para a frente do palco, ser cantora e não corista. Garante que Tony Carreira será convidado de honra do lançamento do disco que quer pôr em prática - “algures entre o funk e a soul, que são as minhas influências principais.” Ana nasceu no Montijo mas cresceu em Lisboa, filha de um pai que tinha também - e de quem herdou - o gosto pela música.

Paulito também tem esse gosto. Embora mais abrangente, tudo o que é som interessa-lhe e é disso que fez profissão: é o técnico de som de Tony Carreira, desde há três anos. O anterior trabalho foi com os manos Anjos, mas desde os 17 anos que manipula mesas de mistura. Tem 33 anos. Sabe de cor que tipo de som gosta o cantor. “Tem de ser muito limpo, porque passa uma mensagem”, conta, acrescentando que não é tudo. “O Tony Carreira dá espaço para inovações, temos toda a motivação para explorar, até porque temos de estar sempre no topo - desde que não haja falhas”, explica Paulito, que poucos minutos antes recebeu um telefonema do cantor de ‘Depois de ti mais nada’ a chamar a atenção para um pormenor (sonoro) que aconteceu no último concerto da banda e que não se podia repetir nos espectáculos de comemoração no Pavilhão Atlântico.

“É muito perfeccionista e diz sempre quando algo não lhe agrada, o que também é importante para o nosso trabalho”, assume Paulito, actualmente responsável pela sonância que chega aos ouvidos do público. “Uma grande responsabilidade”, confessa, admitindo que foi Tony Carreira quem o incentivou a aceitar o lugar de destaque no que ao som diz respeito. “Comecei nos monitores, no som do palco, e estava com receio de aceitar o convite para fazer o som do público, estava muito nervoso no primeiro espectáculo em que mudei de função, na tournée de 2007.” E há uma coisa que também não vai esquecer. “O Tony Carreira disse-me nesta altura: ‘Paulito, acredita em ti que eu fiz o mesmo.’” Pois fez. E resultou.

40 NA EQUIPA

São cerca de 40 os elementos da equipa que acompanha Tony Carreira. “Temos uma relação muito boa entre todos”, diz Ana Baptista. Paulito, técnico de som, concorda. “Quando estamos na estrada é uma animação, ficam sempre histórias para recordar, mesmo a recordar as pequenas falhas nos divertimos mais tarde”, confessa o jovem de 33 anos.

Marta Martins Silva / Correio da Manhã (Correio de Domingo), 09/03/2008
Foto de Duarte Roriz

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Emanuel - Pimba Amor

PRIMEIRO é a música - ou, melhor, o som - que entra pelo recinto adentro, poderoso, de rompante, vindo das profundezas da bateria e das entranhas do baixo, mal as luzes se acendem colorindo de todas as cores o fumo denso que invade o palco. Como se o paredão de uma barragem cedesse, aqui, à pressão da expectativa acumulada pelo público.

Logo a seguir, estridente na mesma medida, como uma torrente, é o crescendo dos gritos e dos assobios de centenas de pessoas, milhares talvez, sobretudo mulheres e crianças, muitas crianças, os braços no ar balanceando, ansiosos todos pela festa que, agora sim, vai começar.

Entram as teclas, entra a guitarra, entra também o acordeão mais as duas bailarinas. E, quando chega, finalmente, a vez de entrar o artista, as palmas que enchem a noite não são só para o receber, são mais para o acompanhar nos versos que todos sabem de cor e cantam com ele: «Rapazes da vida airada/ oiçam bem com atenção/ todos temos o dever/ de dar às nossas mulheres/ muito carinho e afeição./ São as mais lindas do mundo/ donas do nosso coração./ Se somos meigos para elas/ dão-nos tudo, tudo, tudo/ com toda a dedicação» É o delírio entre a rapaziada. Gritos e mais gritos e mais assobios. E depois, todos a repetirem, em coro: «E se elas querem um abraço ou um beijinho/ nós, pimba, nós, pimba!/ E se elas querem muito amor, muito carinho/ nós, pimba, nós, pimba!»

Os holofotes percorrem agora a multidão aos saltos, frenética, como se andassem à caça daqueles, raros, que conseguem ouvir e ficar quietos, muito parados. É preciso contagiá-los e não faltam, para tanto, as imagens no ecrã-gigante, ao lado do palco, ampliando sem cessar os pulos e os gritos das raparigas e das mulheres que se apinham à frente do artista, olhos presos aos seus olhos azuis, extasiadas pela voz suave e macia e pelo «romântico» da sua figura. Tem um certo ar de Clint Eastwood, é verdade, alto, esguio, seco, as «entradas» que o cabelo louro cortado curto não pretende disfarçar. «Toda a gente, vamos embora, estão todos connosco, ou não?», pergunta o cantor, calças pretas e casaco vermelho. «Aí atrás, na encosta, vá lá, quero toda a gente com os bracinhos no ar, as palminhas por cima da cabeça, toda a gente!» A batida é forte, sincopada, e o pó sobe no ar à medida que dezenas de pares rodopiam e pulam, onde há espaço para isso, por entre a assistência. «Lindo! Magnífico! Vamos incendiar isto!», comenta o artista. Cheira a um misto de arraial e de vindimas. E o coro é geral: «E se elas querem um encosto à maneira/ nós, pimba, nós, pimba!/ E se elas querem à noitinha brincadeira/ nós, pimba, nós, pimba!» Emanuel, simplesmente, o genuíno, e poderia ficar tudo dito, sem precisão de mais nada.

Emanuel tinha vindo de Pinela, no distrito de Bragança, na véspera, e actuava agora em Modelos (os naturais pronunciam «mudélus»), um modesto lugar da freguesia de Penamaior, no concelho de Paços de Ferreira. Mais concretamente, a cerca de cinco quilómetros dali, serra acima, no santuário de Nossa Senhora do Pilar, uma capela solitária erguida, há um século precisamente, no topo do cabeço mais alto da terra, paredes meias com as instalações da Estação de Radar nº 2, da Força Aérea Portuguesa. No local, há também, desgarrada, uma estátua a Cristo-Rei, miniatura da de Almada, sobre um pedestal de granito, com a inscrição: «1140-1640-1940 - Vinde a Mim Todos».

Hoje o espectáculo era ali mas poderia muito bem ser em montes de outros sítios, em terras que têm com Modelos no mínimo dois pontos em comum: não terem, no geral, direito ao nome no mapa e terem querido Emanuel e a sua banda para animar as festas de cada uma. Sendim, em Miranda do Douro, Corga do Lourão, em Santa Maria da Feira, Ribolhos, em Castro d'Aire, Mosteiro, em Sandim, Souto, no Sabugal, ou Fonte Longa, em Carrazeda de Ansiães, para citar só alguns exemplos. É Agosto e, de norte a sul de Portugal, parece que não há terra que não esteja em festa.

Todos os anos, em Penamaior, um dos oito lugares da freguesia assume, perante os outros, a responsabilidade de realizar, a 15 de Agosto, a romaria e a festa que atraem ao santuário de Nossa Senhora do Pilar alguns milhares de fiéis e meia dúzia de feirantes. Calhou às gentes de Modelos, desta vez. A festa não exige muito: contrata-se o artista pretendido, com a antecedência devida para evitar sobressaltos, e vão-se pedindo uns tostões, aqui e ali, ao longo do ano, para satisfazer a verba acordada mais o custo das «descargas» de fogo (entre 300 a 400 contos), sempre fundamentais nestas circunstâncias.

Raramente a contratação do artista é feita directamente com o próprio. Há agentes especializados que se encarregam da «démarche», sempre de acordo com os orçamentos de cada lugar. «Quem quiser o Emanuel, um verdadeiro campeão de vendas, tem de o contratar com um ano de antecedência», explica Alcides Seixas, reformado da RDP e empresário artístico especialmente conhecido nos meios da música mais popular. «No caso dele, há duas hipóteses: ou actua com a banda inteira, e a coisa fica por perto dos mil contos, ou só com as bailarinas e com 'playback' instrumental, e então anda à volta dos 700, mais coisa menos coisa...» Resta uma terceira fórmula, a mais cara e, por isso mesmo - porque os orçamentos para as festas nunca são alargados demais - a menos utilizada: «Trazer as Bombocas (um trio - uma loira, uma ruiva e uma morena - criado o ano passado e produzido pelo próprio Emanuel, à sua própria imagem, antes da moda das 'girls band' que agora grassa por aí, e especializado na versão feminina da sua própria música) para fazerem a primeira parte», explica o empresário. O «luxo», diz ele, pode custar mais de 1300 contos.

Pode parecer muito dinheiro, por hora e meia de espectáculo, mas tudo é função, afinal, da importância que cada lugarejo deposita nos festejos que organiza e exibe perante os vizinhos. Fonte Longa, por exemplo, com pouco mais de 350 habitantes durante o ano (a população triplica em Agosto, com o regresso à terra da maioria dos filhos emigrados) não tinha festa nenhuma até há cinco anos. «Há muito tempo, só os mais velhos é que se lembram, faziam-se aqui todos os anos as festas de Santa Filomena. Mas desde que veio para cá o padre Fernando, há mais de 40 anos, nunca mais houve festa nenhuma...», conta José Joaquim da Silva, de 27 anos, o presidente da Junta de Freguesia, fruticultor como a maioria dos conterrâneos.

Cansados de tanto marasmo e conservadorismo, os jovens da aldeia decidiram, há cinco anos, fazer uma «revolução» na terra: de uma assentada só, «marimbámo-nos no padre, inscrevemo-nos nos cadernos eleitorais - muitos votaram pela primeira vez e em si próprios -, ganhámos as eleições desse ano e corremos com a velharia que enchia a Junta e não fazia nada pela aldeia. O padre não nos deixou dar um nome de um santo à festa. Paciência. Passámos a chamá-la a Festa da Maçã, que é a nossa maior produção e, por cada ano que passa, a festa está cada vez maior e melhor, essa é que é essa...», conta o autarca, a malta nova à sua volta, tudo a rir.

O ano passado, uma hora antes do início do número forte da festa - o espectáculo com o artista contratado - apanharam um susto de todo o tamanho. É ainda o autarca que conta: «Tínhamos contratado o Quim Barreiros. Pediu 960 contos, só queria notas, nada de cheques. Chegou aqui com os músicos e entregámos-lhe tudo o que tínhamos conseguido reunir, 950 contos, precisamente. O tipo contou as notas, uma a uma, e recusou-se a começar enquanto o dinheirinho não estivesse todo na sua mão. Foi preciso um de nós abrir a carteira e passar-lhe os 10 contos que faltavam, veja bem, para o espectáculo começar. Nunca mais cá há-de pôr os pés, esse malandro! É que há pimbas e pimbas, está a compreender?»

Emanuel, o genuíno, o verdadeiro «pai» da chamada música pimba («Pimba, pimba», o segundo grande êxito da sua carreira, depois do sucesso de «Rapaziada», no ano anterior, data do Verão de 1995), não é homem para ficar vergado ao peso do rótulo que lhe quiseram colar. «Sou um homem sóbrio, mas com ideias próprias e bem definidas. Não sei se são melhores ou piores do que as outras, sei que são as minhas», diz ele. «E, com respeito ao que é pimba, uma expressão que só ganha sentido em função do contexto em que se insere, a ideia que impera creio que é a minha.»

Sendo mais específico, o artista e campeão de vendas (mais de 150 mil cassetes e de 10 mil CD vendidos o ano passado, e mais de 100 mil cassetes já vendidas, desde fins de Junho, do seu êxito deste ano, o «Vem bailar o tic-tic») diz reconhecer a existência de três critérios para definir o que é pimba, musicalmente falando. «Para uns, é música ordinária, para outros, música de má qualidade, para outros, música ligeira e popular, ou a fusão das duas coisas», sustenta, no final de hora e meia de espectáculo e de mais de uma hora de autógrafos durante a qual os seus assistentes despacham, entre as fãs, com toda a facilidade cem contos de cassetes, «posters» e «t-shirts». «Ora bem, música ligeira e música popular não é um título, não é um nome que defina um género, à semelhança do jazz, do rock ou do blues. Portanto, se quiserem usar o pimba como um adjectivo para definir ligeira e popular, então pimba serve, como serviria Maria ou Manel ou outro rótulo qualquer...»

E o facto de «haver ainda pessoas» que insistem em usar a expressão com sentido pejorativo também não o preocupa. «Não me preocupa porque eu conheço a verdade, e a verdade está aqui, à frente do palco, de terra em terra: campeão de vendas, campeão de assistência. Sabe porquê? Porque artista é o que consegue transmitir emoções. E o público sente o que canto, por isso canta de cor as minhas cantigas.» Diz sentir que captou já, praticamente, todos os sectores da sociedade portuguesa. Menos o elitista, seguramente. «Mas acha que me devo preocupar com pessoas que pensam que o mundo começa na 24 de Julho e acaba no CCB?»

Américo Pinto da Silva Monteiro, de seu verdadeiro nome, nasceu em 25 de Março de 1957, em Covas do Douro, o mais novo de três irmãos. Veio cedo para Lisboa, para casa de familiares, e foi aqui, ao mesmo tempo que começava a trabalhar, que fez os seus estudos, inclusive os de guitarra clássica. Foi professor do mesmo instrumento, dos 20 aos 30 anos, mesmo depois de ter começado a ganhar os primeiros tostões com a música, tocando, ao final da tarde, «música internacional, de todo o género, nos hotéis da linha do Estoril». Foi, diz ele, a sua «grande escola, o palco em que verdadeiramente amadureci». Profundamente influenciado pela música popular que, enquanto jovem, foi ouvindo nos bailaricos da sua aldeia e na faina das vindimas em que o povo se ocupava - a concertina e o acordeão aliviavam o esforço dos homens, os enormes e pesados cestos à cabeça, encostas acima e abaixo -, desde cedo se serviu do genuíno dessas raízes para imprimir um cunho muito próprio às suas composições.

Quando, aos 30 anos, abriu em Lisboa o seu primeiro estúdio de gravação, a qualidade do seu trabalho musical já era sobejamente conhecida no meio. Marco Paulo, por exemplo, recorreu a ele para gravar «Joana», o maior êxito da sua carreira depois do «Eu tenho dois amores». Hoje, do Estúdio de Gravação A.M., que possui na Pontinha, saem uma média de sete, oito álbuns por ano - aparte o seu próprio e o das Bombocas - de outros tantos artistas. «Se eu fosse 50 Emanuéis, tinha trabalho para eles todos», diz ele. «Só faço 20 por cento do que me pedem para fazer. Não faço mais porque não quero, também preciso de dormir...»

Depois de cinco anos consecutivos de êxitos, Emanuel, um caso raro de comunicabilidade, apresenta-se, este Verão, com uma banda completamente renovada e um equipamento, de som e de estrada, novo mas, reconhece, subdimensionado. «Já fizemos espectáculos para mais de 20 mil pessoas, e a verdade é que não estava à espera disso e não tenho som para tanto!» Quanto à possibilidade de a fórmula que o tornou famoso estar gasta, ou em vias disso, o cantor diz não estar preocupado. «Pelo contrário. Estou a vender, este ano, quase o dobro do ano passado. Sou, por outro lado, talvez o artista mais polivalente no meio da música ligeira e popular. E sou um homem que gosta de gerir os seus recursos. E sei, garanto, que tenho suficientes para continuar a conhecer o sucesso nos próximos cinco anos.»

Vaidade? Nada disso. Não é o seu estilo. Antes a certeza, medida dia a dia, de festa em festa, frente ao palco, de que o povo gosta de cantar e de dançar a sua música. E, como diz a letra de uma delas, «se gostas do bombom, toma, toma/ prova porque é bom, toma, toma»...

Fernando Gaspar / Expresso, 22/08/1998

imagem - capa da Revista Pimba

domingo, 8 de agosto de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ele e Ela

O José Crispim foi às Noites Marcianas, acompanhado da sua oitava mulher, contabilidade de que se orgulha, uma vez que, entre casamentos e uniões de facto, a média nacional talvez deva andar entre dois a três "per capita" numa vida (enfim, isto é a olho). Foi no início da madrugada de ontem, obviamente cumprindo na íntegra a lei da televisão.

Os dois, o Crispim e a mulher, formam o conjunto Ele e Ela, um sucesso de vendas nas barracas das feiras daquilo a que chamam o "Portugal profundo". Ela, a quem ele define como o verdadeiro talento do grupo, tem um olhar sereno. Ele fala a cem à hora. Têm dois filhos, que estavam na plateia, o mais novo ainda não é adolescente.

Carlos Cruz estava satisfeito por ter o Crispim à mão, que ainda por cima o considera (a Carlos Cruz) uma espécie de anjo na terra, continuamente traído por gente a quem ajudou a subir na vida. Obviamente que o Crispim fez várias revelações marcianas, nomeadamente aquela de que a mulher se queixa do tamanho do pénis que Deus lhe deu e que já tinha pensado em fazer uma operação para o aumentar; etc., etc,.

Depois de alguns "eteceteras", o Crispim confessa que, depois de ter durante anos batido na mulher, agora é ele que leva. Felipa Garnel, outra das convidadas, foi a única que tentou ensaiar alguma indignação: "Mas batia-lhe?" A mulher confirma, sem perder a serenidade que desde o início mostrou: "Batia, batia." Crispim justifica-se: "Era o ciúme." Garnel insiste: "Então era o ciúme que batia, não era você?" Era mesmo o "ciúme". Havia demasiados risos e a alegria tanto dele como dela, talvez por se verem na televisão, talvez porque é mesmo assim, acabou com quaisquer outras veleidades e manifestações de estranheza por parte de Felipa Garnel.

Ora aqui está um crime, segundo foi aprovado pela Assembleia da República há mais de um ano, por unanimidade ou perto disso, contra quem considerava não dever a justiça meter-se na esfera privada através da utilização desse instrumento jurídico poderoso que é o crime público. Ao fim e ao cabo, e como ficou provado do pequeno diálogo de Crispim e mulher, pode haver sempre lugar para o perdão e são convívio.

Alguns dos opositores da lei desabafaram mesmo, com aquela tendência para o pagode que a todos e a cada um nos caracteriza a tempos variáveis, que "já não se podia dar um sopapo" em paz e sossego. Neste filme, trivial para alguns, que a lei designa como "violência doméstica", os protagonistas vão para além do universo do duo Ele e Ela e, como já começa a ser do domínio público, estende-se às "boas famílias", ministeriáveis, presidenciáveis de várias organizações, politicamente correctos guardiões da sua vida privada. Aprovada, publicada em "Diário da República" e em vigor, será possível saber até onde tem, para lá de um eventual efeito dissuasor, chegado a mão da lei?

Ana Sá Lopes / Público, 07/07/2001
Ele e Ela - Pão e Rosas

imagem

terça-feira, 20 de julho de 2010

Aquele querido mês de Agosto

«Aquele querido mês de Agosto», a segunda longa-metragem do realizador português Miguel Gomes, antestreia-se quarta-feira em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, evento que decorre durante o festival de cinema francês.

Produzido pela O Som e a Fúria, o filme centra-se num triângulo amoroso entre pai, filha e sobrinho, músicos de uma banda de música popular que percorre em Agosto várias festas populares do norte do país.
«Aquele querido mês de Agosto», que adopta o título de uma canção do cantor Dino Meira, foi rodado em aldeias de Arganil, Oliveira do Hospital, Góis e Tábua durante as festas de Verão e com actores não profissionais.

«Desde pequeno que faço férias na região e a ideia deste filme nasceu da observação dessas festas de Verão», disse o realizador à agência Lusa na véspera da antestreia mundial do seu filme em Cannes.
São festas de Verão, muitas delas associadas a celebrações religiosas, em aldeias que se enchem de emigrantes e de pessoas que vivem nas cidades e que no resto do ano estão desertas e despovadas, lembra Miguel Gomes.

O filme acompanha a banda de baile nos palcos e as várias situações amorosas que acontecem entre aquelas personagens. Tudo isto tendo em pano de fundo uma banda sonora feita de canções comummente apelidadas de «música pimba».

«Eu não gosto desse termo porque dá uma ideia de inferioridade em relação aos outros géneros e nós encontrámos canções que, apesar de serem pirosas, tem qualquer coisa de verdadeiro e encaixam-se, sobretudo as mais românticas, no melodrama em que se transforma a história», descreveu Miguel Gomes.
«Aquele querido mês de Agosto», tem ainda uma participação minoritária de França na produção, apoio financeiro do Instituto do Cinema e Audiovisual e da RTP.

O argumento é de Miguel Gomes, de Mariana Ricardo (ex-vocalista dos Pinhead Society) e de Telmo Churro.

Do elenco fazem parte Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Andreia Santos, Armando Nunes, Manuel Soares, Emmanuelle Fèvre, Paulo Moleiro e Luís Marante.

Esta é a segunda longa-metragem de Miguel Gomes, 35 anos, depois de «A cara que mereces» (2004) e de várias curtas-metragens como «Entretanto», «Inventário de Natal», «Kalkitos» e «Cântico das criaturas». A Quinzena dos Realizadores, que está a festejar 40 anos, termina no dia 25.

Diário Digital / Lusa, 20/05/2008

Sinopse

No coração de Portugal, serrano, o mês de Agosto multiplica os populares e as actividades. Regressam à terra, lançam foguetes, controlam fogos, cantam karaoke, atiram-se da ponte, caçam javalis, bebem cerveja, fazem filhos. Se o realizador e a equipa do filme tivessem ido directamente ao assunto, resistindo aos bailaricos, reduzir-se-ia a sinopse: «Aquele Querido Mês de Agosto acompanha as relações sentimentais entre pai, filha e o primo desta, músicos numa banda de baile». Amor e música, portanto.

http://www.osomeafuria.com/films/3/1/