segunda-feira, 22 de março de 2010

Sou um romântico brincalhão!


Foi consagrado o rei da Queima das Fitas de Coimbra, apesar de recusar esse estatuto.

Bem disposto e divertido, Quim Barreiros encara a vida da mesma forma que encara um palco: sem medo e com um sorriso nos lábios.

O DIÁRIO AS BEIRAS falou com o homem da música popular e tentou desvendar mais sobre este artista que, todos os anos, consegue levar milhares de estudantes a dançar o vira.

Este ano, e mais uma vez, a Queima das Fitas foi prova disso.

Definindo-se como um "cantador de romantismo brincalhão", o "academíssimo" - como já o apelidaram - revelou os seus projectos, falou da sua vida e deixou uma mensagem aos estudantes. Quim Barreiros é um verdadeiro homem do Norte, que mais se pode dizer?

DIÁRIO AS BEIRAS (D.B.) - É considerado o rei da Queima das Fitas. Como vê essa referência?

QUIM BARREIROS (QB)- Eu não sou o rei da Queima. Mas os estudantes universitários do Porto e de Coimbra já me chamaram "academíssimo".

DB - Há quanto tempo é convidado para actuar na Queima das Fitas de Coimbra?

QB - Desde o princípio dos anos 80. Ainda esta se realizava no parque, do lado de lá do rio.

Só houve dois anos em que não vim à Queima. Mas, de resto, tenho vindo sempre.

Gosto muito de trabalhar para os estudantes. Eles conhecem as minhas músicas e é só tocar os primeiros acordes, que eles começam logo a cantar.

DB - Como vê a Queima de Coimbra?

QB - A nível nacional, é uma das melhores festas do país, juntamente com o Encontro de Motards de Faro ou a Festa de S. Mateus, em Viseu.

DB - Mas é uma altura em quase tudo é permitido, geralmente não há limites impostos e cometem-se vários excessos. O que acha?

QB - Acho que se devem divertir durante essa semana. E se beberem, que nunca ponham as mãos num volante.

DB - É sempre assim tão bem disposto?

QB - Tenho um feito positivo e estou sempre muito bem disposto. Faço o que gosto e nesta vida devemos levar as coisas assim. Não vale a pena andar chateado porque mais cedo ou mais tarde, tudo acaba.

DB - Em que altura, e de que forma, iniciou a sua carreira?

QB - Eu não ando nisto há pouco tempo. Em 1971 lancei o meu primeiro disco. Sempre fui um homem do povo, um homem das romarias.

São mais de 20 anos de carreira. Atravessei o 25 de Abril e, depois das músicas de intervenção, surgiu novamente o gosto pela música popular portuguesa. Lembro-me que nas primeiras Queimas vinham cá os cantadores ao desafio e os Zés Pereira. Eram festas tipicamente populares. Mas depois, pegou a moda de tal forma, que a partir daí, convidaram-me sempre para a festa académica.

DB - De onde vem esse gosto pela música popular?

QB - O meu pai já era um artista da música popular.

Com 20 e poucos anos, eu já tinha frequentado a Banda de Música da Força Aérea. Depois frequentei o Grupo Folclórico de Santa Marta, que foi uma das minhas grandes escolas. Além disso fiz parte de um conjunto de baile lá da minha aldeia (Vila Praia de Âncora), e daí a minha base e o meu gosto pela música popular.

DB - A quem deve o seu sucesso profissional?

QB- Devo-o essencialmente às comunidades portuguesas espalhadas por esse mundo fora.

Depois do 25 de Abril não havia trabalho para ninguém. Tive de lutar para conseguir ser quem sou. Porque uma coisa na vida é certa: se temos bases, todos nos ajudam. Se não temos nada, só nos dão pontapés. Não foi fácil. Posso dizer que fui o artista que mais trabalhou para as comunidades portuguesas, sobretudo no Canadá e nos EUA.

Depois, começaram as festas académicas e a comunicação começou a pensar: como é que um português consegue encher um recinto com 30 mil pessoas, à semelhança de um grupo estrangeiro? E foi o Bum!!!

DB - Para quando o próximo disco?

QB- O próximo disco sai já para a próxima semana e vai chamar-se "Depois da uma". Pela primeira vez lanço duas músicas "slows", sou um romântico...

DB - Considera-se mesmo um cantor romântico?

QB- Sou, embora eu cante um romantismo brincalhão. No fundo, tem a ver com o que é nosso. Grande parte das minhas músicas relacionam-se com as cantigas de amigo, que antigamente os trovadores cantavam às moças.

DB - Guarda alguma recordação especial de Coimbra?

QB- Há cerca de 15 anos, numa Queima das Fitas, chovia tanto que todos os grupos se recusaram a actuar. Os estudantes estavam desesperados. Então eu disse que se me arranjassem uma aparelhagem eu fazia a festa. Lá desencataram uma e eu actuei durante três ou quatro horas. Depois a chuva parou e foi festa rija!

DB - Que mensagem deixaria aos "seus amigos" estudantes?

QB- Que se divirtam. Tirem o curso, trabalhem, mas divirtam-se porque a vida é curta. Não vale a pena andar chateado ou aborrecido, por não se resolve nada assim. Há que encarar a vida com um sorriso e com optimismo. E já sabem, se beberem, nunca ponham as mãos no volante.

Entrevista de Patrícia C. Almeida
http://www.asbeiras.pt/2002-05-18/n1.htm

domingo, 21 de março de 2010

Por dentro da canção «pimba»

Em plena situação já de naufrágio, a gestão de programas da TVI lançou mão do cantiguismo dito «pimba» para conquistar audiências que permitam à estação manter-se à difícil tona de água. Fê-lo sem quaisquer escrúpulos ou problemas de consciência, nem parece, aliás, que José Eduardo Moniz seja homem para grandes pruridos desse tipo, mas em verdade não haveria grandes motivos para isso: o «pimbismo» é muitíssimo democrático, pois apenas acata o que parece ser o gosto maioritário do público e, para mais, está muito de acordo com as sagradas leis do deus Mercado que mandam vender ao consumidor a droga que ele procura. Assim nasceu nas estratégicas noites das sextas-feiras a rubrica «Os Reis da Música Nacional», título aliás curioso porque tem um travo de monarquia mítica, género conto de fadas, e conotação com um entendimento dos valores «nacionais», e não talvez mais simplesmente portugueses, que é capaz de cair bem em ouvidos nacionalistas eventualmente sensíveis à saudade da «Assembleia Nacional», da Emissora Nacional, de outras instituições nacionais.

Na verdade, só por um excesso seria possível censurar com grande aspereza a TVI por ter recorrido ao apoio do Universo Pimba, passe por agora o exagero que esta expressão contém, numa situação que lhe era de vida ou de morte: a canção pimba, que aliás não é mais que a versão actual da canção medíocre de sempre e cujas fronteiras estão longe de serem nítidas, tem sido bem acolhida por todo o lado, com natural destaque para a RTP1 e para a incomparável promoção que resulta do «Made in Portugal». Acresce que a música pimba tem merecido referências muito compreensivas, se não simpáticas, por parte de homens cuja cultura, incluindo a musical, e o espírito progressista são indiscutíveis e indiscutidos, o que por vezes impressiona até ao desconcerto. Tudo isto aconselha a que avancemos com cautelas neste terreno mais difícil do que pareceria.


Enganar, embalar

Por muito que já se vá sabendo que é de pouco rigor separar forma e conteúdo, bem como a música e as palavras no caso de uma canção, é quase inevitável que o façamos, como que por facilidade de ordem prática, quando sobre canções se queira discorrer um pouco. Assim, não será excessiva audácia dizer que a pobreza musical do cançonetismo pimba é sua característica e uma das razões por que é rejeitado por quem ambiciona para a canção mais do que sol-e-dó dançável. Porém, parece certo que são as palavras que mais determinam essa mesmíssima rejeição, convindo aqui lembrar que a cantiga rigorosamente pimba tem directa relação com uma brejeirice nos casos mais «hard» vizinha da obscenidade, como é documentado pelo repertório de Quim Barreiros, que por ele bem merece o cognome possível de Rei do Lixo. Nestes casos, a rejeição do pimba justificar-se-á pela recusa em aceitar o avacalhamento do sexo até nível da anedota com pejoração da sensualidade, o que é uma outra face do puritanismo hipócrita.

Trata-se, como bem se entende, de uma forma de falsificar a vida e de agredir a sua legitimidade. Porém, falsificação da vida é também a modalidade «soft» da canção pimba, agora a mais corrente: aquela vasta área a que talvez pudéssemos chamar a Galáxia Ágata cultiva o que afinal não é mais que a reedição actualizada do cançonetismo convencional e melado que já há décadas era versão musicada da subliteratura de cordel. Chamaram-lhe então nacional-cançonetismo para que ficasse denunciada a sua função coadjutora e afluente da modalidade de nacional-socialismo que nos tiranizava. Contudo, integrada na função política estava a viciação de natureza cultural que falsificava o real e produzia efeitos analgésicos e soporíferos. Neste sentido, a canção pimba é, ironicamente, uma canção de embalar. É também isso, é talvez sobretudo isso, que se rejeita na corrente mais branda do pimbismo dominante em várias zonas do actual cançonetismo português e agora entronizado em «Os Reis da Música Nacional», da TVI.

Entenda-se: não é que Emanuel, Ágata, Ruth Marlene, Mónica Sintra e homólogos tenham propósitos ou sequer sonhos de natureza política: o que eles querem é ganhar a sua vida menos mal, o que é natural e legítimo. Tão-pouco lhes passará pelas cabeças terem o menor resquício de acção anticultural, nem esse é território que lhes interesse. Não obstante, só por extrema ingenuidade poderia supor-se que um produto musical, mesmo menor, não teria significado e efeito cultural, ou que um mass media como a canção também é poderia ser vazio de autêntica informação ideológica. Aliás, com inteira percepção disso ou não, tem forçoso significado a óbvia simpatia com que a canção pimba é encarada pelos que dominam os grandes meios de comunicação. O caso é que eles não são parvos nem distraídos. Façamos a nós próprios o favor de também não o sermos.

Correia da Fonseca / «Avante!» Nº 1333, 17/06/1999

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

… Nós marketing, nós marketing

Editoras, produtoras, agentes e artistas funcionam como peças de uma máquina bem oleada. Chamam-lhes pirosos, foleiros, pimba. Eles respondem com os discos vendidos e os concertos feitos aquém e além-mar.

Contra factos não há argumentos

E se elas querem um abraço ou um beijinho,… nós pimba, nós pimba. E se elas querem muito amor, muito carinho,… nós pimba, nós pimba. Este é o refrão do primeiro grande êxito de Emanuel e que lançou nas bocas do mundo a expressão Pimba. Mas não foi só a música de Emanuel. Inspirado nesta música, um jornalista da TVI criou uma nova classificação para um conjunto de artistas que começava então a ter acesso à televisão, porque nas bombas de gasolina e bancas de feira, há muito tempo que os seus nomes eram conhecidos.

Mesmo os que aceitam a classificação ‘pimba’ tem alguma dificuldade em explicar o que distingue afinal a música pimba, de todas as outras. «Nunca se sabe onde começa e onde acaba. É mais uma questão de atitude do que de música», defende Pedro Miguel Pereira da Digifilme, empresa produtora da maior parte dos videoclips que passam no "Made in Portugal". A receita parece simples: uma música que fica no ouvido, rimas de amor ou traição e um vestuário sugestivo. Mas é mais complexo do que isso. As personagens são construídas ao pormenor, num conjunto onde música, letra e imagem combinam na perfeição. Da mãe solteira, à mulher atraiçoada, passando pela fundamental ‘femme fatale’, há especialistas para as músicas, para as letras, para a imagem, para os videoclips e para os concertos. Há muita promoção televisiva e radiofónica. Não há lugar para amadorismos.

Caça ao talento

Como é que se descobrem talentos? O processo é comum a quase todas as editoras. Estas empresas têm pessoal especializado que ouve dezenas de maquetes diariamente, vai a concertos de novos valores e está atento ao que passa na rádio e na televisão. «Como no futebol, também temos os nossos olheiros. Foi assim que apareceu o pequeno Saúl. Viram-no a cantar numa determinada festa e acharam que sendo trabalhado podia ser sucesso», explica Carlos Sousa da Vidisco. Mas nem sempre o princípio do processo está na maquete ou no concerto. NZ Produções é como se chama a empresa que fez dos Excesso, e mais recentemente dos Anjos, sucessos estrondosos. Ao contrário do que é costume no meio, nesta empresa de produção, agenciamento e marketing não se espera pelas maquetes dos talentos com aspirações a artistas. Aqui o conceito nasce primeiro. Só depois vêm as pessoas. E nesse caso recorre-se ao casting. Assim nasceram os Excesso. «Procuramos projectos que fazem falta no mercado musical e a seguir procuramos as pessoas certas para lhe dar forma», explica Nuno Carvalho, sócio-gerente da empresa. Foi a partir da utilização de toda uma nova filosofia de marketing que a NZ se envolveu em iniciativas inéditas, como o lançamento de um perfume para apoiar a promoção de um single dos Excesso. O aroma quente de "Loucura" agradou às fãs da boys band e vendeu perto de mil unidades só no primeiro dia.

Letra e música de…

«Afinal havia outra e eu sem nada saber, sorria. E por ele andava louca, pra ser sua mulher, um dia». Quem diria que este sucesso de Mónica Sintra foi escrito e composto por um apreciador de heavy-metal. De músico de rock alternativo, Ricardo Landum passou a compositor, por encomenda, de música ligeira. «Música de entretenimento, levezinha, para ser ouvida sem preconceitos» é como o autor classifica estas cantigas. Quer se trate de trocadilhos bem humorados ou de dolorosos versos de traição, o sucesso é quase certo. E os clientes cada vez mais numerosos e fiéis. Ágata, Micaela, Romana e Tayti são apenas alguns exemplos de artistas que dão voz às palavras escritas por este compositor. E não se têm saído nada mal. Outro nome conhecido da composição é Tony Carreira. Com onze anos de uma carreira, passo a repetição, «na linha da música ligeira com um toque de country-music», o conhecido cantor foi responsável também pelos sucessos dos outros. «Dá-me gozo compor para diferentes artistas e estilos de música», explica. Só assim é possível escrever para nomes como José Malhoa e Ilda de Castro mais recentemente para a já extinta girlsband Tentações. Foi ele que as pôs as moças a pedir "Vem meu amor, que ainda quero mais. O que me dás não chega. Vem meu amor que ainda quero mais. Eu quero a tua entrega total, total, total (com eco)".

Quem tem a pinta?

No universo da música rotulada como pimba, há de tudo. Decotes proeminentes, saias que mais parecem cachecóis, botas de cowboy e t-shirts justinhas. Roupa feita pela mãe ou confeccionada por um estilista. É que, como a experiência já ensinou a Carlos Sousa da editora Vidisco, «as pessoas gostam não apenas da voz e das músicas, mas também dos olhos azuis, do gel no cabelo, da bota e do gesto». Mas, apesar de tudo, nota-se a tendência para a aposta num visual cada vez mais clean, abandonando as plumas e lantejoulas de outros tempos. E entre os artistas há uma preocupação crescente. «A imagem é parte fundamental de qualquer coisa», afirma Fernando Correia Marques. «Dá-nos a possibilidade de vender o produto de forma mais atractiva», acrescenta o cantor de "O Burrito". Mas se a maior parte dos artistas entrega a sua imagem nas mãos de editoras e criadores de moda, como é o caso de Mónica Sintra que só veste roupa com a etiqueta João Rolo, ainda há quem prefira ser dono e senhor dos ‘trapos’ que usa. É o caso de Tony Carreira. «Visto um determinado estilo de roupa, porque gosto de me ver com ela» E como a imagem não se esgota na camisa e nas calças que usa, o cantor apressa-se a explicar que na área da promoção só faz o que lhe apetece. «Só vou à televisão quando não me vêem há muito tempo, só canto com músicos ao vivo e não vou a cocktails do jet-set», garante.

Os longos anos de carreira deram a Ágata o poder de decisão nesta área. «A minha imagem é unicamente consequência da minha forma de ser e de estar na vida», explica a ex-Doce e voz da Abelha Maia. «Nada é artificial, nem estudado», conclui a artista. Mas será que Ágata se veste assim quando vai ao pão?

Para além de gerir a sua própria carreira que conta já com dois discos de ouro e três duplos de platina, a artista apoia os seus protegidos. «Sempre me senti atraída com a possibilidade de poder impulsionar outros cantores da música ligeira e agenciar os seus compromissos». Foi assim que Portugal ficou a conhecer Romana e Rebeca, sobrinhas de Ágata, que se lançaram com os êxitos "Continuas chamando-me assim bébé" e "Vai ver se chove", respectivamente. A Ágata Produções tem site na Internet, onde os admiradores podem ter acesso às biografias, discografias e fotos das artistas e aderir ao clube de fãs da cantora que eternizou o belo verso: "Por isso sai, sai da minha vida, Sai, não te quero ver… Sai que morro de ciúme, desse perfume… da outra… mulher".

Video Stars

Porque a imagem não acaba na roupa de marca e no penteado da moda, os videoclips merecem uma atenção cada vez mais cuidada. E investimentos cada vez maiores. O processo é simples. Com a ideia do artista e o CD a tocar, os responsáveis das empresas de produção audiovisual imaginam o vídeo. «Quando fazemos um clip temos de atingir três objectivos: gerar a venda do produto, tornar o artista conhecido e preparar terreno para o espectáculo», explica Manuel Cunha, sócio-gerente da Digifilme. Aprovados a sinopse e o orçamento, é hora de avançar. E há ideias para todos os bolsos, dos 400 aos quatro mil contos. Mas, ao que parece, cantar para a câmara tendo como pano de fundo apenas a parede de um estúdio ou reproduzir uma actuação ao vivo parece já não ser suficiente. Fernando Correia Marques foi um dos primeiros a percebê-lo. Ao sucesso de "O Burrito" não terá sido alheio o clip realizado para o tema. «Eu joguei com a imagem, brinquei com desenhos animados, uma coisa que em Portugal nunca se tinha feito», explica o cantor. Assim surgiu um clip animado com o cantor montando um jumento de pernas altas, enquanto trauteava «Quando quero ver aquele amor meu, eu pego no burrito e lá vou eu».

Contrariamente ao que se possa pensar, não são as editoras internacionais as que mais investem nesta área. Reconhecendo a importância da imagem, as editoras independentes disponibilizam verbas de fazer inveja às multinacionais. «É preferível investir forte e bem, do que estar com a preocupação de poupar e depois sair uma coisa que não resulta e que pode prejudicar definitivamente o artista», opina Carlos Sousa da Vidisco editora dos Santamaria, um exemplo de sucesso. O grupo de dance music portuguesa foi pioneiro numa nova tendência: clips filmados em espaços amplos em película de cinema. O vídeo de "Tudo pra te amar" foi gravado no cimo de um prédio na Expo com recurso a meios e efeitos especiais pouco vulgares. «Tínhamos um PA de luz, um gerador com um cabo de 100 metros e uma grua para a câmara. Pusemos 200 pessoas no topo do edifício», recorda Pedro Miguel Pereira da Digifilme. A trabalheira ficou em 4.200 contos, mas o resultado foi surpreendente, tendo o clip sido distinguido com o prémio de melhor produção.

Pelos caminhos de Portugal

Tal como Serafim Saudade, todos estes artistas são reis da rádio, da TV e da K7 pirata. Não há feira ou quiosque que não tenha uma banca ou expositor com K7’s e CD’s de Ágata e companhia. E no Verão é ver os emigrantes a parar nas primeiras áreas de serviço portuguesas para abastecer os depósitos e os rádios dos seus automóveis. O produto mais vendido é a mini-K7 com quatro ou cinco hits do artista e preço bem mais acessível que o CD. Depois de anos de reinado da K7 pirata, é agora a cópia ilegal do CD que mais preocupa as editoras. «A K7 é mais difícil de piratear desde quer foi criado o Lay-Card. Agora existem pessoas a ganhar fortunas com os CD’s. Compram-nos virgens, vão a uma gráfica, imprimem capas exactamente iguais e depois vendem-nos a preços extremamente aliciantes», explica Santos Costa gerente da editora Sucesso. A fraude revela consequências graves em termos de vendas, tendo a editora registado quebras na ordem dos 60%.

E como não há feira sem K7, não há festa nem romaria sem bailarico. Nos meses de calor, os artistas desdobram-se em deslocações e concertos pelos caminhos de Portugal. Só em 1999 as Tayti fizeram mais de 150. A assistência rondava em média as cinco mil pessoas, mas na Madeira as artistas cantaram para mais de 30 mil pessoas num espectáculo integrado numa festa do PSD regional. O custo varia consoante o nome do cantor e o modelo de actuação. Uma hora de Micaela em play-back instrumental custa 490 mil escudos. Se quiser banda e bailarinos a comissão organizadora terá de desembolsar mais 360 contos. E para quem quiser ficar com um souvenir, merchandising também não falta. Das habituais t-shirts às indispensáveis esferográficas, passando pelos bonés e porta-chaves. Para o menino e para a menina. À venda pelos caminhos de Portugal e via net nos sites das editoras ou empresas de agenciamento.

TV Pimba

Todas as semanas, a festa começa sexta-feira à noite, com o "Reis da Música Nacional" na TVI, e dura até ao princípio da tarde de Domingo quando vai para o ar, na RTP1, o "Made in Portugal". Pelo meio, a animação passa pela SIC no já mítico "Big Show" de Ediberto Lima e João Baião. É uma autêntica maratona de videoclips e play-backs de artistas da música portuguesa. Popular ou pimba, como preferirem. A abertura da televisão a esta música deu a conhecer ao público os corpos e as caras de históricos como José Malhoa e Ágata, e fez surgir um exército de novos talentos perseguindo o dinheiro e a fama. Foi assim que nos habituámos a ver artistas como Ruth Marlene e Iran Costa a entrarem-nos pela casa a dentro, às vezes mais que uma vez por semana, naquilo que Fernando Matias, director-geral da editora Ovação, classifica como «uma concentração excessiva e algo manipulada». A explicação é simples e vem de quem escreve as músicas que integram estas maratonas televisivas. «Os produtores dos programas não teriam lá os artistas se o público não gostasse deles. E quem faz as audiências não são as elites, é o povo», afirma Ricardo Landum.

Os mesmos nomes dominam os charts destes programas televisivos e lá permanecem semanas a fio. Mas como são elaboradas as tabelas do "Made in Portugal" e do "Reis da Música Nacional"? Das vendas das associações fonográficas portuguesa (AFP) e independente (AFI), às músicas mais passadas pelas rádios, passando pela contabilização de chamadas telefónicas, tudo vale para construir um top. «No "Made in Portugal" é utilizada uma fórmula que combina as declarações de vendas da AFP e AFI com as músicas escolhidas por 60 rádios locais e nacionais», explica José Silva Pedro, director de produção do programa. Tudo em prol do equilíbrio entre o que se ouve e o que se vende. Porque «as rádios passam as músicas antes destas serem postas à venda», justifica. As normas obrigam à exibição de sete vídeos da tabela de um a vinte. Para além de mostrar o primeiro lugar, o programa dá prioridade aos clips das entradas novas, reentradas e subidas mais altas. Mas as regras do programa e as justificações do produtor não convencem toda a gente. «Lembro-me de ver há uns tempos atrás um desconhecido qualquer em segundo lugar, enquanto que o Rui Veloso estava em vigésimo lugar. Ora qualquer pessoa de bom senso não acredita nisto», refere Pedro Miguel Pereira. A culpa é da fórmula matemática.

O Reis da Música Nacional dá voz aos gostos musicais dos telespectadores, elaborando o top de acordo com as chamadas telefónicas para números que correspondem a temas de artistas. Apesar de José Silva Pedro garantir a utilização de um sistema que actua como filtro, identificando os telefones de onde provêem as chamadas, o processo suscita desconfianças. «Eu acredito que existam telefonemas do público, mas não acredito que as trinta mil chamadas recebidas por programa correspondam a trinta mil espectadores», avisa o responsável da Digifilme. «As pessoas também não estão para gastar 500 escudos para votar num artista, por mais que gostem dele. De onde vêm então os telefonemas?

Mas com ou sem manipulação de resultados a televisão é o ingrediente mágico que pode transformar a carreira de qualquer um destes artistas num mega sucesso. Porque no fundo, foi a televisão que fez da música popular, música…pimba!

Pimba na lei

Como qualquer outro, o universo do marketing discográfico e musical também tem coisas menos sérias das quais se fala apenas em voz baixa. Para terem uma maior projecção e entrarem na tabela dos mais vendidos, há artistas que chegam a comprar quantidades enormes dos seus próprios álbuns. «De que outra forma é que o Abrunhosa teria entrado no TOP com este álbum novo?», pergunta Nuno Silva, sócio-gerente da PAS – Produção, Agenciamento e Serviços.

A falta de seriedade de alguns agentes de espectáculos também é alvo de críticas por parte deste empresário. «Conheço um caso vergonhoso. O concerto de uma determinada girls band custava mil contos, mas cada uma das quatro menina só recebia 25 contos», conta.

Também Pedro Miguel Pereira não hesita em criticar aquilo que classifica como «um processo de marketing e de promoção dominado por lobbies». As condições a que os artistas se sujeitam escapam ao público que os vê na televisão e nos concertos. Os tempos em que recebiam cachet para ir à televisão já fazem parte do passado. Agora vão em promoção e alguns seriam até capazes de pagar para terem direito a aparecer na caixinha mágica. «E para que os agentes lhes consigam marcar espectáculos pelo país fora, têm de fazer fotografias com bailarinas de pernas ao léu», acrescenta o responsável comercial da Digifilme. Ossos do ofício…

Marta Coelho / Marketing & Publicidade nº24 Jun 2000

1-O sucesso de cantoras como Ágata, Micaela, Tayti ou Romana é inegável. São autênticas coleccionadoras de discos de ouro e platina
2-O primeiro êxito de Emanuel lançou nas 'bocas do mundo' a expressão Pimba
3-Cláudisabel:' Preciso de um herói' já vendeu 26.000 cópias
4-Fernando Correia Marques depressa percebeu a importância da imagem
5-Santos Costa: ganham-se fortunas com os CD's piratas
6-Não há feira sem K7. Estas são o maior símbolo da música pimba
7-Pedro Miguel Ramos, apresentador do Reis da Música Nacional

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ser Ou nâo Ser Pimba

Foi assim que começou o verão de 1994... devagarinho, com um som absolutamente ridículo e que quase por mais de 5 anos dominou o mercado português. Depois do Emanuel e do Quim Barreiros, houve tempo para Os Bacalhaus com Alho, para Os Quizinhos de Portugal, e para as sempre volumosas, Ruth Marlene, Ágata e Romana... enfim, pimba até mais não. Foleiro até á ultima casa!

Mas foi ao ler um artigo da revista Sábado que descobri que se calhar não somos assim tão pimba. Somos, mas com aquela dose saudável...já fomos mais...agora menos...um dia quem sabe nada!

Porém confesso que aquele artigo mexeu comigo.

Para eles tudo era pimba. A forma como as pessoas se vestiam, a falta de capacidade de comprar artigos de marca e por isso recorrer à feira ou a lojas de menor qualidade mas d eigual vislumbre, o chinelo no dedo, o gosto de ir até ao Algarve dar um pezinho de dança numa discoteca da moda. Eu sei lá. Para eles Portugal está parado no ido ano de 1994 com piscares de olho a 197...e qualquer coisa.

Claro que há coisa condenáveis até mais não! É verdade que so coletes enfiados nos bancos do carro são foleiros. Que andar a ouvir música como uma discoteca ambulante, especialmente Regatton, tipo Daddy Yankee e a sua Gasolina é um atentado ao bom gosto, que usar óculos na cabeça apenas para fazer de bandolete até mete dó, que usar coisas apenas berrantes é atrós, e que falar apenas de reality shows demonstra uma grande pobreza de cultura geral.... Mas não seremos no intimo, sempre todos nós, um bocadinho pimbas? Veja-se que há até um certo divertimento, nos casamentos, em dançar o Apita o Comboio. Que é giro mixolhocar nas feiras da aldeia e comprar uma camisa foleirissima apenas porque diz o nome de uma coisa parva que se aprendeu naquele ano. Que nadamos todos de chinelo no dedo, de plástico e não de pele, porque a pele, meus caros senhores, magoa!

Acho que assim sim. Sem exageros a coisa vai!

Agora andar para ai a apontar o dedo, afirmando aos sete ventos que os portugueses são uma miséria isso é que já não! Já lá vai o tempo. Eu sei que ainda há por ai muito mau gosto, mas nem todos podemos ir a Louis Vitton ou à Armani.... e todos sabemos que muitos dos que lá vão compram qualquer coisa, desde que o artigo tenha a marca bem estampada. Por isso as lojas vendem-lhes o refugo. Veja-se o nosso menino Cristiano Ronaldo...até mete dó com algumas coisinhas que tem, só porque dizem Dolce e Gabanna.... e como ele muitos outros jogadores de futebol e novos ricos eque se arrepiam só por ouvir falar em Zara, H&M ou outra qualquer grande loja de roupa sem marca estampada na frente!

Mas enfim. É este o Portugal que temos...e se é Pimba...então, Nós Pimba!

Não é melhor do que passar o tempo a apontar o dedo?

Hugaco (Alcateia de Loucos), 25/07/2005
http://alcateialouca.blogs.sapo.pt

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

To Pimba Or Not To Pimba

AS DIFERENÇAS entre a chamada música «pimba» e «não pimba» são ligeiras, quase circunstanciais? Ou são diferenças de forma e conteúdo que reflectem o conflito entre tendências opostas do génio lusitano, a falha abissal entre duas visões de um mesmo país, formas irremediavelmente diversas de «estar na vida e na música»?

À primeira vista poder-se-ia dizer que a primeira tem a principal base de apoio no Portugal rural e no interior, que reconhece os seus artistas como heróis da classe operária e trabalhadora, homens e mulheres que conseguiram segurar o destino nas mãos e se ergueram a pulso bem acima da média comum aos outros mortais - exemplos a seguir. Embora alguns êxitos sejam simples versões portuguesas de composições adquiridas a «publishers» alemães e italianos, as canções são frequentemente influenciadas pelos ritmos tradicionais do vira, do malhão e do corridinho e acentuam o sentido de etnicidade, mas também a diferenciação sexual. Há canções especificamente destinadas a homens, há canções para mulheres, e há canções de amor, que, como escreveu J.G. Peatman, poderiam ser divididas em três grandes grupos: as que contam como somos felizes quando estamos apaixonados (como em «Escrito no Céu», de Ágata); as que contam como é frustrante estar apaixonado (como em «Maldito Amor», também de Ágata); e as que contam curiosidades maliciosas com nítidas conotações sexuais.

Em geral fornecem ao seu público uma linguagem convencional para o namoro e a atracção sexual e ajudam a forjar uma sexualidade. Apesar da concorrência brasileira do «Tchan» e do «Bicho», Verão após Verão o acordeonista minhoto Quim Barreiros continua a ser o mestre incontestado do género, somando êxitos como «Chupa Teresa», «Deixa Só Botar a Cabeça», «Nunca Gastes Tudo» ou «Mestre da Culinária». O aparecimento, no ano passado, de uma criança de nove anos (o pequeno Saul) interpretando «O Bacalhau Quer Alho» é a prova de que a indústria está atenta.

A sério ou a brincar, as canções pimba também falam de estados de alma e de sensibilidades emocionais, ajudando a redefinir ou recentrar a condição social dos seus ouvintes, oferecendo-se como referente das regras e comportamentos sociais: neste sentido, observe-se que parte significativa da produção toma os emigrantes como tema, sob as mais diversas formas. Pode ser o drama do acidente rodoviário em terras de Espanha, como numa canção de Graciano Saga; a garantia de que «A Portuguesa é a Mais Linda», como canta Jorge Ferreira; ou a simples celebração de prazeres tão privados quanto o nosso «Verde Vinho», de Paulo Alexandre. O brilho fica com os intérpretes, os autores das canções remetem-se quase sempre para um bastidor discreto (como Ricardo Lundum) mas também transmitem a ideia de que a vida é só uma, mas difícil - embora valha a pena lutar por ela, porque todas as oportunidades devem ser bem aproveitadas - e não se alongam sobre temas que sejam perversos, controversos, desconfortáveis ou irreais.

Comparada com elas, a restante música popular portuguesa ou é antiga e ultrapassada, como a dos nossos avós, ou é litoral, cosmopolita e intelectualizada, pejada de referências estrangeiras e de diálogos com tudo o que vem de fora, que podem ser mais bem compreendidos no café da cidade do que no café da aldeia. É uma música que, não se contentando em ser portuguesa, quer ser no mínimo europeia e leva esse exagero a extremos tais que muitos dos seus artistas preferem cantar em inglês. É uma música onde ninguém se contenta com a glória de ser intérprete - todos, quase sem excepção, persistem em ser autores e compositores, não para venderem o seu trabalho em cassetes de 700 escudos, mas em CD de quatro contos.

A primeira é a música do país que perpetua e ritualmente se reencontra, as canções que imaginam conseguir mostrar como nós somos. A segunda é a música do país que perpetua e ciclicamente se reinventa, as canções que imaginam conseguir mostrar que também somos capazes. As diferenças são entre a música popular como reconciliação ou revolução. Evidentemente, tudo isto é relativo: de um certo ponto de vista também poderiam encontrar-se semelhanças entre as duas correntes.

Por exemplo, seja em palco, na rádio, no «playback» ou no teledisco, qualquer canção se assemelha mais a uma pequena peça de teatro do que a um poema acompanhado de música. E é assim que as percebemos, como episódicos retratos de uma realidade que pertence a todos e a ninguém, transmitidos com maior ou menor sentimento pela voz e os gestos de um cantor/actor. Outras semelhanças há que são forçadas, desde os anos 30, pelo ponto de vista institucional, o que domina os gabinetes de programação: desse ponto de vista, tudo isto se resume a «música lie tem uma cor indistinta. Por isso, temos programas de variedades mas não temos bons programas sobre música «pimba», ou sobre música «não pimba» E, de um certo ponto de vista, tanto faz.

Revista / Expresso, 22/08/1998 (artigo «Génio Lusitano»)